~ MAREU ~
Naquele sábado, eu acordei com o cérebro em modo replay.
Luz piscando. Música alta. Gente cheirosa demais. Um banheiro que parecia ter sido patrocinado pelo PIB de um país pequeno. E eu, como sempre, tomando decisões com a mesma prudência de um gato em cima de uma mesa de cristal.
Era só pensar com um mínimo de lógica. Aquela casa era a minha única coisa estável no momento: salário certinho, comida que não vinha com cupom de desconto, teto que não ameaçava desabar, e dois seres humanos que eu gostava mais do que era prudente gostar.
Olívia e Liam.
Dois motivos para eu virar gente.
E, ainda assim, eu estava brincando com o próprio emprego como quem brinca com isqueiro perto de cortina.
Por quê?
Porque Logan Novak era Logan Novak.
Porque o meu bom senso, perto dele, virava um bichinho assustado e corria para se esconder atrás do sofá.
Eu rolei na cama e encarei o teto, tentando achar uma expressão melhor do que “fogo no rabo”, porque meu orgulho tinha limites, mas meus pensamentos não.
Não era fogo no rabo.
Era… instinto de autossabotagem.
Era… carência com currículo.
Era… tesão com assinatura.
Eu suspirei, derrotada por mim mesma, e virei o rosto para a mesinha de cabeceira.
Foi quando eu vi o cartão de Rômulo.
Aquele pedaço de papel fino e elegante que parecia ter sido impresso em dinheiro, com um nome simples demais para alguém que, aparentemente, tinha a audácia de existir daquele jeito.
Eu peguei o cartão como quem pega uma prova de crime.
E aí, porque meu cérebro é um lugar hostil, o ditado veio.
Como é mesmo?
“Quando você ama o feio, o bonito lhe aparece.”
Eu franzi o rosto.
Primeiro: que ditado ofensivo.
Segundo: Logan não era feio. Logan era lindo. Lindo num nível que devia ter imposto municipal.
Terceiro: Rômulo também não ficava atrás.
Então, tecnicamente…
“Quando você ama o lindo, o bonito lhe aparece.”
Eu me sentei na cama de supetão.
— Ah, meu Deus, eu não amo o Logan — eu falei sozinha, como se o universo estivesse anotando.
Eu olhei para o teto de novo, como se ele fosse responder.
Nada.
Ótimo.
Ditado estranho. Esquece.
Mas eu não esqueci.
Porque eu estava com o cartão na mão.
E porque, no fundo, eu queria uma saída. Uma distração. Um antídoto. Uma prova de que eu ainda conseguia escolher alguma coisa que não fosse me colocar de joelhos por um homem que, oficialmente, era meu chefe.
Eu peguei o celular.
Salvar número não era crime.
Mandar mensagem também não.
Era só… logística emocional.
Eu digitei antes que meu bom senso voltasse do esconderijo.
Mareu: Seus serviços de namorado emergencial ainda estão valendo?
A resposta veio quase imediatamente.
Rômulo: Drink amanhã?
Meu estômago fez uma coisa que, se eu fosse uma adulta madura, eu chamaria de “reação fisiológica”.
Como eu não era, eu chamaria de “meu corpo me traindo com entusiasmo”.
Eu respirei fundo, fiz pose de pessoa descolada, e respondi:
Mareu: Sim, senhor. Você manda o endereço e eu levo… minha personalidade socialmente aceitável.
Ele digitou de volta.
Rômulo: Vou querer conhecer todas as suas personalidades… especialmente a que não foge quando alguém chega perto.
E foi aí que eu vi.
A gravata.
Eu piscarei duas vezes, só para confirmar que eu não estava tendo um surto.
A gravata era a gravata.
A que eu tinha feito.
Aquela coisa que era metade presente, metade brincadeira, metade “eu estou tentando ser normal”.
E sim, eu já expliquei sobre as três metades.
Mas ali estava...
Uma gravata de dinossauros em patinete.
Eu tinha escolhido o tecido porque, em algum lugar do meu coração, eu achava que Logan precisava de uma chance de ser ridículo sem morrer.
Eu jurava que ele ia guardar numa gaveta, sorrir uma vez, e nunca mais tocar.
Mas ele estava usando.
Na frente de mim.
No meio da sala.
Com a naturalidade de quem veste uma armadura.
Minha garganta fechou por um segundo.
Eu disfarcei.
Disfarçar era uma habilidade profissional na casa dos Novak.
— Eu não sabia que o dress code do parque era “CEO indo demitir um esquilo” — eu disse.
Olívia riu, porque ela vive para esse tipo de frase.
Logan olhou para a própria gravata como se estivesse analisando um gráfico.
— Não estou descontraído o suficiente? — ele perguntou.
O tom era leve, mas tinha algo ali. Uma pontinha de… expectativa.
Eu abri a boca para fazer uma piada, mas ele foi mais rápido:
— Gostaria de nos acompanhar? Tem comida o suficiente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...