Verdades à Luz do Jantar
Sofia estava nervosa desde o momento em que terminou de se arrumar.
O espelho refletia uma versão dela que quase não reconhecia — o vestido azul-marinho com as costas nuas e um laço delicado na base da coluna parecia ter sido feito sob medida.
Os cabelos estavam soltos, as pontas levemente onduladas, e o perfume de baunilha e chocolate pairava suave no ar.
Quando a campainha tocou, ela respirou fundo antes de abrir a porta.
Do outro lado, Thomas Alves — terno escuro impecável, barba bem-feita, o olhar firme que fazia qualquer palavra parecer desnecessária.
Mas, naquele instante, ele pareceu perder o fôlego.
— Você… está linda. — disse baixo, quase rouco.
O olhar dele percorreu o vestido devagar, respeitoso e, ao mesmo tempo, cheio de desejo contido. — Azul. Eu devia ter imaginado. É uma cor que combina com você — forte, mas serena.
Sofia corou, tentando disfarçar o nervosismo. — Obrigada… você também está… — ela procurou uma palavra — perigoso.
Thomas sorriu de canto. — É o efeito do terno ou da sua presença?
Ela riu, e o clima leve se formou.
O restaurante escolhido era elegante e intimista — iluminação baixa, mesas de mármore negro e taças que refletiam o brilho das velas.
No ar, o aroma de vinho tinto e especiarias.
Quando o garçom se aproximou, Thomas respondeu com tranquilidade:
— Reserva em nome de Thomas Alves.
O funcionário sorriu e os conduziu até uma sala reservada, isolada por cortinas de linho branco e decorada com flores discretas.
O tipo de lugar onde o tempo parecia desacelerar.
Sofia se acomodou, cruzando as pernas de leve.
Ele a observava com um misto de admiração e curiosidade — como quem tentava decifrar um livro que não queria terminar.
— Costuma vir aqui? — ela perguntou, brincando com a taça de vinho.
— Raramente. — respondeu. — Só quando quero impressionar alguém.
Ela arqueou uma sobrancelha. — E está conseguindo?
— Ainda estou tentando. — retrucou com um sorriso breve, o olhar preso nela.
A conversa fluiu leve.
Falaram sobre o trabalho, sobre a faculdade dela, sobre o que os fez escolher caminhos tão diferentes e, de alguma forma, complementares.
— Eu sempre quis fazer justiça, ajudar alguém que só vê saída no tribunal. — contou ela, com um sorriso tímido. — Acho que é por isso que escolhi Direito.
Thomas apoiou o queixo na mão, observando-a com atenção.
— Então você acredita que ainda dá pra mudar o mundo pelas leis?
— Quero acreditar. — respondeu, sincera. — Mesmo que seja só um pedacinho dele.
Ele sorriu de leve.
— Engraçado… eu comecei pelo mesmo motivo. Mas o mundo me mostrou que a justiça nem sempre cabe no papel.
— E ainda assim, você não desistiu. — ela disse.
— Não. — respondeu, olhando para ela. — Só mudei a forma de lutar por ela.
Sofia o observou por alguns segundos. — Então você caça os malvados?
— Às vezes. — respondeu, com um meio sorriso. — Mas a maioria das vezes, eles usam terno.
Ela riu, encantada com o jeito calmo dele de misturar ironia e verdade.
Quando o garçom trouxe as sobremesas — mousse de chocolate e tiramisù —, Sofia brincou:
— Acho que o universo está conspirando pra me deixar mais nervosa. Chocolate é minha fraqueza.
Thomas se inclinou um pouco, o olhar firme nos dela.
— Não é o chocolate que me deixa sem defesa hoje.
Ela desviou o olhar, corando.
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O jantar terminou entre risadas e olhares que diziam mais do que palavras.
No carro, o silêncio era diferente — confortável, mas cheio de algo prestes a acontecer.
Sofia olhava pela janela, o coração acelerado.
Precisava reunir coragem.
Tinha algo que precisava contar.
Quando o carro estacionou diante do prédio dela, Thomas desligou o motor e se virou para ela.
O ar ficou denso, quase palpável.
— Sofia… — começou, com a voz baixa. — Eu gostei da sua companhia. Faz muito tempo que não saio com alguém assim, com quem a conversa simplesmente flui. Mas antes de seguir com isso, eu preciso ser sincero.
Ela sentiu o estômago revirar.
— Thomas, eu também gostei do nosso jantar… —
Mas ele levantou a mão, gentil.
