~ MAREU ~
Rafael Salles estava com a bandeja no antebraço, camisa social preta, colete — o pacote completo do “sou invisível”, só que os olhos dele faziam exatamente o oposto. E ele perguntou, com a cara mais cínica do mundo:
— E você está aqui com seu… namorado?
Eu ouvi a pergunta e, por um segundo, o meu cérebro fez uma lista rápida do que eu podia responder.
Opção um: “Não.”
Opção dois: “Nós terminamos.”
Opção três: “Me deixa em paz.”
Opção quatro: “Eu nem sabia que você sabia conjugar possessivos.”
Nenhuma era boa.
Porque dizer “não” naquela festa, para aquele homem, era abrir espaço para ele fazer o que sempre fez melhor: se infiltrar.
Então eu fiz o que qualquer pessoa equilibrada faria.
Eu entrei em pânico e escolhi um homem aleatório.
Não “aleatório” aleatório — eu não sou suicida. Eu escolhi alguém que, pela roupa e pela postura, claramente não era garçom, não era segurança e não tinha a menor cara de penetra.
Ele estava a um passo de mim, conversando com alguém, copo na mão, terno escuro sem esforço e um tipo de calma que só existe em homem que sabe que é bonito e não precisa provar.
Eu segurei o braço dele como se aquele fosse o gesto mais natural do mundo e apontei para Rafael com a minha melhor cara de “é óbvio”.
— Sim — eu disse. — Meu namorado.
O homem virou o rosto para mim.
E, quando eu vi de perto, eu tive a impressão de que Deus estava com tempo livre pra mim naquela noite.
Ele era… perigosamente gato.
Não tinha olhos verdes — e meu cérebro, inconveniente, ainda conseguiu checar isso —, mas talvez o Rafael nem se lembrasse daquele detalhe. Talvez meu passado não tivesse o direito de cobrar coerência do meu presente.
Rafael olhou para ele. Depois para mim. Depois para ele de novo.
— Seu… namorado — ele repetiu, devagar, como se estivesse tentando encaixar a informação num lugar que não existia.
Eu sorri com uma naturalidade que eu não possuía.
— Rafael, esse é o…
Eu travei.
Porque eu não fazia a menor ideia.
O homem, sem me expor, fez o favor de existir com inteligência.
Ele estendeu a mão para Rafael e se apresentou com um sorriso fácil.
— Rômulo.
Rômulo.
Claro.
Eu assenti como se eu tivesse chamado o próprio nome dele há cinco minutos.
— Isso — eu confirmei, animada demais. — Rômulo. Rom. Eu chamo de... Rom.
Ele me olhou com uma diversão discreta, como quem aceita um apelido só para ver aonde aquilo vai.
— Rom serve — ele disse, baixo.
Eu me recompus e apontei para Rafael.
— Rom, esse é o Rafael.
Rafael apertou a mão dele com força demais, como se estivesse competindo por um troféu que ninguém tinha colocado em jogo.
— Muito prazer — Rômulo falou, educado. E então, com a mesma educação, ele completou: — Se nos der licença… vou dançar com a minha namorada
Ele nem esperou Rafael responder. Pegou uma bebida da bandeja, colocou na minha mão como se me devolvesse equilíbrio e me puxou para a pista com uma naturalidade indecente.
Eu olhei por cima do ombro e vi Rafael parado com a bandeja, com a cara de quem tinha levado um tapa do universo.
— Você não precisava ter feito isso — eu falei assim que a música nos engoliu.
Rômulo inclinou a cabeça.
— O quê? — ele perguntou. — Te salvar daquele cara ou te convidar pra dançar?
Eu abri a boca e fechei. A música tinha mudado para uma mais lenta, daquelas que deixam as pessoas dramáticas de propósito.
— Os dois — eu admiti.
Ele sorriu.
— Eu te fiz um favor e você não pode me pagar nem com uma dança?
Eu senti meu rosto esquentar por pura falta de costume em ser resgatada por um desconhecido bonito.
— Tá — eu cedi, tentando soar normal. — Uma dança.
A mão dele encontrou a minha cintura com respeito e firmeza. O suficiente para guiar, não o suficiente para invadir. Era uma habilidade rara.
— Você não disse o seu nome — ele comentou, perto do meu ouvido, porque a música não deixava outra opção.
Eu respirei.
— Mareu.
Ele repetiu como se testasse o som.
Aí alguém esbarrou em mim.
Foi um empurrão rápido, daqueles de pista lotada. Um corpo passando. Um choque no meu braço.
O copo inclinou.
E o vinho veio.
Uma mancha fria e imediata descendo pelo meu corpete.
Eu senti o líquido escorrer e meu corpo travou com a clareza de quem entende a gravidade em tempo real.
Quando eu ergui os olhos, vi Paula.
E o rosto dela tinha aquela expressão perfeita de falsa preocupação que eu já tinha visto em gente que pede desculpas com os olhos e te empurra com o cotovelo.
— Ai, meu Deus — Paula disse, levando a mão ao peito. — Foi sem querer.
Sem querer. Claro.
Ela inclinou a cabeça, sorrindo com doçura.
— Você entende, não é? — ela completou, e a voz dela veio com um veneno delicado. — Você também já foi desastrada o suficiente pra derramar água em mim.
Ela disse isso como quem marca um lembrete e saiu.
Simplesmente saiu.
Eu fiquei ali por um segundo, respirando, sentindo a humilhação subir como febre.
Eu sabia que não tinha sido acidente.
Eu sabia que aquilo era recado.
E eu sabia que, se eu não corresse para o banheiro agora, o recado ia ficar estampado no meu peito.
— Você tá bem? — Rômulo perguntou, já me olhando com atenção.
— Tô — eu disse, sem estar. — Eu só… preciso…
Eu não terminei.
Porque eu já estava indo.
Eu dei dois passos, procurando uma saída entre gente e luz, e foi quando Rômulo segurou meu pulso.
Um toque firme.
Ele me puxou só o suficiente para eu virar o rosto.
Rômulo inclinou a cabeça, com um sorriso, e me entregou um cartão.
— Talvez eu possa levar minha namorada em um encontro? — ele disse. — Me liga.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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