~ MAREU ~
Eu entrei segurando uma embalagem de presente como se fosse um documento confidencial.
Era ridículo.
Aquela balada inteira parecia ter sido construída para gente que não carrega nada nas mãos além de um copo e do próprio ego.
Eu e Clara paramos logo depois da entrada, numa área de transição onde o som da música já vibrava no peito, mas ainda dava para ouvir pensamentos. Luz cortando o ar, perfume caro, segurança com cara de “eu sei quanto você vale antes de você dizer seu nome”.
Clara olhou ao redor com a expressão de quem entrou numa loja sem placa de preço e decidiu não respirar.
Eu apertei a embalagem do presente.
— O que eu faço com isso? — eu perguntei, baixinho, como se perguntar fosse pior do que não saber.
Clara me olhou como se a resposta estivesse tatuada na minha certidão de nascimento.
— Sei lá… — ela disse, séria. — Você é quem vem desse mundo.
Eu ri, sem humor.
— Eu venho de um mundo onde meus pais cuidavam dessa parte.
— Ah — Clara respondeu, e aí ela abriu os braços num gesto amplo, apontando para o caos elegante ao nosso redor. — Em festa de gente normal, tem uma mesa.
— Mesa?
— Mesa — ela confirmou. — Pra presentes. Você tá vendo alguma mesa?
Eu procurei.
Eu vi bar.
Eu vi pista.
Eu vi gente se abraçando com intensidade suspeita.
Eu vi um homem com um relógio que valia um carro.
Mesa de presentes, não.
— Não — eu admiti.
— Então pronto — Clara concluiu, com um ar de “bem-vinda ao mundo dos ricos, onde até o bom senso é criptografado”.
Foi nesse exato momento que uma voz apareceu atrás da gente como se tivesse sido convocada pelo meu desespero.
— Eu posso cuidar disso pra você.
Eu virei e me deparei com Henrique.
Terno impecável, sorriso de quem acha graça até em incêndio e aquele olhar que dizia que ele já tinha visto a cena inteira antes mesmo de entrar.
Sem pedir licença, ele pegou a embalagem do presente da minha mão.
Eu fiquei um segundo com os dedos no ar, vazios.
— Sem mesa? — eu perguntei, ainda em choque.
Henrique deu uma risadinha.
— Normalmente o Logan recebe os “presentes” em forma de doações para instituições que ele indica — ele disse, como se estivesse falando “normalmente ele prefere uísque sem gelo”. — Então… não se coloca isso numa mesa.
Eu senti um calor subir pela minha nuca.
Doações.
As pessoas chegavam ali e davam pequenas fortunas em nome do Logan Novak como presente.
Eu tinha feito algo improvisado com as minhas mãos.
Com uma linha que eu tive que pedir emprestado para a Olívia.
Engoli seco.
— Hum… — eu comecei, porque meu cérebro estava tentando me proteger do constrangimento. — Acho que talvez eu devesse… fazer uma doação ou…
Clara não conseguiu conter a risada.
Foi uma risada curta, mas o suficiente para eu saber exatamente o que ela estava pensando.
O saldo da minha conta: vinte reais negativos.
Eu fuzilei Clara com os olhos.
Henrique, misericordioso, fez o que ele faz melhor: salvou alguém do próprio orgulho.
— Não seja boba — ele disse, já virando a embalagem na mão como se fosse um item normal de logística. — Eu guardo lá atrás. Tenho certeza de que ele vai apreciar o gesto.
Apreciar o gesto.
Céus.
A frase era bonita demais para o que eu estava sentindo.
Porque “apreciar o gesto” era exatamente a forma elegante de dizer: que fofo, ela tentou.
Eu inspirei, tentando me lembrar de que eu tinha sobrevivido a humilhações piores.
Mas tinha uma humilhação extra acontecendo na minha frente e ela era silenciosa e irritante: Clara flertando sem flertar com Henrique.
Clara inclinava o rosto, sorria, fazia aquela cara de “eu não tô interessada” enquanto claramente estava.
Henrique respondia com aquele charme preguiçoso de homem que sabe que ganhou sem precisar levantar a voz.
Eu não tinha energia pra assistir aquilo.
— Vou pegar uma bebida — eu anunciei.
Eu atravessei a área perto do bar com a sensação de que eu precisava de álcool para ser socialmente funcional.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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