"Augusto"
Era a primeira vez em muito tempo que nos reuníamos apenas nós três para conversar, na verdade acho que tinha acontecido apenas uma vez e estavamos na escola ainda, mas não conseguia lembrar quando.
Decidimos almoçar em um restaurante com sala privada, cercados por seguranças, um cuidado que, tempos atrás, teria parecido exagero.
Cheguei primeiro e fiquei esperando. César foi o segundo a chegar, ainda usando aquele visual meio hippie, roupas casuais, barba por fazer. Pela primeira vez, ao olhar para o meu irmão mais velho, tive a estranha certeza de que ele sempre deveria ter sido assim. Mais leve. Mais ele mesmo.
Diana chegou por último. Eu não a via desde o dia no hospital. Estávamos todos ocupados cuidando das pessoas que amávamos. Ela continuava elegante, mas o ar arrogante tinha desaparecido. Parecia diferente, mais serena. A barriguinha que começava a se formar chamava atenção, e fui assaltado pelo pensamento de que, em breve, reuniões como aquela talvez acontecessem cercadas pelos nossos filhos.
Era uma ideia completamente nova para mim. Nunca tinha sido próximo dos meus irmãos a esse ponto. Agora, imaginava como seria criar um filho ao lado deles. A visão do futuro me surpreendeu.
— Meu Deus, César… o que aconteceu com você? — Diana disse assim que se sentou, avaliando o irmão. — Tenho que admitir, ficou mais bonito assim.
— Obrigado. Pretendo manter assim — respondeu ele, passando a mão pela barba.
— Alguma notícia do nosso amado pai? — ela perguntou, com sarcasmo. — E, falando nisso, preciso comer. Ultimamente estou com fome o tempo todo.
Esperamos o garçom chegar para fazer os pedidos.
— Nada ainda — respondi. — Nenhuma mensagem, nenhum aviso. Tenho quase certeza de que nem o conselho nem o novo CEO têm contato com ele. Pelo desespero geral, dá para perceber, além disso de vez em quando alguém faz alguma pergunta querendo saber se sei de alguma coisa.,
Diana me encarou em silêncio.
— Não sei por quanto tempo isso vai continuar — acrescentei. — Ele deve estar esperando o momento certo para aparecer. Esperar a poeira baixar. Mas chamei vocês aqui por outro motivo, a última notícia que saiu na midia envolve diretamente o Enzo.
— Que Enzo? — ela perguntou. E não me surpreendeu; na época, Diana estava reclusa por causa do protocolo de segurança.
— O que me deu um tiro — completou César. — Mas ele não estava foragido fora do país?
— Tivemos notícia de que ele voltou há algum tempo. Continua foragido. Não sei se ainda pretendia algo contra a nossa família, mas agora, com essa informação circulando em todos os jornais, ele vai saber que foi um erro nosso. Um erro encoberto e mal explicado, se ele nos considerava culpados, agora ele tem certeza e pode reacender a sede de vingança sem sentido dele.
Diana abaixou o olhar, encarando a mesa, pensativa, ela tinha causado aquilo tudo, jogando lenha na fogueira, mas não considerava a minha irmã culpada de nada.
— Nunca foi minha intenção reavivar outro louco para vir atrás de nós — disse por fim. — Talvez este seja o momento de encerrar tudo antes que surja uma fila de inimigos, e Deus sabe que já temos o suficiente.
Apesar do tom enigmático, entendi exatamente o que ela queria dizer.
— E o que podemos fazer? — perguntou César. — Não dá para esperar. Se ele tentar de novo, duvido que erre o tiro.
— Por enquanto, temos seguranças e a polícia atrás dele — respondi. — Não há muito mais a fazer, está escondido, só não sei por quanto tempo.
O garçom chegou com os pratos e Diana começou a comer imediatamente.
— E como está o ambiente na empresa? — perguntou, após um gole de água.
— Caótico. A saída do nosso pai deixou todo mundo inseguro. Ninguém queria tirá-lo de lá de verdade. Agora, com as últimas notícias, tudo piorou. Se continuar assim, vamos perder mais clientes, os poucos que sobraram. Talvez a melhor saída seja vender para a concorrência que pagar melhor. No melhor dos cenários, tentar reverter o quadro… quem sabe um dia voltar ao topo.
— Imagino que você não vá voltar nunca mais — Diana apontou o garfo para César e depois se virou para mim. — Então sobra você para limpar a bagunça. É curioso como todos os caminhos levam até você, no fim você sempre consegue.
Ela não falou com ironia, apenas riu e voltou a comer.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com um cafajeste para me vingar do ex-marido