Seu coração erra uma batida. “Reparar o mal”? Isso parecia pouco — ou muito — dependendo do que ainda estava por vir.
— Então é isso? — Pergunta, sem ainda entender.
O segundo advogado, mais jovem, intervém com delicadeza:
— Senhora… há também uma carta pessoal. Ele nos pediu que deixássemos com a senhora. Está no fundo do envelope.
Seu coração dispara de novo.
Ela alcança o envelope e retira um envelope menor, escrito à mão. O nome dela está ali, no meio da folha. Simples, direto. “Ava”.
— Podem me dar um minuto a sós?
Os advogados trocam olhares rápidos e assentem, recolhendo suas pastas.
— Claro. Estaremos aguardando lá fora.
Assim que a porta se fecha, ela permanece sozinha na sala. Encara a carta por um longo instante. Sabe que, ao abri-la, não haverá mais volta. Seja o que for, a verdade está ali dentro.
Sem mais demoras, começa a ler.
Ava…
Se você está lendo esta carta, é porque finalmente fiz o que deveria ter feito desde o início. Sei que sequer mereço sua atenção. Mas você merece a verdade, inteira, crua e sem máscaras.
Eu entrei na sua vida com segundas intenções. Não porque planejei te machucar, mas porque fui fraco, quando pensei só em mim, e orgulhoso demais para admitir que, no fundo, você já tinha me desarmado desde o primeiro olhar.
A empresa foi só o começo. Um jogo de poder. Achei que poderia controlá-la, manipulá-la, usá-la como tantos outros… mas você me tirou do eixo. Me mostrou que havia mais. E foi nesse “mais” que eu me perdi.
Fiz coisas imperdoáveis. Menti, me omiti, me aproximei por interesse e, no meio desse caos, me vi amando você. Não o amor romântico idealizado que eu fingia desprezar, mas um amor real, torto, humano, que me fez questionar tudo o que eu era.
Eu não estou devolvendo as ações da empresa como um pedido de desculpas. Estou devolvendo o que nunca deveria ter sido meu. Um pedaço seu que tomei sem permissão. Um espaço que não conquistei com verdade… De juros, por todo o mal que te causei, quero que fique com tudo o que tenho como prova do meu real arrependimento. Eu não me importo mais com propriedades, com poder, com ações… Desde o dia em que percebi que perdi o que era mais valioso para mim, você.
Nos últimos dias, o medo de te perder foi tão grande que preferi esconder a verdade, mesmo sabendo que a mentira poderia doer ainda mais. Não estou aqui para implorar pelo seu perdão, nem para te forçar a esquecer. Mas se, depois de tudo o que te confiei, houver um único segundo em que seu coração hesite e você sentir que ainda falta alguma coisa… então saiba que ainda me resta uma última coisa a te oferecer. Talvez não tenha grande valor aos olhos do mundo, mas é tudo o que me sobrou: o meu coração.
Ao terminar a leitura, uma lágrima solitária escorre por seu rosto. Seus olhos permanecem fixos na última linha da carta, como se não quisessem se desprender das palavras que ainda ecoavam dentro dela. Estava profundamente tocada. Não apenas pelo conteúdo, mas pelo peso do arrependimento, pela entrega sincera e pela vulnerabilidade de alguém que, enfim, se despia de todo orgulho.
— O que faço agora? — murmura, quase sem voz.
Olha para o teto, depois para as paredes silenciosas da sala, como se buscasse ali alguma resposta que aliviasse o furacão em seu peito. Parte dela queria correr até Hector, envolvê-lo num abraço apertado e dizer que o perdoava. Mas outra parte, mais cautelosa, ferida e racional, sussurrava que precisava de tempo. Que não podia se deixar levar apenas pelo sentimento.

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