Após ouvir todo o desabafo de Doris, Ava sente um aperto no peito. Uma pontada de culpa a atravessa ao se dar conta de que, nas últimas semanas, havia sido dura demais com aquela mulher, alguém que, no fundo, só estava tentando sobreviver a um passado que ainda sangrava por dentro.
Quando Doris sai do quarto, com passos silenciosos e a cabeça baixa, Ava fica ali, olhando para a porta fechada.
E, sem pensar duas vezes, faz uma promessa silenciosa a si mesma: não vou usar essa dor contra ela. Nunca.
Doris merecia, ao menos, esse respeito.
Determinada a limpar a cabeça, Ava se levanta, veste um casaco leve, calça um par de tênis e desce para o jardim. O ar fresco do lado de fora a envolve como um abraço suave. Respirando fundo, deixa que a brisa leve apague um pouco a confusão de sentimentos que ainda corre dentro dela.
A casa de Hector fica próxima à praia e, de onde está, ela consegue sentir o cheiro do mar misturado ao perfume das flores que cercam o jardim. Sentia uma vontade enorme de ir até lá, de pisar na areia, de sentir o mar nos pés.
Mas sabia que não podia se arriscar. Ainda era cedo demais para ser vista por alguém que não deveria saber de sua presença.
Mordendo o lábio inferior, frustrada, se limita a caminhar pelos arredores do jardim, passando pelas plantas cuidadosamente alinhadas, pelas pequenas trilhas de pedras, pelos bancos de madeira estrategicamente posicionados debaixo das árvores e da piscina.
Ah, aquela piscina…
“Para com isso, Ava, você precisa manter o foco”, repete para si mesma.
Só que, no fundo, sabe: a partir do momento que o desejo começa a se envolver, o foco… se torna uma batalha ainda mais difícil de vencer.
De repente, ouve o som de um motor de carro. Virando o rosto, vê o carro de Hector atravessando o portão de entrada. Seu coração acelera sem permissão, e ela se força a desviar o olhar, fingindo interesse em uma flor qualquer do jardim. Mas é inútil.
Em poucos segundos, Hector aparece, descendo do carro com algumas sacolas nas mãos. E, é claro, caminhando em sua direção com aquele sorriso provocador que parecia ter sido criado especialmente para desestabilizá-la.
“Não caia nas ideias desse imbecil, Ava,” ela pensa, endireitando a postura e retribuindo o sorriso com a mesma provocação, tentando esconder o nervosismo que brotava sob a pele.
Assim que ele se aproxima, a cumprimenta com um tom casual:
— Bom dia, Ava. Como passou a noite? — pergunta, mantendo o sorriso de segundas intenções.
O olhar dele não se limita ao rosto dela. Hector a analisa dos pés à cabeça sem o menor pudor, como se estivesse admirando uma obra de arte rara e feita sob medida para ele.
— Normal — ela responde rapidamente, erguendo o queixo, se recusando a deixar que o calor subisse até suas bochechas ao lembrar do sonho absurdo que teve.
O silêncio se instala por alguns segundos, enquanto ela sente os olhos dele praticamente a despir. Tentando ignorá-lo, na esperança de que ele a deixe em paz — o que é uma esperança tola —, Hector se inclina ligeiramente, até seu rosto ficar próximo ao dela, e sussurra no ouvido:
— Enquanto você teve uma noite normal… eu tive uma noite maravilhosa, sonhando com você.
Num pulo, Ava se afasta como se tivesse levado um choque, arrancando uma gargalhada alta e sincera de Hector.
— O que foi? — ele provoca, com os olhos brilhando de diversão. — Eu nem te contei o que sonhei.
— Eu não quero saber dos seus sonhos! — rebate, tentando soar firme, mas a voz sai com uma leve tremedeira, entregando seu nervosismo.
— Que pena — ele diz, prolongando as palavras. — Tenho certeza de que você ia gostar de ouvir.
Ela revira os olhos, fingindo impaciência, mas o coração… o coração martela tão forte que parece querer rasgar o peito.
E, no fundo, Ava sabia que a maior ameaça naquilo tudo era o quanto, secretamente, uma parte dela queria mesmo ouvir.
Ainda rindo baixinho, Hector entrega uma das sacolas para ela, que segura com desconfiança, franzindo o cenho.

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