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Cláusula Proibida: O Amor Nunca Fez Parte Do Acordo romance Capítulo 107

Capítulo 107 — Marcas e Recomeços

Henry Reeves

Os últimos quatro dias tinham sido uma loucura insana. Eu não conseguia nem lembrar a última vez que tinha dormido mais de quatro horas seguidas. Fiquei me desdobrando em mil entre a holding e a filial, cobrindo buracos operacionais e tendo que aguentar diariamente o mau humor quase insuportável do Adrian, que estava prestes a explodir por estar longe da Victoria.

Mas, para ser bem honesto com a minha própria consciência, de tudo o que aconteceu nessa semana insana, o que mais me incomodou de verdade não foi o excesso de relatórios, o café amargo da firma ou os acessos de raiva do meu chefe.

Foi ter precisado cancelar com a Sara, por duas noites seguidas, o nosso combinado de ir ao cinema. A história de que nós dois éramos oficialmente namorados já tinha corrido feito rastro de pólvora pelos corredores e salas da empresa inteira.

A Sara, com aquele jeito justo e correto dela, quis desmentir o boato no mesmo instante no RH. Eu tive que intervir com urgência, fazendo o meu drama: pedi a ela para mantermos a farsa, brincando que a minha reputação impecável estava em jogo e que um cara do Texas não podia levar a fama de maluco irresponsável. Ela deu uma risada gostosa, balançou a cabeça e acabou aceitando entrar na onda.

A minha intenção inicial para a noite era aproveitar ao máximo cada minuto do nosso encontro na comemoração da diretoria naquele bar. A gente sempre ria muito junto; a conversa entre nós simplesmente fluía sem qualquer esforço, de um jeito leve e gostoso que há anos eu não experimentava.

Só que nada, absolutamente nada saiu como o planejado. A Vic passou mal, o pavor da gravidez tomou conta de todos e nós corremos em comitiva desesperada para o hospital de emergência.

Agora, cá estou eu. Dirigindo o meu carro a torturantes vinte quilômetros por hora pelas ruas calmas de São Francisco, fazendo o trajeto render puramente para não ter que dizer um "boa noite" rápido e me despedir da mulher linda de olhos castanhos intensos que está sentada exatamente ao meu lado no banco do carona.

Ela tá batendo os dedos delicados na própria coxa, acompanhando o ritmo calmo da música que tá tocando baixinho no rádio. E, porra... Que pernas espetaculares essa mulher tem.

— Você malha? — A pergunta saiu da minha boca antes mesmo que o meu cérebro pudesse filtrar e conter o impulso.

Sara virou o rosto na minha direção de imediato, um sorriso divertido de canto surgindo nos seus lábios assim que notou, sem nenhum disfarce, para onde o meu olhar tinha escapado por alguns segundos.

— Eu danço. Na verdade, eu dançava bastante no passado. Não pratico uma aula sequer há quase um mês por conta da correria. — ela respondeu, sem desviar os olhos dos meus por um segundo. — Henry... Você sabe perfeitamente que a tartaruga que eu vi atravessando a rua lá perto do hospital já deve ter chegado na porta da minha casa a esse passo, não sabe?

Olhei para ela de lado, forçando uma expressão de pura indignação ensaiada.

— Eu estou apenas sendo um motorista extremamente prudente e zeloso, Sarinha. O trânsito de São Francisco a esta hora da noite é um perigo constante.

Dei uma piscadinha charmosa para ela, que não conteve a risada e balançou a cabeça de forma desacreditada.

— Você está com fome? — perguntei.

Antes mesmo que a boca dela pudesse formular qualquer palavra de resposta, o estômago dela soltou um ronco alto e ruidoso dentro do carro do qual não teve como esconder. Nós dois caímos na gargalhada juntos na cabine.

— Muito obrigado pela resposta sincera — falei, olhando de lado para a barriga dela de forma brincalhona.

Ela riu de novo, escondendo o rosto corado entre as mãos. Decidimos mudar a rota e passar no Drive-thru do restaurante mais próximo. Pegamos hambúrgueres caprichados, uma porção gigante de batatas fritas e alguns nuggets de frango bem crocantes.

Dessa vez, sem o pretexto para a lentidão, tive que pisar com firmeza no acelerador para não deixar a comida esfriar.

Chegamos ao antigo prédio da Vic, subimos e entramos no apartamento dela. Acomodamos as sacolas e caixas de papel sobre a mesa da cozinha.

— Eu vou pegar o refrigerante na geladeira e alguns copos. Ou você prefere beber outra coisa? Talvez um suco natural? Eu sinto muito, mas não tenho nada alcoólico por aqui hoje — ela disse, visivelmente sem graça ao ajeitar as coisas na mesa.

Não resisti à proximidade. Dei um passo à frente, passei o meu braço forte pela cintura fina dela e a puxei com delicadeza contra o meu corpo.

— Refrigerante está ótimo para mim, Sarinha — murmurei, a voz descendo alguns tons.

Ficamos nos encarando em um silêncio absoluto por alguns segundos que pareceram durar uma eternidade. Eu conseguia sentir perfeitamente o coração dela batendo de forma acelerada contra o meu peito, mas precisava confessar com urgência que o meu não ficava nem um pouco atrás.

Subi a minha mão livre devagar até o rosto macio dela, acariciando a sua bochecha com a ponta do meu polegar.

— Eu posso fazer isso? — perguntei de forma baixa.

Ela assentiu devagar com a cabeça, os olhos castanhos fixos nos meus.

Fui contornando a linha firme da mandíbula dela com o dedo, passei a polpa do polegar suavemente pelos seus lábios carnudos e desci a mão pelo seu pescoço delicado, sentindo a pulsação rápida que batia ali.

— E isso daqui? Eu posso? — A minha voz saiu ainda mais baixa, aveludada.

Mais uma vez, ela assentiu com um aceno rápido e arfante de cabeça.

Fui subindo a minha mão espalmada até a sua nuca, me enfiando por entre os seus cabelos castanhos. Segurei ali com firmeza, puxando o seu rosto um pouco mais para perto do meu.

Sem desviar a minha atenção dos olhos dela por um único milímetro, perguntei em um tom rouco, carregado de um desejo represado que eu não sentia pulsar no meu sangue há longos e dolorosos anos:

— E te beijar, Sarinha... Eu posso? Mas dessa vez eu quero muito ouvir a sua voz me autorizando.

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