~ LOGAN ~
Quando a reunião com o conselho terminou, eu não esperei a sala esvaziar para me recompor. Eu apenas me levantei, recolhi o tablet como se ele ainda fosse um objeto neutro e não uma evidência do caos, e saí com a mesma velocidade controlada de sempre.
Minha secretária se levantou no instante em que me viu.
— Senhor Novak...
— Reagenda tudo — eu cortei, sem elevar o tom. — Todos os meus compromissos de hoje. Reuniões, calls, almoço. Tudo.
Ela piscou, o microssegundo de surpresa que qualquer pessoa teria ao ouvir algo tão fora do padrão. Eu raramente movia a minha agenda. Eu raramente admitia que existia algo mais urgente do que trabalho.
— Tudo? — ela confirmou, já com o tablet na mão.
— Tudo — eu repeti. — E bloqueia o restante do dia. Se alguém insistir, diz que é uma emergência familiar.
Bruna assentiu, profissional. Ela não perguntou qual emergência. Secretárias boas não perguntam. Elas resolvem.
Eu caminhei até o meu escritório e fechei a porta. A madeira encontrou o batente com um som que deveria ter sido apenas rotina, mas, naquele dia, pareceu um ponto final.
Eu peguei o celular.
O nome dela estava ali.
Mareu.
Eu liguei.
Chamou. Chamou de novo. Até cair na caixa postal.
Eu tentei mais uma vez. E outra. E outra, porque a minha mente insistia no mesmo argumento inútil: se ela atender, eu consigo explicar. Se eu explicar, eu consigo controlar.
Mas ela não atendeu.
Na quinta tentativa, eu me rendi ao fato de que não era porque ela não estava vendo, era porque ela não queria atender.
E isso… isso me irritou de um jeito absurdo, porque uma parte de mim ainda se comportava como se ela fosse algo que eu pudesse administrar. E eu tinha acabado de aprender, no jeito mais violento possível, que Mareu não era administrável.
Eu larguei o celular na mesa. Fiquei olhando para ele por um segundo como se fosse ofensivo. Depois me levantei e fui até a janela, porque às vezes eu preciso de distância física para pensar direito.
A cidade lá embaixo continuava. Carros, pessoas, sol. O mundo não se importava com o fato de que eu tinha perdido o controle de uma coisa que eu nem sabia nomear.
Eu tinha duas opções, e ambas eram péssimas: esperar ou agir.
Esperar significava dar a ela espaço para desaparecer. Agir significava correr atrás e parecer o que eu não podia parecer: um homem desesperado.
Eu olhei o relógio.
Hora de buscar Olívia.
Qualquer babá poderia fazer isso. Qualquer motorista. Eu tinha estrutura para não precisar estar presente. Mas não era um dia para delegar.
Eu peguei as chaves. Peguei o celular. Peguei a pasta de couro — por hábito, como se eu ainda fosse uma pessoa com rotina.
No caminho, eu tentei ligar de novo.
Nada.
Na frente da escola, eu parei com o carro num lugar autorizado e esperei. O portão abriu, crianças começaram a sair em pequenos grupos, e eu senti aquele aperto familiar no peito que sempre vem quando eu vejo Olívia no meio da multidão — aquela mistura de orgulho e culpa.
Ela me viu. E, em vez de correr, ela veio andando devagar, os olhos varrendo ao redor como se estivesse procurando algo que eu tivesse escondido em qualquer lugar.
Quando chegou perto, não falou “oi”.
Falou:
— Cadê a Mareu?
Eu segurei o volante com mais força do que precisava.
— A Mareu… teve um imprevisto — eu respondi, escolhendo as palavras como quem pisa em vidro. — Eu vim te buscar hoje.
Olívia estreitou os olhos, desconfiada.
— Trouxe minha roupa de balé?
Eu pisquei. A pergunta me pegou num ponto cego. Mareu era quem lidava com essas informações. Mareu era a pessoa que sabia a vida da Olívia nos detalhes que eu deveria saber.
— Balé? — eu repeti.
— É — Olívia confirmou, sem paciência. — Hoje eu tenho aula de balá depois da escola.
Eu senti um golpe de culpa que não combinava com um homem como eu, mas eu não tinha energia para fingir que estava tudo bem.
— Eu não trouxe, desculpa — eu admiti. — Mas… eu pensei que você talvez pudesse faltar e a gente… almoçar juntos.
Olívia ficou parada. Me encarou como se eu tivesse acabado de propor uma viagem para Marte.
— O vovô morreu?
Eu quase ri, mas a frase veio com tanta lógica infantil que o riso morreu na hora.
— O quê? Não — eu respondi rápido, sério. — Não.
Eu me inclinei um pouco, tentando parecer leve.
— Liv, a Mareu…
Olívia me interrompeu com uma urgência que fez meu estômago afundar.
— Você demitiu a Mareu?
A dor na pergunta foi tão nítida que eu senti como se alguém tivesse apertado meu peito com a mão.
— Não — eu respondi na hora, rápido demais. — Não, não. Eu não…
Olívia soltou o ar, aliviada de um jeito que me envergonhou. Como se ela tivesse acabado de evitar uma tragédia.
Eu continuei, escolhendo a mentira menos destrutiva.
— Ela só… precisou de uns dias de folga.
E eu odiei mentir para ela. Mas eu preferia mentir do que ver Olívia entrar em pânico com a ideia de abandono.
— Uns dias de folga? Mas ela ia me ensinar a costurar um vestido.
Eu senti uma pontada de culpa. Não por causa do vestido. Pela forma como Olívia depositava futuro em coisas pequenas. Costurar um vestido significava estabilidade. Significava “ela vai estar aqui”.
— Tudo bem — eu disse, e a mentira saiu mais fácil do que eu queria admitir. — Ela vai voltar a tempo da sua festa.
Olívia assentiu, satisfeita, como se aquilo resolvesse o universo.
— Ótimo — ela disse. E então completou, num tom simples, sem perceber o peso do que estava falando: — Eu não sei o que faria sem a Mareu.
Eu parei com a mão em cima do copo.
Porque ela não estava falando só de um vestido. Não estava falando só de uma babá que faz café da manhã, organiza mochila e finge que entende física de balão.
Ela estava falando do porto seguro dela.
Do lugar onde ela encostava quando eu falhava. Do colo que ela aceitava quando o meu era difícil demais. Da pessoa que fazia a casa parecer menos vazia.
Eu respirei fundo, olhando para minha filha do outro lado da mesa, pequena demais para carregar tanta perda e inteligente demais para fingir que não sente.
E entendi, com uma clareza fria:
Custasse o que custasse, eu não podia deixar Mareu fugir da vida da Olívia.
E, se eu fosse muito honesto comigo mesmo… eu não podia deixar Mareu fugir da minha vida.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...