— Calma. Me deixa terminar. — respirou fundo. — Eu sei que você não é tão experiente quanto eu. Você tem vinte e dois anos, é nova. E talvez essa diferença assuste um pouco.
Ela o olhou, tensa, mas sem desviar o olhar.
— O meu estilo… — continuou ele, buscando as palavras certas. — É mais intenso. Mais físico. Eu sigo uma linha de prática chamada BDSM. Dentro dela, existe um termo chamado DS — dominação e submissão.
Sofia sentiu o rosto corar.
Durante o estágio na faculdade, uma paciente havia relatado uma relação parecida — lembrava das marcas, das palavras, da intensidade.
Ela sabia o que aquilo significava.
Thomas notou o olhar dela.
— Sei que parece estranho pra quem nunca viveu isso. Mas não é dor. É entrega, confiança. É controle mútuo.
— E se você… tiver interesse, Sofia — disse mais baixo — eu queria isso com você.
Ela engoliu em seco.
— Eu… nunca tive nenhuma experiência assim.
Ele sorriu, calmo. — Tudo bem. Não tem problema. Já é um passo você conhecer o conceito.
— Não, Thomas… — ela hesitou, a voz falhando. — Você não entendeu. Eu nunca… fiz.
O silêncio se instalou no carro.
Por um instante, ele pensou ter ouvido errado.
Mas o olhar dela, tímido e verdadeiro, não deixava dúvidas.
— Sofia… — murmurou, como quem testa a própria voz. — Você é virgem?
Ela assentiu devagar.
Thomas ficou em silêncio por longos segundos, observando-a com uma mistura de surpresa e ternura.
A rigidez habitual deu lugar a um olhar calmo, quase protetor.
— Tudo bem… estarei lá, pode deixar.
— Ótimo. Até mais tarde, então.
— Obrigada, senhor Álvaro.
Ao desligar, Eloise ficou por um momento olhando para o celular, o coração batendo mais rápido do que o normal.
Aquele nome outra vez — Augusto Monteiro — parecia persegui-la, como sua sombra.
O consultório era pequeno, com paredes em tons suaves de verde e um leve aroma de lavanda no ar.
Eloise folheava distraidamente uma revista qualquer, mas a mente estava longe dali.
Entre uma página e outra, flashes da noite com Augusto atravessavam os pensamentos — a pele quente, os sussurros, a entrega.
Tentou afastar as lembranças, mas era inútil.
— Eloise Nogueira? — chamou a recepcionista.
Ela levantou-se, ajeitando a blusa e o cabelo preso de qualquer jeito.
A médica a recebeu com um sorriso profissional e acolhedor.
— Faz tempo que não te vejo por aqui. O que te trouxe hoje? — perguntou, enquanto anotava algo na ficha.
— É… — Eloise hesitou. — Tenho sentido um desconforto, e achei melhor vir verificar se está tudo certo com o DIU.
A médica assentiu.
— Fez bem. Vamos dar uma olhada.
Minutos depois, já na sala de exame, o silêncio era cortado apenas pelo som metálico dos instrumentos sendo preparados.
Eloise respirava fundo, tentando relaxar, mas o corpo parecia tenso demais.
— Hum… — murmurou a médica, analisando a tela do ultrassom. — Aqui está o problema.
Eloise levantou o olhar, preocupada.
— Problema?
— O DIU está fora do lugar. Está um pouco deslocado, o que pode causar dor e… falhas na proteção.
— Falhas? — repetiu, sentindo o coração acelerar.
— Sim. Vou precisar remover e deixar o corpo descansar antes de avaliarmos o que fazer.
Mas, por segurança, quero pedir alguns exames. Só pra garantir que está tudo bem.
Eloise engoliu em seco, o ar preso entre os lábios.
“Falhas na proteção.”
As palavras ecoaram como um trovão silencioso dentro dela.
Saiu da sala alguns minutos depois com um envelope de pedidos nas mãos e o olhar perdido.
No corredor, o cheiro de álcool e o som distante de passos pareciam se misturar com o turbilhão dentro dela.
— Está tudo bem? — perguntou a enfermeira ao ver o semblante pálido.
Eloise forçou um sorriso.
— Está, sim. Só… um pouco surpresa, eu acho.
Lá fora, o vento frio de outubro a fez estremecer.
E, por algum motivo que ela não conseguia explicar, uma pontada de pressentimento percorreu o peito.
Como se o corpo, mais uma vez, soubesse antes dela que algo estava prestes a mudar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...