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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 131

~ MAREU ~

Lá fora, o Rio continuava sendo o Rio. Gente atravessando rua, buzina, sol, vendedores, pressa, beleza, aquele caos que parece sempre despreocupado demais com o drama particular de alguém. Eu caminhei sem rumo, guiada só por uma necessidade simples: colocar distância entre mim e aquele prédio.

Entre mim e o olhar do Logan.

Eu não sei quanto tempo passou. Só sei que, em algum momento o vento ficou mais úmido e o barulho da cidade virou uma música mais aberta. Quando eu me dei conta, eu estava na praia.

A praia sempre me pareceu uma coisa indecente. Um lugar onde as pessoas têm coragem de existir sem armadura, com pele exposta, com risadas livres, com corpo à vontade. Eu nunca fui boa nisso. Eu sempre precisei de alguma coisa para me proteger: sobrenome, roupa, sarcasmo, postura.

Naquele momento, eu não tinha nada.

Eu tirei os sapatos e andei pela areia como se estivesse aprendendo a pisar. A areia grudou nos meus pés, entrou entre os dedos, e foi o primeiro contato real com alguma coisa que não era pensamento.

Eu me sentei perto da água, num ponto em que o mar parecia grande demais para caber dentro do meu problema. O vento mexia no meu cabelo e eu não liguei. O meu peito apertava e eu não consegui segurar.

Chorar não veio bonito. Não veio com uma lágrima discreta descendo pelo rosto e um lenço elegante. Veio inteiro, bruto, com soluço e vergonha.

Eu senti raiva de mim por chorar por um homem como Logan Novak.

Eu me senti sendo feita de idiota.

Era isso. Esse era o gosto mais amargo: idiota.

Porque, no fundo, era óbvio. Era óbvio que ele tinha me mantido perto por controle. Logan era isso. Ele controlava pessoas, agendas, empresas, filhos, riscos, situações. Ele controlava até a própria dor como se fosse um relatório que ele podia arquivar quando desse tempo.

Então é claro que ele teria controlado isso também.

A noiva fugitiva dentro da casa dele?

Uma coincidência grande demais para ele não transformar em vantagem.

Eu encarei o mar como se o mar pudesse me responder.

Ele dormiu comigo por isso?

A pergunta veio com violência, porque eu não queria acreditar, mas a minha cabeça insistia em construir o pior cenário possível com a eficiência de um comitê de crise.

Ele dormiu comigo pra me conquistar?

Pra mexer com a minha cabeça?

Pra saber até onde ele conseguia me puxar, até onde ele conseguia me dobrar, até o momento certo em que eu concordaria em fazer o que todo mundo sempre quis que eu fizesse?

Casar.

Casar com ele.

Porque esse era o plano perfeito. Era a união perfeita das famílias. Essa era a foto de coluna social, o contrato, a sala de reunião, o “destino inevitável” que eu cuspi quando fugi.

E a Paula… a Paula era a segunda opção. A substituta. O plano B para não perder o controle se o plano principal não desse certo.

Só que agora eu era o plano principal de novo.

Eu passei a mão no rosto, tentando limpar as lágrimas, e senti a pele pegajosa de sal. Eu devia parecer patética. Eu devia estar parecendo uma cena que eu detesto: a menina chorando na praia, abandonada, romântica. Só que não era romance.

Era humilhação.

Eu fechei os olhos e tentei respirar.

O celular vibrou dentro da bolsa.

Eu ignorei.

O celular vibrou de novo, insistente, e eu pensei com um ódio infantil: se for ele, eu jogo no mar.

Na segunda chamada, eu olhei.

Clara.

Eu atendi com o nariz entupido e a voz quebrada.

— Oi.

— Onde você está? — Clara foi direta, porque Clara sempre foi o tipo de pessoa que resolve antes de consolar.

Eu olhei ao redor, como se eu fosse capaz de nomear o mundo.

— Na praia.

Houve um silêncio curto do outro lado, seguido de um suspiro que eu reconheci: o suspiro de “isso é muito você”.

— Isso é Rio de Janeiro, Mareu — Clara disse, seca e amorosa ao mesmo tempo. — Acho que você precisa ser um pouco mais específica.

Eu soltei um som baixo, desesperado.

— Ah, merda.

Eu chamei um Uber com mãos sujas de areia e rosto sujo de lágrimas, como se eu fosse um anúncio ambulante de “não estou bem”. Quando o carro chegou, eu entrei e disse o endereço da escola com uma urgência que fez o motorista me olhar pelo retrovisor.

— Tá tudo bem, moça?

Eu respondi com um “tá” que não convencia nem a mim mesma.

Quando o carro finalmente parou, eu desci antes dele terminar de encostar direito. Eu atravessei o portão, me apresentei na recepção como se ainda tivesse algum direito ali, e fui para o pátio com o tablet apertado contra o peito.

O intervalo já tinha começado.

Crianças corriam. Gritavam. Riam. A vida parecia cruelmente normal.

Eu achei a Olívia no meio do pátio, perto de um banco. Ela me viu antes de eu chegar perto. Os olhos dela se estreitaram numa avaliação rápida.

Ela não correu para mim. Ela não fez cena. Ela só ficou parada, me observando como se eu fosse um dado novo no sistema.

Quando eu parei na frente dela, ofegante, ela olhou meu rosto, meu cabelo, minha roupa.

E perguntou, no tom mais objetivo do mundo:

— Por que você tá toda suja de areia e lágrimas?

Eu abri a boca e não saiu nada.

Então eu estendi o tablet para ela, como se aquilo pudesse justificar meu estado. Ela pegou sem expressão, verificou a tela como quem confere se o equipamento está intacto, e voltou o olhar para mim.

Eu não consegui responder.

Em vez disso, eu me abaixei para ficar na altura dela. Senti a areia cair do meu joelho, senti o rosto arder de sal, senti o coração apertar com uma culpa que eu não sabia onde colocar.

Eu puxei a Olívia para os meus braços com cuidado, como se eu estivesse segurando uma coisa preciosa demais para ser apertada com força.

Ela ficou rígida por meio segundo e então cedeu só um pouco, como se permitisse a existência daquele abraço sem entender a função.

Eu encostei o rosto no cabelo dela e falei num sussurro que saiu mais verdadeiro do que qualquer coisa que eu tinha dito nos últimos dias.

— Eu te amo, tá? De verdade. Não esquece disso.

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