Capítulo 110 — Entre Sais e Verdades
Sara Olsen
Um arrepio forte e inevitável subiu por toda a extensão da minha espinha no milésimo de segundo em que ouvi as palavras do Henry ecoarem naquele quarto:
"E esse daqui, meu amor... É o nosso quarto."
A minha mente deu um nó instantâneo. O meu coração começou a martelar contra as costelas e a minha primeira reação, como quase sempre acontecia quando me sentia vulnerável demais, foi tentar erguer um escudo e recuar um passo.
— Henry... Espera um pouco — falei, girando o corpo no abraço dele para conseguir encarar o seu rosto. — Eu não posso simplesmente aceitar isso assim. Eu não quero de jeito nenhum atrapalhar a sua rotina, nem tirar a sua privacidade. Você já está fazendo infinitamente mais do que deveria por mim hoje. O quarto de hóspedes fica perfeitamente ótimo...
Henry nem sequer me deixou terminar de estruturar aquela justificativa torta. ele aproximou a sua boca da minha, cortando as minhas palavras com um beijo calmo e absurdamente envolvente. As suas mãos grandes seguraram a minha cintura com uma firmeza possessiva, puxando o meu corpo de encontro ao dele de uma só vez.
— Auuw... — o gemido de dor escapou da minha garganta sem que eu conseguisse segurar.
Henry parou o beijo no mesmo segundo, o semblante mudando da água para o vinho.
— O que foi, Sara? O que aconteceu? — ele perguntou, os olhos verdes vasculhando o meu rosto com uma preocupação imediata.
— Nada, Henry... Não foi nada de mais, juro — tentei desconversar, ajeitando a postura.
— Não foi nada? Você acabou de gemer de dor, Sara — ele rebateu, o tom de voz ficando sério.
Sem me dar tempo de dar mais nenhuma desculpa esfarrapada, Henry segurou a barra da minha blusa de malha e a ergueu com cuidado. No mesmo instante, a luz quente do quarto iluminou a lateral do meu tronco.
Havia um hematoma feio, roxo e amarelado, cobrindo a minha pele perto das costelas. Definitivamente não era um machucado de hoje. Era uma marca recente, mas que já tinha alguns dias de evolução.
Henry travou o olhar naquela mancha. O peito dele subiu e desceu com força, as feições endurecendo de uma forma assustadora.
— De onde é essa marca, Sara? — ele perguntou, a voz descendo para um tom perigosamente baixo.
Desviei o meu olhar do dele, tentando abaixar a blusa de volta.
— É... Não é nada, Henry. Eu acabei tropeçando e esbarrando na quina da mesa da copa lá na empresa...
— Não mente para mim, Sara — ele cortou, o tom inflexível. — De onde veio essa marca nas suas costelas?
Soltei o ar pesadamente, sentindo os meus ombros caírem. Eu sabia perfeitamente que não conseguiria enganá-lo.
— Foi o Samuel... Ontem de tarde — confessei em um sussurro, a vergonha me queimando por dentro. — Ele apareceu no meu apartamento exigindo dinheiro de novo. Nós discutimos, ele me empurrou contra a quina da bancada da cozinha e acabou ficando assim.
Henry passou as duas mãos com força pelos próprios cabelos, dando um passo para trás no quarto. O gesto era o sinal claro de um homem que estava a um milímetro de explodir de raiva.
— Por que você não me contou isso ontem, Sara?! — ele esbravejou, a voz ressoando pelo quarto. — Por que, quando nós estávamos nos beijando e caímos juntos no sofá da sua sala mais cedo, você não me falou nada dessa dor?!
— Porque a dor estava bem fraca até então, Henry! — respondi, tentando me defender. — Mas hoje... Hoje quando o Samuel me jogou no chão da sala com violência, eu acabei batendo exatamente no mesmo lugar de novo. E aí voltou a doer muito mais...
Ver o meu estado, ouvir a minha explicação e perceber a minha dor fez com que a fúria dele se voltasse inteiramente contra a própria incapacidade de ter me protegido antes. E, ao ver a postura rígida dele, eu me encolhi de pura vergonha, abraçando o meu próprio corpo.
Henry percebeu a minha reação de pavor no mesmo milésimo de segundo. A expressão dura do rosto dele se desfez por completo. ele deu dois passos rápidos na minha direção, o olhar transbordando remorso, e se aproximou de mim com total delicadeza:
— Me desculpa, querida... Me desculpa por ter alterado a voz com você — ele pediu, a voz suave, segurando o meu rosto entre as suas mãos macias.
Ele se inclinou e me beijou novamente. Foi um beijo calmo, doce, carregado de um pedido mudo de desculpas que me fez relaxar nos braços dele.
— Vai lá no banheiro e vai enchendo a banheira para você tomar um banho quente bem relaxante — ele disse ao se separar por centímetros da minha boca. — Eu vou descer rapidinho para buscar a sua mala que ficou na sala e vou trazer um copo de água com um analgésico forte para você tomar para essa dor nas costelas, tá bom?
Assenti com a cabeça em silêncio.
Henry segurou o meu rosto com mais firmeza, aproximou a sua boca da minha e me deu mais um beijo lento, profundo e extremamente doce. Quando nos separamos em busca de ar, ele encarou o fundo dos meus olhos.
— Me promete uma coisa, Sara. Promete pra mim que você nunca mais na sua vida vai me esconder algo desse tipo?
Mordi o meu lábio inferior com força, a dúvida me corroendo por dentro, e tentei desviar o meu olhar do dele para o piso de madeira do quarto.
— Sara... — ele me chamou com autoridade e carinho ao mesmo tempo.
Voltei a encará-lo, soltando o ar em uma clara demonstração de derrota.
— Henry... Eu realmente não quero me tornar um problema na sua vida. Eu não quero ficar despejando toda essa bagunça, e essa desgraça de relação que tenho com o meu irmão diretamente no seu colo.
Henry me puxou para mais um beijo apaixonado de surpresa, sem me dar a menor margem de fuga. A sua língua encontrou a minha com urgência e, quando nos separamos finalmente pela total falta de ar nos pulmões, ele manteve as suas mãos firmes na minha nuca.
— Escuta muito bem o que eu vou te dizer, Sara Olsen: você nunca, em hipótese alguma nesta vida, vai ser um problema para mim. Nunca! Você entendeu bem?
Senti as primeiras lágrimas mornas começarem a se acumular no canto dos meus olhos pelo impacto daquelas palavras que eu passei a vida inteira esperando ouvir de alguém.


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