~ LOGAN ~
Eu segui o resto do dia como se nada tivesse acontecido.
O tipo de normalidade que eu domino: respostas no tempo certo, postura correta, sorriso curto quando alguém espera um sorriso.
Só que havia uma frase presa no meu corpo, reaparecendo no intervalo entre um passo e outro, como um alarme silencioso.
Rômulo: Baretto Bar. Te pego em casa amanhã às 18h.
Eu não deveria ter visto.
Mas vi.
E agora eu precisava conviver com a parte de mim que não sabia simplesmente… deixar passar.
Ciúme.
Não, eu me recusei a aceitar que fosse ciúmes.
Talvez fosse só... mais uma crise a ser gerenciada.
E foi por isso que chamei Mareu ao meu escritóro.
Ela veio alguns minutos depois, como sempre: rápida, presente e fingindo que não estava cansada.
Eu apontei para a cadeira em frente à mesa.
— Obrigado por passar o dia com a gente hoje — eu disse.
Ela arqueou uma sobrancelha, como se eu tivesse acabado de agradecer por ela respirar.
— De nada — ela respondeu.
Eu puxei uma gaveta, já com o papel pronto. Eu não estava fazendo teatro. Eu estava tentando fazer a coisa certa do jeito que eu sabia fazer.
— Sei que era sua folga — eu continuei. — Vou registrar hora extra. É claro.
Eu vi.
Foi pequeno. Um milímetro de expressão. Mas eu vi o sorriso dela murchar um pouquinho, como se eu tivesse colocado um carimbo em cima de uma coisa que, para ela, tinha sido… outra.
E isso me deu um incômodo pior do que a notificação.
Porque eu não duvidava que ela tivesse gostado. Eu tinha visto no parque. Tinha visto na forma como ela se abaixava para falar com Liam, na forma como ela fazia piada de tudo e, ainda assim, arrumava a toalha do piquenique com cuidado real. Aquilo não tinha cara de obrigação.
Mas eu precisava ser prático. Profissional.
Porque a alternativa era pegar Mareu pela cintura e puxá-la para mim como se eu tivesse direito. Como se o desejo fosse argumento. Como se a nossa história — a parte que ela ainda não sabia — fosse desculpa.
— Não foi trabalho — ela disse, antes que eu falasse mais alguma coisa. — Eu me diverti.
Eu sustentei o olhar dela.
— Trabalho também pode ser divertido.
Ela inclinou a cabeça, e eu reconheci o brilho de perigo: Mareu só fazia aquela cara quando ia cutucar.
— O seu? — ela perguntou.
— Bom… — eu disse, escolhendo as palavras com cuidado. — Talvez o meu seja divertido de um jeito…
Ela esperou.
Eu desisti do esforço.
— Tá. Não é divertido na maior parte do tempo.
Mareu riu, e o som bateu naquele lugar dentro de mim que eu tento manter fechado desde Laura.
— É por isso que você precisava de uma gravata de dinossauros de patinete — ela decretou, como se fosse diagnóstico clínico. — Precisa de mais leveza no seu trabalho. E na sua vida.
Eu encostei as costas na cadeira e respirei.
— Talvez eu use na próxima reunião com o conselho.
Os olhos dela brilharam.
— Eu gostaria de ver isso.
Eu quase disse “você vai ver”, e não tinha nada a ver com a gravata. Engoli a frase antes que ela me denunciasse.
— Por falar em reunião — eu comecei, aproveitando a deixa como quem usa uma saída de emergência. — E em horas extra… tenho um compromisso amanhã.
E o fato de eu ter usado a palavra “batalha” me deixou ainda mais consciente do quão fundo eu já estava.
Mareu se levantou.
— Mais alguma coisa, chefe? — ela perguntou, num tom leve, mas eu percebi o peso escondido: ela estava me devolvendo ao meu lugar. “Chefe.” “Trabalho.” “Hora extra.”
Era a forma dela de se proteger.
Eu deveria ter deixado.
— Não — eu disse. — Só isso.
Ela virou para sair, e eu vi a gravata na minha mente, a de dinossauros de patinete, como se fosse um absurdo que alguém tivesse costurado coragem e carinho num pedaço de tecido.
— Mareu — eu chamei, antes que ela alcançasse a porta.
Ela parou e olhou por cima do ombro.
Eu não disse nada. Eu não tinha nada que não fosse perigoso.
Então eu fiz o que eu faço quando não sei lidar: eu controlei o tom.
— Obrigado — eu repeti. Mas dessa vez não era sobre hora extra.
Ela me encarou por um segundo, como se tentasse entender se eu estava falando com ela ou com o papel.
— De nada, Logan — ela respondeu, e saiu.
A porta fechou.
O escritório ficou quieto.
E eu fiquei ali, olhando para a mesa, sentindo uma vitória minúscula que não parecia vitória.
Porque eu tinha conseguido o que eu queria: impedir que ela estivesse em outro lugar amanhã às dezoito.
O problema era que eu não sabia o que, exatamente, eu estava tentando impedir.
E eu suspeitava que, se eu continuasse vencendo batalhas assim, eu ia acabar perdendo a guerra inteira.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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