~ MAREU ~
Lá fora, o Rio continuava sendo o Rio. Gente atravessando rua, buzina, sol, vendedores, pressa, beleza, aquele caos que parece sempre despreocupado demais com o drama particular de alguém. Eu caminhei sem rumo, guiada só por uma necessidade simples: colocar distância entre mim e aquele prédio.
Entre mim e o olhar do Logan.
Eu não sei quanto tempo passou. Só sei que, em algum momento o vento ficou mais úmido e o barulho da cidade virou uma música mais aberta. Quando eu me dei conta, eu estava na praia.
A praia sempre me pareceu uma coisa indecente. Um lugar onde as pessoas têm coragem de existir sem armadura, com pele exposta, com risadas livres, com corpo à vontade. Eu nunca fui boa nisso. Eu sempre precisei de alguma coisa para me proteger: sobrenome, roupa, sarcasmo, postura.
Naquele momento, eu não tinha nada.
Eu tirei os sapatos e andei pela areia como se estivesse aprendendo a pisar. A areia grudou nos meus pés, entrou entre os dedos, e foi o primeiro contato real com alguma coisa que não era pensamento.
Eu me sentei perto da água, num ponto em que o mar parecia grande demais para caber dentro do meu problema. O vento mexia no meu cabelo e eu não liguei. O meu peito apertava e eu não consegui segurar.
Chorar não veio bonito. Não veio com uma lágrima discreta descendo pelo rosto e um lenço elegante. Veio inteiro, bruto, com soluço e vergonha.
Eu senti raiva de mim por chorar por um homem como Logan Novak.
Eu me senti sendo feita de idiota.
Era isso. Esse era o gosto mais amargo: idiota.
Porque, no fundo, era óbvio. Era óbvio que ele tinha me mantido perto por controle. Logan era isso. Ele controlava pessoas, agendas, empresas, filhos, riscos, situações. Ele controlava até a própria dor como se fosse um relatório que ele podia arquivar quando desse tempo.
Então é claro que ele teria controlado isso também.
A noiva fugitiva dentro da casa dele?
Uma coincidência grande demais para ele não transformar em vantagem.
Eu encarei o mar como se o mar pudesse me responder.
Ele dormiu comigo por isso?
A pergunta veio com violência, porque eu não queria acreditar, mas a minha cabeça insistia em construir o pior cenário possível com a eficiência de um comitê de crise.
Ele dormiu comigo pra me conquistar?
Pra mexer com a minha cabeça?
Pra saber até onde ele conseguia me puxar, até onde ele conseguia me dobrar, até o momento certo em que eu concordaria em fazer o que todo mundo sempre quis que eu fizesse?
Casar.
Casar com ele.
Porque esse era o plano perfeito. Era a união perfeita das famílias. Essa era a foto de coluna social, o contrato, a sala de reunião, o “destino inevitável” que eu cuspi quando fugi.
E a Paula… a Paula era a segunda opção. A substituta. O plano B para não perder o controle se o plano principal não desse certo.
Só que agora eu era o plano principal de novo.
Eu passei a mão no rosto, tentando limpar as lágrimas, e senti a pele pegajosa de sal. Eu devia parecer patética. Eu devia estar parecendo uma cena que eu detesto: a menina chorando na praia, abandonada, romântica. Só que não era romance.
Era humilhação.
Eu fechei os olhos e tentei respirar.
O celular vibrou dentro da bolsa.
Eu ignorei.
O celular vibrou de novo, insistente, e eu pensei com um ódio infantil: se for ele, eu jogo no mar.
Na segunda chamada, eu olhei.
Clara.
Eu atendi com o nariz entupido e a voz quebrada.
— Oi.
— Onde você está? — Clara foi direta, porque Clara sempre foi o tipo de pessoa que resolve antes de consolar.
Eu olhei ao redor, como se eu fosse capaz de nomear o mundo.
— Na praia.
Houve um silêncio curto do outro lado, seguido de um suspiro que eu reconheci: o suspiro de “isso é muito você”.
— Isso é Rio de Janeiro, Mareu — Clara disse, seca e amorosa ao mesmo tempo. — Acho que você precisa ser um pouco mais específica.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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