~ MAREU ~
No domingo à noite, eu estava na sala com a Olívia, cada uma ocupando um lado do sofá como se aquilo fosse uma mesa de negociação. Ela com um livro enorme apoiado nas pernas, eu com a pipoca ainda fechada na mão, tentando convencer a mim mesma de que eu sabia conduzir uma noite “normal” com uma criança prodígio.
— Certo — eu anunciei, erguendo o pacote de pipoca como se fosse uma proposta oficial. — Temos duas opções para hoje.
Olívia levantou os olhos, interessada do jeito frio que me irritava e me encantava ao mesmo tempo.
— Opção um: dorama de vingança corporativa com pipoca amanteigada e uma dose de melancolia bem aplicada — eu disse, contando nos dedos. — Opção dois: documentário sobre… sei lá… polvo superdotado com pipoca amanteigada e uma dose de melancolia acidental, porque todo mundo chora quando um polvo morre. Eu não faço as regras.
Olívia piscou devagar.
— Você colocou melancolia como se fosse tempero.
— Porque é — eu respondi, séria. — Domingo à noite é o momento da semana em que até o sofá parece ter saudade de alguma coisa.
Ela voltou para o livro como se eu tivesse falado uma verdade inconveniente.
— Eu prefiro opção três — ela disse.
Eu pisquei, porque eu tinha acabado de oferecer duas possibilidades muito bem pensadas e, ainda assim, aquela criança estava falando como se eu tivesse apresentado um cardápio incompleto.
— Não existe opção três.
Olívia fechou o livro com a calma de quem encerra uma reunião e vai embora antes do café.
— Existe, sim. Você pode me ensinar a costurar um vestido pra mim.
Eu encarei.
Encarei mesmo.
Porque eu já tinha ouvido muita coisa absurda naquela casa, mas “curso intensivo de alta-costura com babá em domingo à noite” era uma categoria nova de audácia.
— Olívia… isso é trabalho infantil. Eu vou ter que fazer uma denúncia contra você mesma.
Ela nem piscou.
— Não é trabalho. É estratégia.
— Estratégia de quê?
— Garantia — ela disse, seca. — De que eu vou ser a mais bem vestida na festa da Marina.
Eu fiquei em silêncio por meio segundo, processando.
— Marina… — eu repeti, devagar. — Quem é Marina?
— Alguém que vai dar uma festa na qual eu quero ser a mais bem vestida.
Eu soltei uma risada que escapou antes de eu conseguir fingir ser adulta responsável. Porque era isso: não era sobre costura. Era sobre vencer.
— Tá — eu falei, erguendo as mãos em rendição. — Eu prometo que no próximo fim de semana eu te ensino. A gente faz o vestido, você destrói a concorrência e eu fico com a consciência limpa.
Ela assentiu, satisfeita, como se tivesse acabado de aprovar um orçamento.
— Ótimo.
— Mas hoje — eu acrescentei, apontando pro sofá e pro controle remoto — hoje a gente vai ver dorama.
Olívia estreitou os olhos, avaliando a proposta.
— Com pipoca amanteigada.
— Com pipoca amanteigada — eu confirmei.
— E sem melancolia exagerada.
— Que horas você chega mesmo?
Logan respondeu com a naturalidade de quem já tinha ensaiado a frase.
— Vou aqui perto. No Milani Wine Bar — ele disse. — Deve demorar… duas horas. No máximo.
Eu assenti, porque meu corpo sabia se comportar mesmo quando minha cabeça queria perguntar por que exatamente ele precisava de um compromisso “importante” num domingo.
Era uma mulher? Era Paula? Ele estava fazendo eu trocar o meu encontro para que ele pudesse sair e se divertir? Bem, eu não podia perguntar. Eu era só a babá.
— Tudo bem — eu disse, com um sorriso profissional que eu usava quando queria parecer inofensiva. — Eu e a Olívia vamos ter uma noite produtiva.
Logan inclinou a cabeça, olhando para mim como se “produtiva” fosse uma palavra suspeita.
— Produtiva — ele repetiu.
— Sim — eu confirmei. — Vamos dar uma festa na piscina, tomar uísque e tirar foto pras redes sociais — eu disse, no meu melhor tom de péssima influência. — Um final de domingo normal.
Logan ergueu o olhar, alarmado de um jeito quase comovente.
— O quê?
— Brincadeira — eu completei rápido. — A Olívia não deixaria.
Olívia, sem mudar a expressão:
— Alguém precisa ser o adulto aqui.
Logan soltou um ar pelo nariz, um som que era quase risada.
— Ótimo — ele disse, e então se virou para sair.
Antes de ir, ele tocou de leve a cabeça da Olívia — um gesto rápido, automático, mas que ainda assim demonstrava carinho. Depois, sem dizer mais nada, foi embora.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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