~ MAREU ~
— Estou desconfortável com essa demonstração pública de afeto — Olívia falou num tom de “isso não está de acordo com o manual”, e eu quase pedi desculpas pra legislação.
Eu sorri, com a bochecha ainda úmida de lágrima seca e o peito ainda apertado daquela forma indecente que sentimento tem quando decide aparecer em horário comercial.
— Tá bom… tá bom… — eu disse, soltando devagar.
Ela ajeitou o tablet contra o peito, como se fosse uma pasta de executiva mirim, e me olhou com aqueles olhos que sempre parecem estar calculando algum risco.
— Mas eu também te amo — ela completou, com a mesma objetividade com que diria “você esqueceu a lancheira”.
Eu não resisti.
Puxei Olívia de volta para um abraço rápido, curto, um abraço de quem está tentando guardar um pedaço de chão dentro do corpo antes que ele suma.
— Certo — Olívia resmungou. — O que está acontecendo? Por que você está emotiva?
A pergunta veio limpa, sem julgamento, e foi exatamente isso que me desmontou. Eu queria responder a verdade, queria despejar tudo como se ela fosse adulta, queria dizer “porque seu pai era meu noivo”, queria dizer “porque eu fui feita de idiota”, queria dizer “porque eu não sei mais quem eu sou”.
Mas eu não tinha esse direito.
Não com ela.
— Não, nada… — eu menti, e a mentira saiu com um fio de voz. — Eu só…
Eu engoli seco. Passei a mão no cabelo dela com cuidado, como se fosse uma despedida que eu podia disfarçar de carinho.
— Te vejo depois — eu completei. — Boa aula.
Olívia estreitou os olhos como se não acreditasse, mas não insistiu. Ela nunca insistia quando percebia que a resposta estava fora da idade dela. Ela apenas arquivava para usar depois, no momento estratégico.
Eu me levantei rápido, como se ficar mais um segundo ali fosse perigoso. Dei um aceno para a professora, atravessei o pátio e saí pelo portão com a cabeça baixa, tentando não parecer uma adulta quebrada.
Peguei um Uber e coloquei o endereço da casa da Clara com dedos trêmulos.
No carro, a cidade passava pela janela como um filme sem som. Eu olhei para o mar de novo em algum trecho do caminho e senti a garganta apertar, mas eu me obriguei a respirar. Eu já tinha chorado na praia. Aquilo tinha sido uma explosão que eu não consegui conter. Agora eu precisava funcionar.
Clara não estava, ainda estava trabalhando. Mas eu tinha a chave porque amizade de verdade não é feita de “me avisa quando chegar”, é feita de “entra e se salva”.
Eu abri a porta e fui recebida pelo cheiro de casa de gente normal. Tirei os meus sapatos sujos de areia e fiquei um segundo parada no meio da sala, respirando como se eu estivesse voltando de um país em guerra.
Depois fui direto para o banheiro.
Fiquei embaixo da água quente por tempo demais, esfregando a pele como se eu pudesse apagar o sal do mar e o sal das lágrimas com sabonete. Eu lavei o cabelo, esfreguei os braços, limpei sob as unhas, e ainda assim parecia que a areia estava dentro de mim. Como se eu tivesse sentado na praia e o mundo inteiro tivesse entrado pelos poros.
Quando saí do banho, enrolada na toalha, eu me olhei no espelho. O rosto estava inchado, o nariz vermelho, os olhos com aquele brilho feio de quem chorou mais do que queria admitir.
Eu sequei o cabelo sem paciência. Peguei uma roupa da Clara no armário e vesti como se eu estivesse vestindo anonimato.
Eu precisava de uma decisão. Eu precisava de um plano. Eu precisava de algo que não fosse “correr”.
No caminho para a sala, meu pensamento voltou ao dia em que eu saí da casa dos meus pais. Eu tinha saído sem rumo. Sem plano. Com a coragem desesperada de quem sabe que ficar é morrer devagar.
Agora… agora eu pelo menos tinha uma coisa.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...