~ MAREU ~
Eu esperei ouvir o som dos passos dele sumir no corredor.
Esperei o clique da porta do quarto dele.
Esperei até o silêncio da mansão voltar a ser aquele silêncio caro que parece sempre estar julgando você.
Só então eu encarei a caixa em cima da minha cama.
Eu tinha fingido que era só uma caixa.
Ele tinha fingido que era só um “você pode usar isso se quiser”.
A gente era muito bom em fingir.
Eu me aproximei devagar, como se a caixa pudesse morder, e puxei a tampa.
E o mundo ficou… brilhante.
Não literal, claro. Eu não estava abrindo um baú de tesouro pirata.
Mas, por um segundo, pareceu.
Lá dentro, envoltos em papel de seda, estavam os sapatos.
Aqueles sapatos.
Os que eu tinha calçado “só pra sentir”.
Os que tinham me feito fechar os olhos e perder a pouca dignidade que eu ainda tinha.
Eu toquei o salto com a ponta dos dedos como se estivesse testando se era real.
Era.
Eu puxei um deles para fora, segurando como se fosse algo frágil e, ao mesmo tempo, perigoso.
Eu não lembrava a última vez que eu tinha recebido um presente que não fosse uma obrigação social.
Meu peito apertou.
E a pergunta apareceu antes que eu conseguisse impedir.
Foi a Olívia?
Eu senti uma alegria boba e imediata ao imaginar a Olívia me comprando um presente com a seriedade de quem cataloga uma escolha por categorias.
“Categoria um: impacto. Categoria dois: autoridade. Categoria três: aprovação técnica — porque desperdício é ofensivo.”
E então a segunda possibilidade veio, mais devagar, mais quente.
Ou foi Logan?
A ideia bateu e eu, por instinto, tentei expulsar como se fosse um pensamento indecente.
Eu coloquei o sapato de volta na caixa com mais cuidado do que eu colocaria um bebê.
Não.
Não podia ser isso.
Logan Novak não comprava sapatos para mulheres por impulso.
Homens como ele não tinham impulsos. Tinham estratégia.
Eu respirei fundo.
Ok. Respira. Você é uma adulta. Você não vai ficar aqui encarando um salto como se fosse uma carta de amor.
Eu peguei o celular e fiz a única coisa sensata que eu sei fazer quando estou prestes a ficar surtada: liguei para a Clara.
Ela atendeu no segundo toque.
— Logan Novak me convidou pra festa de aniversário dele — eu disparei, sem aviso.
— Ah, perfeito — ela disse, com calma demais.
Eu franzi a testa.
— Perfeito?
— Eu não queria ir sem conhecer ninguém — Clara completou, como se aquilo fosse um detalhe logístico.
Eu me sentei na beira da cama tão rápido que quase derrubei a caixa.
— Como assim? Você vai estar lá?
— Bem… — Clara fez aquele “bem” que sempre vem antes de confissão. — Henrique me convidou.
Eu fiquei em silêncio um segundo.
— Henrique.
— Uhum.
— O Henrique te convidou.
— Convidou. Mas agora isso faz sentido — ela disse, tentando encaixar as peças. — Ele sabia que você ia e não quis te deixar sozinha.
Minha ironia veio automática.
— Claro. É exatamente nisso que ele estava pensando.
Clara não respondeu.
Eu imaginei a cara dela do outro lado do telefone: aquela cara de “não vou te dar munição”.
Então eu continuei, porque eu sou incapaz de largar um assunto quando eu sinto que ele tem potencial de me humilhar.
— Ele me deu sapatos.
— O Henrique? — Clara perguntou, com a maior naturalidade do mundo.
— O Logan, foco!
— Que sapatos?
Eu olhei para a caixa como se ela estivesse ouvindo.
— Aqueles sapatos.
— Vai — Clara disse, simples. — E, se você ficar nervosa, lembra que você vai estar comigo.
Nós ficamos mais alguns segundos falando sobre detalhes inúteis, como se detalhes inúteis fossem a forma mais segura de falar sobre coisas importantes.
Até que eu desliguei.
E fiquei sozinha com os sapatos.
E com o fato de que eu ia.
Eu olhei para o relógio.
Era tarde.
Eu deveria dormir.
Mas a minha cabeça já estava no lugar proibido: o lugar onde eu me via chegando naquela festa.
Não como babá.
Não como funcionária.
Como… eu.
E o pensamento veio com uma clareza absurda:
Eu precisava estar absolutamente irresistível no aniversário do Logan.
O que era ridículo.
Porque ele já tinha me visto sem maquiagem, de pijama, com a Olívia pendurada no meu braço, e ainda assim ele me olhava como se eu fosse uma variável que ele não sabia calcular.
Mas eu precisava.
Porque eu queria.
Eu me levantei, fui até a caixa de tecidos que a Olívia tinha deixado eu pegar do sótão e passei os dedos pelas cores, pelas texturas, pensando no que dava para fazer.
Eu tinha uma noite.
Eu tinha uma máquina.
Eu tinha teimosia.
Podia tentar.
Ia precisar virar a noite.
E, depois de deixar a Olívia na escola no dia seguinte, eu ia ter que trabalhar loucamente de novo.
Mas talvez conseguisse.
Talvez desse tempo.
Eu mordi o lábio inferior, olhando para o tecido como se ele fosse uma decisão.
Por algum motivo, eu sentia que precisava.
E, quando eu pensei no rosto do Logan, no jeito como ele tinha dito “só se você quiser”, eu tive vontade de rir da minha própria falta de juízo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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