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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 108

~ MAREU ~

Rafael Salles estava com a bandeja no antebraço, camisa social preta, colete — o pacote completo do “sou invisível”, só que os olhos dele faziam exatamente o oposto. E ele perguntou, com a cara mais cínica do mundo:

— E você está aqui com seu… namorado?

Eu ouvi a pergunta e, por um segundo, o meu cérebro fez uma lista rápida do que eu podia responder.

Opção um: “Não.”

Opção dois: “Nós terminamos.”

Opção três: “Me deixa em paz.”

Opção quatro: “Eu nem sabia que você sabia conjugar possessivos.”

Nenhuma era boa.

Porque dizer “não” naquela festa, para aquele homem, era abrir espaço para ele fazer o que sempre fez melhor: se infiltrar.

Então eu fiz o que qualquer pessoa equilibrada faria.

Eu entrei em pânico e escolhi um homem aleatório.

Não “aleatório” aleatório — eu não sou suicida. Eu escolhi alguém que, pela roupa e pela postura, claramente não era garçom, não era segurança e não tinha a menor cara de penetra.

Ele estava a um passo de mim, conversando com alguém, copo na mão, terno escuro sem esforço e um tipo de calma que só existe em homem que sabe que é bonito e não precisa provar.

Eu segurei o braço dele como se aquele fosse o gesto mais natural do mundo e apontei para Rafael com a minha melhor cara de “é óbvio”.

— Sim — eu disse. — Meu namorado.

O homem virou o rosto para mim.

E, quando eu vi de perto, eu tive a impressão de que Deus estava com tempo livre pra mim naquela noite.

Ele era… perigosamente gato.

Não tinha olhos verdes — e meu cérebro, inconveniente, ainda conseguiu checar isso —, mas talvez o Rafael nem se lembrasse daquele detalhe. Talvez meu passado não tivesse o direito de cobrar coerência do meu presente.

Rafael olhou para ele. Depois para mim. Depois para ele de novo.

— Seu… namorado — ele repetiu, devagar, como se estivesse tentando encaixar a informação num lugar que não existia.

Eu sorri com uma naturalidade que eu não possuía.

— Rafael, esse é o…

Eu travei.

Porque eu não fazia a menor ideia.

O homem, sem me expor, fez o favor de existir com inteligência.

Ele estendeu a mão para Rafael e se apresentou com um sorriso fácil.

— Rômulo.

Rômulo.

Claro.

Eu assenti como se eu tivesse chamado o próprio nome dele há cinco minutos.

— Isso — eu confirmei, animada demais. — Rômulo. Rom. Eu chamo de... Rom.

Ele me olhou com uma diversão discreta, como quem aceita um apelido só para ver aonde aquilo vai.

— Rom serve — ele disse, baixo.

Eu me recompus e apontei para Rafael.

— Rom, esse é o Rafael.

Rafael apertou a mão dele com força demais, como se estivesse competindo por um troféu que ninguém tinha colocado em jogo.

— Muito prazer — Rômulo falou, educado. E então, com a mesma educação, ele completou: — Se nos der licença… vou dançar com a minha namorada

Ele nem esperou Rafael responder. Pegou uma bebida da bandeja, colocou na minha mão como se me devolvesse equilíbrio e me puxou para a pista com uma naturalidade indecente.

Eu olhei por cima do ombro e vi Rafael parado com a bandeja, com a cara de quem tinha levado um tapa do universo.

— Você não precisava ter feito isso — eu falei assim que a música nos engoliu.

Rômulo inclinou a cabeça.

— O quê? — ele perguntou. — Te salvar daquele cara ou te convidar pra dançar?

Eu abri a boca e fechei. A música tinha mudado para uma mais lenta, daquelas que deixam as pessoas dramáticas de propósito.

— Os dois — eu admiti.

Ele sorriu.

— Eu te fiz um favor e você não pode me pagar nem com uma dança?

Eu senti meu rosto esquentar por pura falta de costume em ser resgatada por um desconhecido bonito.

— Tá — eu cedi, tentando soar normal. — Uma dança.

A mão dele encontrou a minha cintura com respeito e firmeza. O suficiente para guiar, não o suficiente para invadir. Era uma habilidade rara.

— Você não disse o seu nome — ele comentou, perto do meu ouvido, porque a música não deixava outra opção.

Eu respirei.

— Mareu.

Ele repetiu como se testasse o som.

Aí alguém esbarrou em mim.

Foi um empurrão rápido, daqueles de pista lotada. Um corpo passando. Um choque no meu braço.

O copo inclinou.

E o vinho veio.

Uma mancha fria e imediata descendo pelo meu corpete.

Eu senti o líquido escorrer e meu corpo travou com a clareza de quem entende a gravidade em tempo real.

Quando eu ergui os olhos, vi Paula.

E o rosto dela tinha aquela expressão perfeita de falsa preocupação que eu já tinha visto em gente que pede desculpas com os olhos e te empurra com o cotovelo.

— Ai, meu Deus — Paula disse, levando a mão ao peito. — Foi sem querer.

Sem querer. Claro.

Ela inclinou a cabeça, sorrindo com doçura.

— Você entende, não é? — ela completou, e a voz dela veio com um veneno delicado. — Você também já foi desastrada o suficiente pra derramar água em mim.

Ela disse isso como quem marca um lembrete e saiu.

Simplesmente saiu.

Eu fiquei ali por um segundo, respirando, sentindo a humilhação subir como febre.

Eu sabia que não tinha sido acidente.

Eu sabia que aquilo era recado.

E eu sabia que, se eu não corresse para o banheiro agora, o recado ia ficar estampado no meu peito.

— Você tá bem? — Rômulo perguntou, já me olhando com atenção.

— Tô — eu disse, sem estar. — Eu só… preciso…

Eu não terminei.

Porque eu já estava indo.

Eu dei dois passos, procurando uma saída entre gente e luz, e foi quando Rômulo segurou meu pulso.

Um toque firme.

Ele me puxou só o suficiente para eu virar o rosto.

Rômulo inclinou a cabeça, com um sorriso, e me entregou um cartão.

— Talvez eu possa levar minha namorada em um encontro? — ele disse. — Me liga.

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