~ MAREU ~
Clara Ribeiro, com o delineado intacto, a bolsa pequena pendurada no ombro e a expressão de quem tinha sido largada sozinha numa festa de bilionário e voltou para cobrar em juros.
Ela entrou e, em vez de me perguntar “você tá bem?”, ela fez o que qualquer amiga de verdade faria: empurrou meu ombro e me jogou de volta para dentro do banheiro como se eu fosse uma porta giratória.
— Você foi assaltada por um sommelier ou por um Novak? — ela perguntou.
Eu fiquei uns dois segundos processando a pergunta.
Provavelmente porque eu estava com a cabeça em outro lugar. Ou em outro... Logan.
— Eu… — eu comecei.
Clara me olhou de cima a baixo e soltou um suspiro dramático.
— Por que eu sinto que não posso te deixar sozinha por cinco minutos?
Eu sorri. Um sorriso bobo, culpado e, pior, feliz.
— Durou bem mais do que cinco minutos — eu disse, antes que meu cérebro me impedisse.
A Clara fechou os olhos por um instante como quem faz uma meditação curta.
— Meu Deus. Tá. — Ela apontou o dedo para mim, como se eu fosse uma criança levando bronca por ter comido doce antes do jantar. — Mareu, não que eu não esteja feliz que você fique feliz, mas… isso não tá certo.
— Como assim? — eu perguntei, e a palavra saiu com uma defensiva que me irritou. Porque eu sabia o que ela ia dizer. Eu só não queria ouvir.
Clara encostou na pia, cruzando os braços, e o olhar dela ficou sério num nível que eu conhecia bem: Clara só ficava séria assim quando ela tinha medo.
— Você transou com ele no navio uma vez e foi bom — ela começou.
— Bom, não — eu corrigi automaticamente. — Incrível.
Ela me encarou.
— Tá — ela concedeu, como quem registra um dado para o tribunal. — Aí você transa com ele de novo num banheiro de balada e…
— Tão bom quanto — eu interrompi, porque eu tenho um talento absurdo para piorar minha própria situação.
— Mareu — Clara falou meu nome como se fosse uma ameaça.
Eu levantei as mãos.
— O quê? Você tá pedindo honestidade, eu tô dando honestidade.
— Eu não tô pedindo detalhes — ela retrucou. — Eu tô perguntando: é isso? Ele te pegando escondido em qualquer canto enquanto tá com casamento marcado com outra?
A frase acertou no lugar exato.
Eu odiei isso.
— Ele não tem química com ela — eu disse, rápida. — Ele não gosta dela, eu diria.
Clara levantou as sobrancelhas.
— E ainda assim não cancela o casamento.
O silêncio que veio depois foi o tipo que me deixava sem piada pronta.
Clara continuou, mais baixo:
— O que diz um pouco sobre ele, não é?
Eu engoli.
— Diz… — eu repeti, tentando comprar tempo. — Diz o quê exatamente?
Clara respirou fundo. O olhar dela foi para o meu vestido, para o meu cabelo, para os sapatos. Para o meu estado inteiro. E então voltou para mim.
— Diz que você pode ser até divertida — ela falou com cuidado, como se estivesse escolhendo palavras que não cortassem. — Mas é só isso.
Meu peito apertou.
— Clara…
Ela suspirou, cansada.
— É por isso que não rola nada entre eu e o Henrique — ela confessou, e a voz tremeu um pouco, como se ela odiasse admitir. — Eu sei que, pra ele, eu seria só… mais uma. Ele é simpático, é charmoso, é ótimo. Mas é aquele tipo de cara que coleciona mulheres.
Eu fiquei olhando pra ela, porque Clara Ribeiro falando de vulnerabilidade era como ver um gato pedindo colo: raro, desconcertante e impossível de ignorar.
— E o Logan — ela continuou, e a boca dela ficou dura — parece… o mesmo tipo de cara.
Eu me sentei de novo no banquinho, porque minhas pernas decidiram que estavam cansadas de sustentar minhas escolhas.
— Sexo casual é bom — eu declarei, tentando soar adulta.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...