No andar de cima, Ava está no quarto em frente ao espelho, ajeitando os cabelos. Seu coração acelera um pouco, mesmo que ela insista em negar o motivo.
“Não é um encontro. É só uma volta pela rua”, pensa, enquanto se arruma.
Ela escolhe um vestido simples e coloca um casaco discreto por cima. Não quer parecer arrumada demais. Nem desleixada. E, ao se olhar no espelho mais uma vez, suspira.
“Para com isso, Ava Smith, você não é tola”
Coloca um pouco de perfume, prende uma mecha solta de cabelo e, antes de sair do quarto, encara o reflexo mais uma vez.
— Só uma volta — murmura para si. — Nada mais.
Mas a verdade é que, por dentro, sente algo diferente. Um frio na barriga que não sentia há muito tempo.
Assim que desce as escadas, não vê sinal de Hector na sala. Ela dá uma olhada rápida ao redor, ajeita o casaco e segue em direção à porta. Lá fora, a noite está agradável, com uma brisa suave e o jardim iluminado pelas luzes discretas que contornam os caminhos de pedra.
Ela caminha devagar até que o avista, encostado próximo a um dos bancos, meio de lado, com os olhos grudados no celular. Os dedos dele deslizam rápido pela tela, como se estivesse resolvendo algo urgente.
Quando percebe que ela está ali, ele para por um segundo, apenas a observa. Mas logo volta a digitar, como se ainda tivesse algo a concluir.
Se aproximando um pouco, Ava cruza os braços.
— Interrompi alguma coisa? — pergunta, tentando parecer despreocupada.
Terminando de digitar, Hector bloqueia o celular e o guarda no bolso. Quando se vira, está com aquele meio sorriso típico dele, o que irritava e intrigava ao mesmo tempo.
— Não, eu já terminei — responde com naturalidade. — Está pronta?
— Acho que sim — diz ela, sem esconder o leve tom de curiosidade. Mas, por dentro, se pergunta com quem ele falava com tanta pressa e por que disfarçou quando a viu.
Ainda assim, ela engole a pergunta.
Eles caminham lado a lado até o carro estacionado na entrada. Hector abre a porta do passageiro para ela, num gesto quase automático, e ela entra sem dizer nada, ainda sentindo um leve nó no estômago.
Assim que ele entra e dá partida, o silêncio se instala por alguns segundos.
— E então, para onde estamos indo? — pergunta Ava, virando o rosto na direção dele.
Hector mantém os olhos na estrada por um momento, como se estivesse pensando na resposta certa.
— Só uma volta — diz, vago demais. — Para você sair do tédio e ver a cidade.
— Isso é mesmo sério? — pergunta, notando que ele parece mais sério do que deveria. — Se iremos fazer isso, por que você está com cara de quem vai me sequestrar?
Ele solta uma risada rápida, mas sem tirar os olhos da estrada.
— Acho que já fiz isso antes — ele responde com ironia.
Ava não ri. Tem algo no jeito dele que está diferente. Não era o sarcasmo habitual. Era o silêncio entre as frases. O olhar fixo demais. A mandíbula tensa.

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