~ LOGAN ~
Era quinta-feira.
O dia seguinte era meu aniversário.
Henrique vinha se comportando como se estivesse lançando uma campanha global e não organizando uma festa. O tipo de eficiência entusiasmada que, na Novak, eu normalmente premiaria. Na minha vida pessoal, eu só tolerava.
Ele tinha preparado uma festa grande. Amigos, família, alguns clientes próximos. E uma famosa balada da cidade como plano de fundo.
Nada digno de uma criança.
Nada que eu pudesse levar Olívia. Nada que justificasse eu “precisar” que a Mareu estivesse lá como babá.
O que era um problema.
Porque eu queria que ela estivesse lá.
Naquele dia, saí do escritório com a mesma sensação que eu vinha carregando desde o navio: como se as coisas estivessem sempre a um passo de desandar e eu estivesse constantemente calculando qual seria o pior momento para isso acontecer.
No elevador, eu passei o dedo pela tela do celular e vi as mensagens do Henrique.
“Confirmado com o DJ.”
“Lista fechada.”
“Segurança alinhada.”
“Vai ser LENDÁRIO.”
Eu respondi com um “ok” que, no idioma meu idioma, significava “pare de falar comigo”.
No caminho para casa, eu pedi ao motorista uma parada rápida.
— No shopping — eu disse.
Ele me olhou pelo retrovisor, um pouco surpreso.
— Sim, senhor.
Não era um hábito. Quase tudo que eu usava aparecia em casa, entregue, alinhado, escolhido por alguém que sabia meus tamanhos e minha aversão a perder tempo.
Mas eu tinha uma sacola mental que eu não conseguia ignorar desde o domingo.
Olívia tinha me enviado uma foto desapatos.
Não dos que ela comprou.
Dos que a Mareu gostou.
A mensagem veio com a objetividade de uma criança que não vê sentido em rodeios:
“Ela fez essa cara!” — Seguida da um emoji de choro descontrolado.
Eu deveria ter ignorado, mas em vez disso, eu entrei no shopping discretamente, com a sensação ridícula de estar cometendo um ato clandestino.
Já em casa, a rotina me recebeu com um tipo de barulho que eu vinha aprendendo a reconhecer como “paz possível”.
William estava melhor. Ainda com aquela temperatura instável que fazia a equipe entrar em modo alerta, mas sorrindo entre um bocejo e outro.
Olívia estava na mesa com um caderno aberto, falando sobre o dia na escola como se estivesse fazendo um relatório de performance.
— Paloma errou uma conta simples — ela anunciou, sem levantar os olhos. — Eu corrigi.
Eu me sentei.
— E ela ficou feliz com isso?
Olívia me olhou como se eu tivesse perguntado se alguém ficava feliz em receber uma multa.
— Não.
— Então talvez você não precise corrigir toda vez.
— Se eu não corrigir, ela vai continuar errada — Olívia respondeu.
Eu aceitei a derrota com um gole d’água.
Quando terminei, eu subi para o andar de cima com a sensação de que eu tinha deixado alguma coisa no térreo.
Não era a caixa, a caixa estava comigo.
Era outra coisa.
Talvez meu bom senso.
Eu parei diante da porta do quarto da Mareu.
Bati duas vezes.
Ouvi a voz dela lá dentro.
— Pode entrar.
Eu entrei, e congelei por um instante curto, brutal.
Porque ela estava sentada diante de uma máquina de costura.
O som metálico do motor, o pedal, o movimento da agulha, tudo aquilo não deveria existir naquela casa.
Era um som que vinha de outro tempo.
E eu senti uma satisfação perigosa por ela ter entendido.
— Ah — ela disse, e a voz dela ficou um tom mais baixo, como se o “ah” tivesse sido uma queda curta. — Certo. Obrigada por…
— Só se você quiser, claro — eu cortei, antes que ela transformasse aquilo em obrigação. — Não é… uma ordem ou nada disso.
Mareu me encarou, e eu senti o impulso de voltar no tempo três segundos e ficar calado.
— Claro… — ela começou.
Depois respirou e tentou consertar com humor, porque era o que ela fazia quando um sentimento ameaçava aparecer.
— Não, eu quero, quero… bebida grátis, né? É sempre bem-vinda.
— Ótimo — eu disse, e a palavra soou mais aliviada do que eu gostaria. — Então… eu envio uma mensagem com o local e o horário.
— Claro — ela respondeu, e ajeitou uma linha em cima da mesa como se aquela linha fosse de repente a coisa mais importante do mundo. — Obrigada.
Nós ficamos nos olhando por um segundo.
Um segundo inteiro.
O tipo de segundo que sempre vira outra coisa se você deixa.
Eu apontei para o pacote na cama, quebrando o momento.
— A propósito — eu disse. — Você pode usar isso se quiser.
Ela olhou para a caixa.
Eu não esperei reação, apenas saí e fechei a porta atrás de mim.
E só depois, no corredor, eu percebi a forma como meu peito estava acelerado.
Eu tinha tentado fazer soar como um presente casual.
Não era.
Olívia tinha mencionado os sapatos.
Tinha enviado a foto.
E eu só… senti o impulso de comprar.
De agradar.
Eu não sabia por quê.
E, naquele momento, eu não sabia se queria saber o porquê.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...