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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 116

~ LOGAN ~

Empurrar o carrinho do Liam devia ser uma coisa simples.

Duas mãos no guidão, rodas obedientes, um bebê que às vezes fazia barulhos como se estivesse narrando o próprio documentário. Mas, naquele sábado, cada metro de calçada parecia carregar um peso que não tinha nada a ver com o carrinho.

O sol estava no ponto exato entre “agradável” e “quase calor”, o vento batia com aquela insistência que o Rio tem de lembrar você que ainda existe vida fora de salas com ar-condicionado e reuniões que nunca acabam. Olívia caminhava do meu lado, segurando a mão da Mareu como se aquilo fosse parte do plano dela e não uma medida de segurança. E Mareu, por sua vez, se deixava segurar com aquela naturalidade que ela só tinha quando estava tentando parecer que não estava tentando.

Eu olhei para os três, por um segundo, e senti a palavra que eu evito.

Família.

A ideia veio como um reflexo ridículo, uma imagem pronta: nós quatro em uma fotografia que não precisaria de legenda. A mesma imagem que eu tinha certeza de ter perdido para sempre no dia em que Laura morreu. Não “depois”. Não “um dia”. Perdi naquele minuto específico, naquele som específico de hospital, naquela sensação específica de impotência.

E agora eu estava aqui, empurrando um carrinho, com a filha de seis anos e meio andando como se fosse dona do trajeto e uma mulher ao lado dela que, sem pedir permissão, vinha me puxando para fora do fundo do poço.

Eu não tinha escolhido isso.

Eu tinha resistido. Eu tinha tentado manter tudo em caixas organizadas. Rotina, regras, funcionários, distância. Eu tinha tentado transformar a minha casa em um lugar seguro através de controle, porque controle era o que eu sabia fazer.

E Mareu tinha chegado como uma falha de sistema que, em vez de quebrar, consertou alguma coisa.

Contra a minha vontade.

Ou, talvez, contra a parte de mim que ainda fingia que vontade era uma variável.

Olívia apontou com o queixo para uma área mais à frente do parque.

— Ali — ela declarou.

— Ali o quê? — Mareu perguntou, sem esconder o tom de quem já desconfiava que vinha uma tese.

— O lugar perfeito para o piquenique.

— Como você sabe que é perfeito? — Mareu insistiu, porque ela tinha esse talento de cutucar a Olívia no lugar exato entre provocação e carinho.

Olívia soltou um suspiro paciente, como se tivesse sido interrompida no meio de uma apresentação.

— Primeiro: tem sombra o suficiente para o Liam não virar um tomate — ela disse, contando nos dedos. — Segundo: fica longe do parquinho barulhento, então dá para conversar sem gritar. Terceiro: tem uma trilha de vento constante que diminui o risco de mosquitos. Quarto: a inclinação do terreno é mínima, então a toalha não vira escorregador. Quinto: a distância até o banheiro é aceitável para emergências humanas.

Mareu piscou.

— Emergências humanas?

— Sim. Adultos são imprevisíveis — Olívia respondeu, com seriedade. — Crianças são estatisticamente mais confiáveis.

Mareu soltou uma risada curta, aquela risada que parece que ela está segurando um comentário pior.

— Você aprendeu isso onde?

— Eu li em um livro.

Mareu parou por meio segundo, como se estivesse tentando decidir se aquilo era piada.

— Um livro sobre piqueniques perfeitos?

Olívia levantou o queixo.

— Tem livros sobre tudo que você possa imaginar.

Começamos a caminhas na direção do local escolhido por Olívia porque... não se discute com uma especialista em piqueniques perfeitos.

— Eu vou ser escritora quando crescer — Olívia anunciou, do nada, como se estivesse escolhendo o sabor do sorvete.

Eu olhei para ela.

— Eu achei que você queria trabalhar com navios, como seu pai.

— Posso fazer os dois — ela disse, simples.

Mareu riu de verdade.

— Claro. Porque dormir, comer e respirar são hobbies opcionais.

Olívia deu de ombros.

— Eu posso delegar.

Eu não consegui segurar uma risada. Foi curta, mas foi minha. E Mareu me olhou como se tivesse conseguido arrancar uma prova física de que eu ainda era humano.

Nós chegamos ao lugar que Olívia tinha decretado como “perfeito”. A grama ali era mais cuidada, a sombra vinha de uma árvore grande o suficiente para parecer antiga, e o barulho do parque ficava numa distância que fazia as coisas parecerem… calmas.

Calmo também era um conceito que eu evitava.

Mareu estendeu a toalha, alisou o tecido com as mãos como quem arruma uma cena para uma fotografia, e eu me peguei pensando em quantas coisas eu teria feito diferente se a vida tivesse me dado chance de escolher com calma.

Eu tirei a cadeirinha do Liam do carrinho e coloquei no canto da toalha, de frente para nós. O bebê fez um som alto, animado, e mexeu as mãos.

Capítulo 116 1

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