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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 4

~ CHRISTIAN ~

Se alguém me dissesse, um ano atrás, que eu ia acordar numa terça-feira para pular de um avião por vontade própria, eu teria rido com a educação de quem não quer ofender e depois teria voltado para a agenda. Eu não tinha “tempo” para coisas que não serviam a um propósito. Eu não tinha espaço para impulsos. Eu tinha uma empresa, um filho, um casamento que eu protegia como quem protege um país inteiro.

E, ainda assim, ali estava eu, no hangar, com cheiro de combustível no ar e um vento frio atravessando a estrutura metálica, vestindo um macacão que não combinava com nenhuma foto institucional.

Marco caminhava ao meu lado com aquele jeito dele de parecer sempre meio debochado e meio brilhante, como se o mundo fosse uma piada bem contada que só ele tinha entendido.

— Você tem certeza que isso pareceu uma boa ideia? — ele perguntou, olhando para o instrutor como quem avalia um animal selvagem.

— Não — eu respondi, ajustando o relógio no pulso como se isso fosse um gesto de normalidade. — Mas eu também não tenho certeza de que ficar no chão é melhor.

Marco soltou um riso curto, sem alegria.

— Isso foi dramático.

— Eu estou num hangar, prestes a me prender a um desconhecido para me jogar no vazio. Eu tenho direito a um pouco de drama.

Ele abriu a boca para responder, mas uma moça com prancheta se aproximou e nos chamou pelo nome. Procedimentos. Assinaturas. Termos com letras pequenas o bastante para humilhar a soberba humana. Eu li por cima como se pudesse negociar com a gravidade pela força da vontade e assinei.

O instrutor que me acompanharia no salto — um sujeito com cara de quem já tinha visto gente rica tremer, vomitar e implorar — apontou para mim.

— Primeira vez?

— Primeira — eu confirmei.

— Então vai ser tandem. Você vai preso em mim o tempo todo. Eu faço o trabalho técnico, você faz a parte do pânico — ele disse, sorrindo.

Marco olhou para mim e ergueu as sobrancelhas como se quisesse dizer “boa sorte com o seu pânico, primo”.

Eu vesti o arnês por cima do macacão sob orientação do instrutor: tiras cruzadas no peito, presilhas na cintura, fitas nas coxas. Aperta, puxa, trava. Tudo parecia simples até não ser. Um outro instrutor ajustou o equipamento do Marco e ele fez uma careta como quem sente que está vestindo a própria sentença.

— Eu só quero registrar que eu fui coagido por você — Marco disse, enquanto conferiam a fivela na perna dele.

— Você é um adulto — eu lembrei.

— Aliás — Marco disse, quase como quem muda de assunto para não olhar para um precipício emocional — você sabe que se você morrer aqui, a Zoey te mata, não é?

Eu ri, e o riso saiu mais verdadeiro do que eu esperava.

— Eu odiaria irritá-la — eu respondi. — Então vamos tratar de ficar vivos.

— Ótimo. Porque eu tenho dois filhos pra cuidar.

Eu parei o ajuste da luva por um segundo e encarei meu primo.

— Dois?

Marco abriu um sorriso, desses que ele só mostrava quando alguma coisa era realmente dele, sem plateia, sem narrativa. Um orgulho simples.

— Maitê está grávida. De novo.

Eu fiquei olhando para ele por um instante, e foi inevitável: a imagem da família dele. A casa cheia, o barulho de criança, o jeito como ele falava “a gente” com naturalidade. Como se o futuro não fosse um monstro para ser gerenciado, mas um lugar para ser construído.

— Parabéns — eu disse, e eu quis dizer aquilo com tudo o que eu tinha de sincero. — Vocês formam uma família linda. E vai ficar mais bonita ainda.

— A gente gosta da ideia de um casal com pouca diferença de idade — Marco respondeu, dando de ombros, como se tivesse sido uma reunião estratégica. — Então… trabalhamos no assunto.

— Trabalhar no assunto — eu repeti, divertido. — Eu vou fingir que não vou transformar isso numa piada corporativa.

Marco soltou uma risada, e o instrutor mandou ele levantar o queixo para ajustar os óculos.

— Pelo menos você está produzindo herdeiros o suficiente para ter para quem passar o legado dos Salvani — eu disse, porque era o tipo de provocação que eu sabia que ele entenderia como carinho.

— Se for pensar assim — ele respondeu — acho melhor a gente trabalhar em pelo menos mais uns três. Os negócios andam incrivelmente bem.

Eu assenti. Eu acompanhava. Eu sabia números, curvas, expansão. Eu sabia o que fazia uma empresa respirar. Eu sabia isso como quem sabe o próprio nome.

— Eu sei — eu disse. — Tenho acompanhado. Vocês inauguram a primeira filial do Nordeste mês que vem, não é?

Marco fez uma expressão entre cansaço e orgulho.

Ele soltou um som que poderia ser uma risada ou um pedido de socorro, e então… desapareceu.

O espaço que ficou no avião foi instantâneo e brutal.

Meu instrutor me puxou com firmeza, e eu me vi na porta. O vento bateu no meu rosto com violência. A paisagem lá embaixo parecia um mapa que alguém tinha esquecido aberto. Eu senti a mão do instrutor bater no meu ombro.

— Agora.

Eu cruzei os braços no peito, levantei o queixo e, por um segundo, a minha mente tentou negociar: você tem um filho. Você tem Zoey. Você tem tudo.

Foi justamente por isso que eu me joguei.

O vazio me engoliu com um rugido, e eu gritei — um som puro, sem frase, sem raciocínio, sem cargo. O vento arrancou qualquer pensamento ordenado da minha cabeça. O corpo virou sensação: a pressão no peito, o frio cortando, a velocidade fazendo o mundo parecer real demais.

Quando o instrutor bateu no meu ombro, eu abri os braços.

E por alguns segundos eu não fui CEO, não fui herdeiro, não fui o homem que resolve crise. Eu fui só… vivo.

O paraquedas abriu com um tranco que puxou minha alma de volta para o corpo, e o silêncio relativo depois foi quase ofensivo. A paisagem virou calma. O mundo, de repente, parecia grande e possível.

Eu respirei. Eu ri.

Lá embaixo, eu vi um ponto descendo em espiral. O Marco pousou alguns segundos antes, cambaleando, e quando eu toquei o chão e dei dois passos para não cair, ele veio na minha direção com o rosto vermelho de vento e adrenalina.

Ele parou diante de mim, ofegante, com os olhos brilhando de um jeito que eu não via desde… eu nem sabia desde quando.

— Você tem razão — Marco disse, passando a mão pelos cabelos como se precisasse confirmar que ainda estava inteiro. — Isso sim é liberdade.

Eu olhei para o horizonte, para o hangar ao longe, para o céu que ainda parecia perto demais, e algo dentro de mim se encaixou com uma clareza quase cruel.

Eu virei para ele e disse, sem qualquer preparação, como se fosse a coisa mais simples do mundo:

— Vou deixar o cargo de CEO da Bellucci.

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