Capítulo 44 — Fora do Roteiro
Adrian Foley
Depois da manhã conturbada e barulhenta que tivemos, o nosso almoço no andar superior do restaurante foi exatamente como eu gostaria. Mesmo com a presença constante do Henry à mesa avaliando o nosso comportamento, o momento entre Vic e eu fluiu de forma leve, quase como se o peso do mundo corporativo não estivesse nos esmagando do lado de fora.
Só que o meu alívio durou pouco. No caminho de volta para a empresa, no banco traseiro do carro, ela decidiu que não facilitaria as coisas para o meu lado.
Nem um pouco.
— Você precisa se decidir de uma vez por todas, senhor Foley. O que eu realmente sou para você nesta história? Alguém com quem você quer estar de verdade... Ou apenas a sua esposa de contrato?
Ela estava sentada no canto do estofado de couro, o corpo ligeiramente afastado do meu, me encarando com uma determinação que me desarmou por completo. Era isso. Sem aviso prévio, Victoria estava me intimando a decidir uma questão que ainda estava sendo dolorosamente trabalhada e digerida aqui dentro de mim.
Toda a minha arrogância parecia sumir diante daquele par de olhos castanhos.
— Vic... — falei, a voz saindo mais sôfrega do que eu pretendia, enquanto estendia o braço na tentativa de puxá-la de volta para o meu colo, para o meu território.
Ela levantou a mão espalmada no ar, bloqueando o meu avanço no mesmo segundo.
— Nem vem, Adrian. Eu sei muito bem o que acontece quando nós nos tocamos. Eu acabo me rendendo, você se aproveita da situação, age como se fosse o meu dono legítimo, mas lá fora as coisas não são bem assim. A realidade não funciona desse jeito.
Passei a mão pelos cabelos, bufando de pura frustração com a insistência dela em focar nas barreiras.
— Eu pensei que tivesse ficado claro para você que o nosso casamento seria mantido em segredo absoluto, ao menos até essa transição da nova filial passar — argumentei, tentando trazer a lógica dos negócios para o meio do caos. — Eu não quero e não posso ter os acionistas vigiando e ciscando em cima de mim mais do que o estritamente necessário neste momento tão delicado de auditoria.
Victoria cruzou os braços com força sobre o peito, um gesto defensivo dela que eu já vinha aprendendo a conhecer muito bem na última semana.
— Tudo bem, Adrian. Eu aceito isso. Eu entendo a sua lógica de mercado — ela rebateu, a voz firme, embora eu pudesse detectar uma pontada de mágoa oculta ali. — Mas e nós? Como a gente fica no meio disso tudo? Eu não me importo em manter as aparências e o sigilo absoluto para os de fora, para o conselho ou para a mídia. Mas aqui dentro... — ela fez um sinal explícito com a mão, indicando o espaço milimétrico entre o meu corpo e o dela — ...aqui dentro eu quero que as coisas sejam cem por cento claras. Ou o que nós temos quando estamos sozinhos é algo real, ou nós somos apenas um contrato de conveniência e fim de papo.
Tentei interrompê-la, abrir a boca para formular uma justificativa que fizesse sentido, mas ela ergueu a mão novamente, cortando qualquer tentativa de defesa da minha parte.
— E nem me venha com aquela história de subcláusula informal de "extravasar juntos" para aliviar a tensão, porque isso definitivamente não vai mais rolar comigo. Não sou o seu brinquedo de luxo.
Passei a mão espalmada pelo rosto, sentindo o peso daquela cobrança. Victoria estava mesmo fazendo aquilo. Ela estava me colocando contra a parede da pior forma possível, destruindo cada linha do roteiro que planejei para a minha vida.
Nesse exato momento, ouvi duas batidas discretas no vidro escuro da janela do carro. Era o Henry, sinalizando que havíamos chegado ao destino e que o tempo estava correndo.

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