~ MAREU ~
— Essa não é a menina Valença? — ele disse, e o silêncio na sala ficou mais pesado. — A noiva fugitiva do Novak?
Por um momento, eu congelei.
Não foi aquele congelar dramático de novela, com música e zoom na cara. Foi um congelar físico, prático, como se o meu corpo tivesse entendido a frase antes do meu cérebro e decidido me proteger desligando o resto.
A sala inteira parou junto. Eu senti os olhos em mim como um calor incômodo, como se eu tivesse entrado ali sem roupa.
Eu busquei o rosto do Logan. Por instinto. Por aquela necessidade humana de confirmar se o chão realmente abriu.
Ele me encarava de volta.
Sem surpresa.
Sem aquela expressão de “o que é isso?” que um homem inocente faria. Sem a micro confusão que eu teria reconhecido nele na hora.
E eu entendi com uma clareza humilhante: Logan Novak era o meu noivo por contrato.
O noivo que eu nunca quis saber o nome. O noivo que eu nunca quis ver o rosto. O noivo que seria, segundo todo mundo que não era eu, “a união perfeita das famílias”. O casamento que ia sair na coluna social como se fosse um lançamento de produto e não duas pessoas sendo encaixadas num acordo.
A imagem veio inteira, rápida demais: eu fugindo da minha própria vida como quem foge de um incêndio, jurando que nunca ia ser capturada por esse tipo de destino… e então sendo contratada por engano para trabalhar na casa dele. Na casa do noivo que eu me recusei a conhecer.
Eu senti a boca secar.
E foi aí que eu fiz a coisa mais sensata possível naquele momento.
Eu corri.
Eu virei de uma vez, sem pensar em educação, sem pensar em postura, sem pensar em nada além de sair daquela sala.
O som dos meus passos no corredor parecia alto demais, como se eu estivesse carregando um escândalo nas solas do sapato. Eu ouvi vozes atrás de mim, mas nenhuma delas importava. Importava apenas o barulho do sangue dentro do ouvido.
Os elevadores estavam no fim do corredor. Eu apertei o botão com violência, como se eu chegasse rápido o suficiente, eu pudesse entrar num lugar onde o Logan não era o Logan e eu não era a Maria Eugênia Valença.
— Mareu! — a voz dele veio atrás de mim, cortando o ar.
Eu não olhei.
O elevador apitou. As portas começaram a abrir e eu entrei antes mesmo de terminar. Minha mão foi direto no botão de fechar, dedos apertando como se eu tivesse força para esmagar a realidade.
A porta estava quase se fechando quando um braço entrou, firme, e travou o sensor.
Logan entrou no último segundo.
Ele entrou como sempre entra em lugares: com espaço próprio, com presença, com aquele controle que faz o ambiente se ajustar ao redor dele. Só que agora… agora aquela presença parecia outra coisa. Parecia invasão.
As portas fecharam. E o elevador começou a descer.
Logan respirou fundo, como se estivesse escolhendo um tom que não acendesse incêndios.
— Mareu…
Eu virei o rosto na hora. O choque tinha virado raiva tão rápido que eu senti uma espécie de alívio, porque raiva pelo menos é ação.
— Você sabia? — eu cortei. — Sabia o tempo todo quem eu era e me deixou ser feita de idiota?
Ele travou por um segundo. Aquele olhar rápido de quem mede dano e decide o quanto admitir.
— Não… — ele começou, a voz mais baixa. — Não o tempo todo. Desde… desde o Asteria.
Aquilo me atingiu como um empurrão no peito.
Desde o Asteria.
O navio. O quarto. O toque. O jeito como ele olhou para mim como se eu fosse um problema e uma vontade ao mesmo tempo. O jeito como ele me tinha puxado para perto como se eu fosse dele.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...