Enquanto Ava terminava de limpar o último arranhão em seu rosto, Hector permanece em silêncio, encarando o vazio. As palavras dela ecoavam em sua mente.
“Estamos casados. David é seu cunhado. Meus pais, seus sogros.”
Até então, o acordo de casamento parecia simples, quase estratégico. Mas agora, vendo Ava tentando reconstruir pontes com a própria família, ele percebe haver subestimado o que realmente estava em jogo.
Era fácil manter o controle quando estavam só os dois. Mas o retorno dela ao lar, à vida que havia deixado para trás, trazia consigo laços, expectativas, emoções, tudo o que ele sempre evitou lidar.
Suspirando fundo, ele revira os olhos, como quem briga consigo mesmo. Sabia que, se quisesse manter os próprios planos intactos, teria que ceder. Engolir o orgulho. Abrir espaço para algo que ia além do contrato.
E por mais que odiasse admitir… Ava estava certa.
— Eu posso fazer isso — diz, por fim, com a voz mais baixa, quase como uma rendição. — Posso tentar me entender com sua família.
Ela o encara com surpresa, e seus olhos suavizam.
Mas ele ergue um dedo logo em seguida, sério.
— Mas… — completa, inclinando-se levemente na direção dela, com o olhar firme. — Você vai ter que me dar algo em troca.
Ava arqueia uma sobrancelha, curiosa e um pouco desconfiada.
— O que exatamente você quer em troca?
Hector se recosta um pouco mais na cama, com a expressão calma, mas o olhar afiado. Por alguns segundos, deixa o silêncio pairar, só para observar a inquietação crescer no rosto dela.
Então, sorri de lado; um sorriso lento, perigoso, descaradamente provocador.
— Quero você — diz, sem rodeios.
Ela arregala os olhos, surpresa pela ousadia.
— Hector…
— Você pediu algo difícil para mim, Ava — ele interrompe, ainda com o olhar fixo no dela. — Vai me fazer sentar à mesa com pessoas que me desprezam, sorrir para o seu irmão depois de levar um soco na cara e fingir que está tudo bem.
Ele se inclina, aproximando o rosto do dela, e baixa o tom mais ainda, demonstrando desejo.
— A única coisa que quero em troca… é isso — diz, cravando seus olhos nos dela.
Lentamente, Ava se afasta dele, como se tivesse acabado de ouvir o pior dos absurdos. Seu corpo fica rígido e seus olhos se estreitam de incredulidade.
— Você está pedindo demais… — ela murmura, virando as costas e encarando a parede, tentando esconder o efeito que aquilo causava dentro dela.
Hector a observa por um instante. Depois, se levanta, sem pressa, e caminha até ela. Para bem perto. O suficiente para que ela sinta sua presença antes mesmo de ouvi-lo. Quando se aproxima por trás, inclina o rosto, levando o nariz até o pescoço dela, inspirando devagar o perfume familiar que, mesmo sem querer, sempre o deixava desarmado.
— Você também está me pedindo algo absurdo… — ele sussurra, com a voz rouca, quase num tom de confissão. — E mesmo assim, estou disposto a ceder por você.
Enquanto fala, deixa os lábios tocarem de leve a lateral da orelha dela, de propósito. Um toque quase imperceptível, mas planejado.
Fechando os olhos por um instante, Ava sente um arrepio imediato percorrer a espinha, numa onda involuntária que a faz prender a respiração. O coração acelera e o corpo reage antes mesmo que a mente consiga formular uma resposta.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo