~ MAREU ~
Eu fiquei sentada na cama com o celular na mão como se ele fosse um objeto perigoso. Na tela, a mensagem do Rômulo:
“Não consegui esperar a próxima vez. Estou no seu portão. Pode vir aqui?”
Eu li duas vezes. Três. Quatro, só pra ter certeza de que o meu cérebro não tinha decidido inventar romance pra compensar o domingo.
Meu primeiro impulso foi o impulso sensato — aquele que raramente ganha, mas eu sempre deixo ele tentar pelo menos uma vez.
“Você não devia ter feito isso.”
Aí eu pensei na continuação.
“Já está tarde. É domingo. Amanhã eu trabalho cedo. Tenho uma criança de seis anos e meio que acorda como se o mundo fosse uma reunião que começa pontualmente às sete. Tenho um bebê de nove meses que não respeita horário nem hierarquia. E tenho um patrão com olhos verdes que não me deixa esquecer que eu sou… eu.”
Ok. Essa parte eu não ia mandar. Primeiro porque era longa. Segundo porque era verdade demais.
Eu respirei fundo e tentei ser a adulta responsável que Clara insiste que existe em algum canto escondido do meu corpo.
Não existia.
Porque, no fundo eu me senti… lisonjeada.
O Rômulo tinha vindo até aqui, sem aviso, só porque queria me ver.
Eu olhei a hora. Eu olhei de novo, como se a hora fosse mudar de ideia sozinha.
E eu digitei, antes que eu começasse a pensar demais:
“Me dá dez minutos.”
Enviei.
O arrependimento tentou entrar no quarto na mesma velocidade.
Eu não deixei.
Levantei num pulo e fui direto pro armário.
Peguei um vestido arrumadinho. Um preto simples, curto. Não era sexy. Não era inocente. Era… negociável.
Passei uma maquiagem rápida e prendi o cabelo do jeito que dá certo quando você quer parecer organizada sem ter que ser.
Eu me olhei no espelho e fiz aquela análise honesta:
— Ok. — Você tem cara de “eu nem me arrumei” com acabamento de “eu me arrumei sim”.
Eu desci. A casa estava silenciosa. Eu não vi Logan. Não ouvi voz. Não ouvi passos. E por um segundo, o alívio foi tão forte que eu quase fiquei com raiva de mim mesma por sentir.
Quando eu apareci, Rôlumo desceu do carro. Ele abriu a porta pra mim antes mesmo de eu chegar perto.
— Oi — ele disse, com um sorriso que era perigoso.
Ele me cumprimentou com um beijo no rosto — leve, rápido, educado. Um beijo que dizia “eu sei me comportar” enquanto os olhos diziam “mas eu prefiro não”.
— Oi — eu respondi, tentando não parecer que eu tinha corrido uma maratona só pra escolher um vestido “não sexy”. — Como você sabia o endereço? — eu perguntei, porque precisava fingir que eu estava indignada, e não curiosa.
Rômulo fez um gesto pequeno com a mão, como quem diz “isso foi fácil demais”.
— Você falou que trabalhava com o Novak.
Eu pisquei.
— Eu falei. É.
— Então — ele continuou, encostando de leve na porta, com uma postura relaxada que parecia praticada. — Eu sei que você não deve ter muito tempo. Então eu pensei só em um passeio de carro e uma taça de vinho.
Eu olhei pro carro.
Olhei de volta pra ele.
— Uma taça de vinho no carro? — perguntei, porque a minha vida já estava cheia de decisões questionáveis, mas eu gosto de catalogá-las.
— Prometo que é um vinho bom — ele disse, com aquele sorriso.
E então, como se fosse uma confissão, ele completou:
— Na verdade… eu só queria uma desculpa pra te ver.
Eu senti meu rosto esquentar.
— Parece perfeito — eu falei, enquanto entrava.
Rômulo entrou do lado do motorista, ligou o carro e saiu com calma.
— Você sempre aparece do nada na vida das pessoas? — eu perguntei, apoiando o braço no apoio de porta e tentando parecer normal.
— Só quando vale a pena — ele respondeu.
— Ah. Ótimo. Então eu sou um projeto com potencial — eu brinquei.
Ele riu.
— Você tem senso de humor. Eu gosto.
A conversa foi indo do jeito fácil. Ele perguntou sobre mim e contou coisas sobre ele com a mesma medida: o bastante pra parecer aberto, o bastante pra manter o controle. Falou que viajava muito, que tinha negócios em alguns setores que eu conhecia por tabela, que “se metia” em investimentos com o mesmo entusiasmo com que algumas pessoas se metem em confusão.
— E você é assim nos negócios também? Impulsivo o suficiente pra aparecer do nada na casa dos outros?
— Eu não queria — Rômulo disse, depois de um tempo, olhando a vista como se estivesse negociando com ela — mas acho que eu preciso te levar de volta.
Eu fiz uma careta, porque eu estava confortável demais.
— Já? — eu perguntei, e a palavra saiu com mais sinceridade do que eu pretendia.
— Amanhã você trabalha cedo — ele lembrou.
— Eu sei — eu respondi, e então, porque eu sou péssima em me conter quando estou minimamente feliz, eu soltei: — E quando você me busca novamente?
Rômulo virou o rosto na minha direção e riu, surpresa real.
— Você é bem direta, não é?
Eu dei de ombros.
— Eu sei bem o que eu quero.
Assim que as palavras saíram, eu senti o peso delas.
Porque eu não sabia.
Ou, pior: eu sabia e não queria admitir.
Mas eu mantive o sorriso no rosto, porque honestidade demais arruína até vinho bom.
— Eu gosto disso — ele disse, e a voz dele tinha um tom satisfeito, como se ele tivesse encontrado alguma coisa rara.
Ele guardou as taças com cuidado, fechou a garrafa e ligou o carro de novo. No caminho de volta, a conversa ficou mais baixa, mais íntima. Eu encostei a cabeça no banco e observei as luzes passando, como se o mundo estivesse me levando pra casa e eu não tivesse certeza se eu queria chegar.
Quando estacionamos em frente ao portão, ele desceu primeiro e abriu a porta pra mim.
Eu desci, ajeitei o vestido e segurei o celular como se fosse um escudo.
— Obrigada — eu disse.
— Eu que agradeço — ele respondeu.
Eu dei um passo na direção da casa.
Ele deu um passo na minha direção.
— Boa noite, Mareu — ele disse, perto o suficiente pra eu sentir o perfume dele.
Eu ia responder. Eu juro que ia responder.
Mas, antes que eu conseguisse, ele me puxou pela cintura com firmeza e me beijou.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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