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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 120

~ MAREU ~

A porta fechou.

E o silêncio voltou. Só que agora ele tinha a forma exata da presença dele faltando. Não era só “ele saiu”. Era “ele esteve aqui”, e isso deixava uma marca no ar, como perfume caro depois que a pessoa vai embora e você continua respirando por teimosia.

Eu fiquei de pé devagar, porque tinha coisas na minha cabeça que eu não queria que estivessem lá, e mexer o corpo ajudava a fingir que eu não estava sentindo. Andei até a bancada da cozinha como se eu fosse uma mulher que só estava indo buscar pipoca, e não uma criatura que tinha acabado de assistir o Logan Novak sair da casa vestido como se fosse fechar um contrato com o destino.

— Certo — eu anunciei, batendo palmas como se fosse uma animadora de auditório. — Noite produtiva. Dorama. Pipoca. E emoções moderadas, porque também somos humanas. Ou… eu sou humana. Você é um projeto de CEO.

Olívia ergueu o livro como se eu tivesse acabado de apresentar um planejamento semanal ridículo.

— Você está falando rápido — ela observou.

— Eu falo rápido porque o silêncio é perigoso — eu rebati, indo até o armário. — O silêncio dá espaço pra pensamentos. E pensamentos… às vezes viram decisões ruins.

— Você está evitando pensar em alguma coisa — Olívia concluiu, sem emoção.

Eu peguei a tigela, peguei o pacote de pipoca, e tentei parecer uma cidadã comum de domingo à noite.

— Eu não evito pensar — eu respondi. — Eu só… adio. É um método de sobrevivência. Na minha cabeça, eu carimbo a ideia como “verificar mais tarde”, igual uma fatura que eu não quero abrir.

— É procrastinação com maquiagem.

Eu pisquei, ofendida e impressionada ao mesmo tempo e soltei um riso curto. A pipoca estourou na panela como se estivesse concordando.

A verdade é que eu estava evitando pensar em várias coisas, mas uma delas vinha com nome, sobrenome e um cartão.

E, antes que eu mudasse de ideia eu puxei o celular do bolso.

Mareu: “Desculpa mesmo por cancelar. Vida de babá é um imprevisto.”

Enviei.

Pronto. Era só isso. Era simples. Era adulto. Era… mentira.

Porque eu não estava cancelando por ser babá. Eu estava cancelando porque eu tinha deixado o Logan me pedir alguma coisa com um olhar — e eu odiava isso em mim. Odiava a facilidade com que eu virava “sim” perto dele.

Eu encostei o celular na bancada como se ele estivesse quente.

A resposta veio rápido, como se ele já estivesse com o celular na mão.

Rômulo: “Sem problemas. Saímos em outra oportunidade.”

Eu senti meus ombros relaxarem um pouco. Foi uma mistura irritante de alívio e frustração. Alívio, porque ele não tinha insistido. Frustração, porque ele não tinha insistido.

Civilizado demais pro meu caos.

— Com quem você está conversando? — Olívia perguntou.

A voz dela foi neutra, como se ela estivesse perguntando a hora. Mas eu conhecia aquele tom: curiosidade mascarada de casualidade. Ela fazia isso com tudo. Ela não “perguntava”, ela coletava dados.

Eu bloqueei a tela rápido demais, o que só provava o ponto.

— Com ninguém.

Olívia levantou os olhos do livro.

— “Ninguém” faz você sorrir.

Eu abri a boca, fechei, e tentei não parecer uma adolescente pega no flagra. O que era humilhante, porque eu tinha vinte e seis anos e um histórico completo de decisões ruins para justificar a maturidade.

— Eu não sorri.

— Sorriu — ela confirmou, sem emoção. — É seu namorado?

— Por que ele precisa inventar de se casar novamente? Nós formamos uma família muito boa. Ontem no parque foi perfeito.

A palavra “nós” veio com tanta naturalidade que meu estômago apertou. Não foi um aperto ruim. Foi aquele aperto perigoso, que parece carinho e ameaça ao mesmo tempo.

— Nós? — eu repeti, mais baixo do que eu pretendia.

— Sim — Olívia disse, como se fosse matemática. — Eu, meu pai, meu irmão. E temos a melhor babá e melhor amiga do mundo.

Eu senti meu rosto amolecer num lugar vulnerável.

Melhor amiga.

Era impossível não se sentir lisonjeada. Era impossível não sentir o coração fazer aquela coisa estúpida de querer pertencer. Só que, ao mesmo tempo, a frase dela me colocava exatamente onde eu estava: na borda da família, como peça importante, sim. Mas ainda peça. Um “encaixe” que podia ser substituído se alguém resolvesse apertar o parafuso certo.

E eu não tinha o direito de quebrar a confiança daquela menina. Não tinha o direito de confundir a vida dela com uma bagunça emocional adulta que ela não pediu.

Eu engoli a emoção com a mesma disciplina com que engolia humilhação em jantar com gente rica.

— Você tem razão — eu disse, tentando soar leve. — Ontem foi perfeito.

Olívia assentiu, satisfeita, como se eu tivesse confirmado um dado que ela precisava registrar.

Eu levantei e comecei a procurar a tigela maior, o açúcar, qualquer coisa. Porque mexer nas coisas era mais fácil do que mexer em mim.

E, no fundo da minha cabeça, uma conclusão veio com um peso que eu tentei ignorar.

— É melhor que as coisas dessem certo com o Rômulo — murmurei pra mim mesma.

Porque pelo menos eu ia ter alguém para distrair minha cabeça.

E era uma bela distração, diga-se de passagem.

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