~ LOGAN ~
Eu estava preso num círculo de conversa que alternava entre elogios e pedidos disfarçados. Um investidor comentava a “visão” do grupo. Outro queria saber da expansão do hangar. Um terceiro perguntava sobre o Asteria como se fosse um brinquedo e não um navio cheio de tecnologia, gente e risco. Eu respondia com a cadência correta, sem entregar o que não precisava entregar, e mantinha o corpo no lugar. Festa de aniversário, para mim, sempre foi isso: um lembrete anual de que você pode estar cercado de gente e ainda assim ter que segurar tudo sozinho.
E então meus olhos encontraram ela de novo.
No meio da pista.
E, por um instante, o salão inteiro perdeu prioridade.
Mareu estava dançando com um homem alto, um terno que parecia ter sido feito para as luzes de uma balada e a postura de quem não tem pressa de provar nada. Ele conduzia com facilidade, e ela… ela estava rindo.
Eu precisei de meio segundo para reconhecer.
Rômulo Vianna.
Eu não quis fazer um caso disso. O nome entrou na minha cabeça do mesmo jeito que entra o nome de qualquer pessoa importante em qualquer ambiente: por hábito. Eu sabia quem ele era. Eu sabia com quem ele andava. Eu sabia o tipo de manchete em que o nome dele aparecia e o tipo de mulher que o acompanhava quando aparecia.
Rômulo era sedutor por esporte. A versão social de um homem que coleciona histórias para não ter que lidar com nenhuma.
Uma mulher diferente por semana, escândalos em colunas de relacionamento, o pacote completo do “nada sério, tudo intenso”.
Eu observei mais um segundo e senti uma irritação limpa subir pelo meu peito.
Mareu não deveria estar dançando com ele.
Não por moralismo. Não por ciúme — eu me recusei a dar esse nome tão rápido. Por proteção, eu pensei. Por lógica. Porque Rômulo era o tipo de risco que você enxerga de longe e evita sem precisar de explicação.
E então eu ouvi, dentro da minha cabeça, a parte honesta da frase:
Eu não queria que ela estivesse com ele.
Eu não queria que ela estivesse com ninguém.
Essa era a verdade.
Eu pensei em dar um passo naquela direção, um impulso físico que contrariava o resto do meu corpo, treinado para não reagir. Eu cheguei a mover o peso do pé.
E faria o quê?
Arrancaria Mareu do meio da pista como se eu tivesse esse direito? Com que justificativa? “Boa noite, Rômulo, obrigado por divertir a minha funcionária, eu vou levá-la de volta para o meu controle”? Eu teria virado exatamente o tipo de homem que eu desprezo. O tipo que confunde autoridade com posse.
Então continuei onde estava.
Continuei olhando.
E fingi prestar atenção no grupo ao meu redor como se a conversa ainda importasse.
Os homens riam de uma piada que eu não tinha ouvido. Eu sorri no tempo certo, porque eu sei fazer isso com a mesma precisão com que assino papelada. Um deles me perguntou algo sobre um contrato e eu respondi com duas frases objetivas, mesmo com o olhar puxado para a pista como se fosse um imã.
Foi nesse momento que aconteceu.
Eu vi Paula passar por perto.
Não vi o início. Eu vi o gesto final: o copo inclinando, o líquido escuro encontrando o tecido preto do vestido, a microexpressão de quem já tinha ensaiado uma desculpa. Vi Mareu parar por um segundo, olhar para baixo, e a postura dela mudar.
Ela saiu rápido, provavelmente em direção ao banheiro.
Eu pedi licença ao grupo com um gesto educado e um sorriso que ninguém questiona.
— Já volto.
Mas eu não fui atrás de Mareu.
E fui até Rômulo.
Eu encontrei ele perto do bar, copo na mão, olhando para a pista como se a noite tivesse acabado de oferecer entretenimento extra. Ele me viu se aproximar e abriu um sorriso.
— Novak — ele disse, e estendeu a mão. — Parabéns.
Eu apertei.
— Obrigado.
— Escuta… eu não quero atravessar nada, eu...
— Não está atravessando — interrompi antes que ele terminasse.
Eu mantive o tom estável. Sem ameaça explícita. O suficiente para que a mensagem chegasse inteira.
— É só que… minha filha gosta muito dela.
Eu deixei a frase respirar.
E então eu completei, com a parte que não precisava de justificativa.
— Então, se você arrumar problema com a Mareu, vai arrumar problema comigo.
Rômulo me encarou por um segundo mais do que o necessário, como se decidisse se eu estava brincando.
Eu não estava.
Ele sorriu de um jeito novo, menos leve.
— Eu não pretendo arrumar problemas com ela — ele disse. — Só soluções.
Eu não devolvi o sorriso.
— Ótimo — eu respondi, e deixei o ponto final cair como um carimbo. — Você foi avisado.
Eu virei antes que a conversa ganhasse qualquer camada que parecesse pessoal.
Por dentro, eu estava com a sensação desagradável de ter feito algo que eu não queria fazer: admitir, mesmo que sem admitir, que Mareu importava.
Ciúme é uma palavra pequena para o tamanho do que eu senti.
Era pior do que ciúme.
Era a certeza de que eu tinha aberto uma porta dentro de mim que eu vinha mantendo trancada há tempo demais.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...