Rafaela permanece em silêncio por alguns segundos, como se o tempo tivesse congelado ao seu redor. Seus olhos, antes serenos, agora estão arregalados, fixos no rosto do marido, como se buscassem alguma explicação que fizesse sentido. Mas não havia.
— O... o quê? — sussurra, quase sem ar, como se as palavras tivessem dificuldade para sair.
Ela recua levemente no banco, com o coração batendo tão rápido que parece ecoar em seus ouvidos. Seus dedos começam a tremer, e a boca seca mal consegue articular outra pergunta.
Ethan tenta se explicar, mas cada palavra que sai de sua boca parece mais um golpe. Seu estômago embrulha, a mente gira, como se tivesse sido arremessada em um pesadelo do qual não consegue acordar.
— Não… — murmura, com a voz embargada. — Isso não pode ser verdade… você… você não é esse homem…
Sem suportar mais um segundo ali dentro, ela puxa com força a maçaneta da porta e sai do carro sem olhar para trás. O vento frio da noite toca seu rosto, mas ela não sente. Está anestesiada.
Começa a caminhar pelo acostamento, escutando o som dos seus próprios passos abafados pelos pensamentos tumultuados. Leva as mãos à cabeça, tentando compreender como o homem que amava, com quem construiu uma vida, foi capaz de esconder algo tão cruel.
Ela para por um instante, encara o céu escuro e sente as lágrimas escorrendo sem permissão. Queria se manter no controle, mas o nó na garganta é tão apertado que a sufoca.
— Meu Deus… — sussurra, sem saber se está falando com Ele ou consigo mesma.
Parado ao volante, Ethan a observa com os olhos marejados, mas sem coragem de sair. Pela primeira vez, teme que o amor que construíram não seja suficiente para segurar o peso da verdade. Ele encosta a testa no volante, fechando os olhos com força. O peito sobe e desce num ritmo descompassado, enquanto as lágrimas começam a cair.
Então chora. Não com alarde, mas com uma dor profunda, silenciosa e desesperada, a dor de quem finalmente desenterrou um pedaço sombrio de si mesmo e o lançou sobre a única pessoa que mais temia perder.
— O que foi que eu fiz? — murmura, com a voz falha, sufocada pelo choro contido.
Os minutos se arrastam e, lá fora, Rafaela continua caminhando pelo acostamento, cada passo dela parece ecoar como um afastamento irrecuperável.
Tentando não perder o controle de tudo, Ethan ergue finalmente a cabeça, limpa o rosto com a manga da camisa e solta um suspiro trêmulo. Ele não podia deixá-la ir assim. Precisava ao menos tentar se explicar, ainda que soubesse que algumas coisas não tinham explicação possível.
Abre a porta devagar, como se até o som do metal o machucasse, e desce do carro. Ele fecha a porta com cuidado e começa a caminhar atrás dela.
— Rafaela… — chama, com a voz baixa.
Ela não para. Está com os braços cruzados sobre o peito, como se tentasse se proteger de algo muito maior do que o frio.
— Rafa, por favor, espera… — ele insiste, aumentando o passo.
Ela desacelera, mas não olha para trás. Só quando ele se aproxima o suficiente, ela para e solta um suspiro pesado, ainda sem o encarar.

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