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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 133

~ MAREU ~

— Você… o quê?

A palavra saiu da minha boca antes do meu cérebro conseguir decidir se eu queria ouvir a resposta. Eu estava sentada no sofá da Clara com um pote de sorvete de chocolate em uma mão e o controle remoto na outra, e ainda assim a sensação era a de estar desarmada. Como se açúcar e drama coreano não tivessem nenhuma utilidade contra uma frase seca.

— Eu sabia.

Minha garganta fechou e eu senti um calor de raiva subir, mas era uma raiva confusa, embaralhada com vergonha e aquela sensação horrível de que eu estava de novo na posição de “última a saber”.

— Como assim você sabia? — eu perguntei, e a minha voz não saiu alta, mas saiu afiada.

Clara se sentou direito no braço do sofá e esfregou a testa.

— Escuta — ela começou, e o tom dela foi o mesmo que ela usava quando eu queria fugir de uma conversa séria: firme, mas sem crueldade. — Eu não sei como, mas o Logan nunca soube seu nome completo quando te contratou. Ele só… assumiu que o RH tinha cuidado de tudo. Ele delega. Você sabe disso.

Eu sabia. Eu tinha vivido aquilo. “Funcionários eficientes são invisíveis.” Eu lembrava da frieza prática dele nos primeiros dias, como se eu fosse um item de checklist que tinha aparecido pronto na casa.

Eu passei a língua nos lábios secos, tentando encaixar as peças.

— Aquele dia foi uma confusão — eu murmurei, lembrando. A sala errada. A contratação rápida. A sensação de que eu tinha entrado numa vida por engano e, de alguma forma, tinha decidido ficar.

— Foi — Clara concordou. — E foi o Henrique que descobriu quem você era. No dia em que você foi ser efetivada e deixou cair seu documento.

Eu soltei um som baixo.

— Hum…

O silêncio ficou pesado por um segundo, porque o “hum” era a minha maneira de não dizer “que humilhação”. Porque eu conseguia lidar com muita coisa, mas a ideia de um homem como Henrique pegando um documento meu no chão e entendendo em dois segundos o tamanho do nome que eu estava carregando… aquilo era o tipo de cena que eu odiava imaginar.

Eu engoli.

— E ele te contou? — eu perguntei, com o olhar fixo em algum ponto da sala. — E você achou que era uma boa ideia me manter no escuro?

Clara não se esquivou. Não tentou me suavizar com “calma”. Ela respondeu com honestidade. E a honestidade, às vezes, é uma faca limpa.

— Sim, achei — ela disse. — Porque senão você ia fazer exatamente o que você está fazendo agora, que é o que você aprendeu a fazer muito bem: fugir.

— E você pode me criticar? — eu retruquei, e a minha voz subiu um pouco. — Logan tava brincando comigo!

Clara inclinou a cabeça, paciente demais.

— Logan não estava brincando com você.

— Não? — eu ri, curto, sem humor. — Então o quê, Clara? Eu era parte do planinho dele. Ele me queria por perto… queria me conquistar e me fazer casar com ele.

Clara soltou um suspiro longo, do tipo “Mareu, eu te amo, mas você é uma novela ambulante quando entra em pânico”.

— Mareu… — ela começou, com aquela calma que me irritava. — Você sempre teve a imaginação muito fértil, não é?

Eu apertei a borda do pote com força.

— Então o quê? — eu insisti, porque eu precisava de lógica. Eu precisava de um motivo que me protegesse da ideia de que tudo tinha sido manipulação. — Qual é a lógica nisso tudo?

Clara me encarou com firmeza.

— Aí você vai ter que perguntar pra ele.

Eu virei o rosto, como se aquela fosse uma proposta indecente.

— O que eu sei — Clara continuou — é que naquele dia que vocês ficaram juntos pela primeira vez… ele ainda não sabia.

Eu levantei os olhos devagar. O meu corpo reagiu antes de mim, como se aquela informação tivesse aberto uma fresta de ar.

— Não sabia? — eu repeti, porque meu cérebro não aceitou de primeira.

— Não — Clara confirmou. Sem hesitar. — Não sabia.

— Nem pela Olívia?

A pergunta me atravessou como um corte. Eu vi a Olívia no pátio da escola, séria, pequena, me perguntando por que eu estava suja de areia e lágrimas. Eu vi ela cedendo meio segundo ao abraço. Eu vi o jeito como ela disse “eu também te amo” como se fosse um fato importante para manter o mundo no lugar.

Eu respirei. O meu orgulho quis dizer “não”. O meu coração, esse traidor, quis dizer outra coisa.

— Talvez pela Olívia — eu admiti, e a frase soou como um acordo que eu não queria assinar, mas sabia que era necessário.

Clara deslizou do braço do sofá e veio até mim. Ela me puxou para um abraço sem pedir permissão, do jeito que faz quando percebe que eu estou prestes a me fechar de novo por dentro.

Eu fiquei rígida por um instante e então cedi. Porque eu estava cansada.

— Eu só não quero ver você se fechar novamente — Clara disse, perto do meu ouvido, e a voz dela ficou mais macia. — Acreditar que você falhou em algum lugar. Você não falhou, Mareu. Você tá sendo incrível. E você precisa entender isso.

Eu senti minha garganta apertar de novo, mas dessa vez eu não chorei. Eu só respirei.

Clara se afastou um pouco e me olhou nos olhos, como se estivesse me obrigando a ficar presente.

— E não é porque… — ela escolheu as palavras com cuidado, e eu odiei o cuidado porque significava que era verdade — você tecnicamente se apaixonou pelo homem que sua família escolheu como seu marido… que você está seguindo o plano deles.

Eu fechei os olhos por um segundo.

— Você tá seguindo o seu coração — Clara completou, firme. — Do seu jeito. No seu tempo. Com a sua escolha.

Eu fiquei em silêncio, encostei a cabeça no encosto do sofá e fiquei olhando para o teto, sentindo o peso daquele abraço ainda nos meus ombros.

E pensei, com uma honestidade que doeu:

Mas o que será que meu coração quer de verdade?

Porque às vezes eu acho que ele fala comigo em outra língua.

E não é coreano.

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