Assim que chega à sala de jantar, Ava mal tem tempo de respirar. Pois já é recebida direto por uma pergunta:
— Onde está o Hector? — Seus pais indagam em uníssono, ao vê-la surgir com a expressão visivelmente desconcertada.
Ela tenta disfarçar. Endireita os ombros, passa as mãos suavemente pelos cabelos e busca recuperar a compostura. Mas sabia que ainda havia traços do que quase aconteceu minutos atrás. O calor na pele, o leve rubor nas bochechas e o jeito como ele conduzia as coisas.
— Ele está tentando tirar a mancha de sangue da camisa — responde firmemente, mas com um toque de reprovação que não passa despercebido. Em seguida, lança um olhar direto para o irmão, que permanecia calado, com o rosto fechado e os olhos levemente inchados.
O silêncio da mesa pesa por um segundo.
— Eu não gostei do que você fez, David — continua ela, sem baixar o tom. — Por mais que vocês não aceitem, ele é o meu marido.
David aperta os punhos sobre a mesa, mas não responde. Apenas desvia o olhar, visivelmente incomodado.
— Para ser sincero, filha — começa Ethan, com o olhar firme sobre ela — se o seu irmão não tivesse feito aquilo, eu mesmo teria feito. Essa história de casamento continua muito mal explicada. Eu olho para aquele homem e só consigo pensar que tem algo errado acontecendo.
Segurando o impulso de rebater com mais força, Ava respira fundo e, em vez disso, escolhe as palavras com cuidado.
— Mas não tem nada errado — rebate, olhando diretamente para o pai. — Só peço uma coisa: não repitam o que aconteceu com o James. Por favor.
O comentário pega os três de surpresa. E o silêncio que se segue é pesado, como se uma velha ferida tivesse acabado de ser tocada.
Rafaela endireita a postura na cadeira e lança um olhar cortante para o marido e o filho. Não havia palavras em sua expressão, mas o recado era claro: dessa vez, não vou permitir que destruam tudo de novo.
David abaixa os olhos por um instante, e Ethan se recosta na cadeira, pensativo, como quem engole em seco.
Antes que qualquer um possa responder, Hector surge. Com a camisa ainda um pouco amassada, cabelo ajeitado, mas o olhar ainda trazia traços do embate anterior. Ao cruzar a porta, todos os olhares se voltam para ele.
Por alguns segundos, o ar parece parar.
— Bem — diz Rafaela, quebrando o clima com sua voz elegante —, agora que estamos todos aqui, por favor… podem servir a comida.
Os funcionários se aproximam discretamente, colocando as travessas sobre a mesa. A refeição segue em silêncio por alguns minutos. Apenas o som dos talheres e dos copos sendo servidos preenche o ambiente. Hector, com uma postura impecável, limpa discretamente os cantos da boca com o guardanapo de tecido, e então rompe o silêncio com uma voz calma e bem colocada.
— Sei que talvez esse almoço esteja… mais tenso do que deveria — começa, olhando brevemente para Ethan e Rafaela. — E eu entendo. Se eu estivesse no lugar de vocês, também ficaria desconfiado.
Ava o encara, surpresa. David levanta os olhos devagar, desconfiado, e Rafaela inclina levemente o rosto, curiosa com o rumo da fala.
— Nossa história — continua Hector, com uma entonação sincera — começou de uma forma incomum. Rápida, intensa, fora dos padrões. E por isso mesmo, compreendo as reservas que todos vocês possam ter.
Ele faz uma breve pausa, respira fundo, como se estivesse medindo cada palavra com cuidado.
— Sinto muito pelo que aconteceu, não devia ter revidado ao ataque do meu cunhado.
A palavra cunhado, saindo da boca dele, gera certa revolta em David, que lança um olhar estreito para ele, no entanto, Hector ignora e continua.
— Saibam que estou aqui com o coração aberto. Sei que conquistas verdadeiras levam tempo. Respeito muito a Ava, e pretendo respeitar a família dela também.
Ethan permanece sério, mas assente levemente com a cabeça. Rafaela lança um olhar de aprovação sutil. David, por outro lado, esboça um sorriso irônico, sem fazer questão de esconder o ceticismo.
Percebendo o nervosismo oculto, Hector sorri com leveza e volta os olhos para Ava, que o observa em silêncio, ainda digerindo o discurso bem ensaiado.
— Fico feliz por você estar disposto a conversar, Hector. Com sinceridade, isso já é um bom começo. — Diz Rafaela.

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