~ MAREU ~
Eu estava sentada no sofá desde cedo.
Clara tinha saído para trabalhar com a mesma energia de sempre — beijo no alto da minha cabeça, uma ordem para eu comer algo decente, e aquele olhar firme que dizia “não faz besteira”. Eu assisti a porta fechar e fiquei ali, encarando o vazio, como se eu estivesse esperando alguém me dizer o que fazer.
Só que não havia ninguém.
Eu não tinha trabalho. Não tinha rotina. Não tinha o barulho da casa Novak para me distrair das minhas próprias ideias.
E eu não podia continuar postergando para sempre.
A verdade era simples, mesmo que doesse: eu precisava tomar uma decisão.
Ou eu conversava com Logan e tentava encontrar um meio termo — por Olívia, principalmente por Olívia —, ou eu fazia o que eu sabia fazer melhor quando o mundo ficava grande demais: eu encerrava tudo com um corte limpo. Voltava lá quando ele estivesse fora, pegava minhas coisas e colocava um ponto final.
Sem conversa. Sem explicação. Sem “vamos alinhar”. Ponto final.
Eu me levantei e andei até a janela. A cidade lá embaixo parecia seguir normal. Pessoas indo trabalhar, pessoas atravessando a rua com pressa, pessoas vivendo sua própria vida.
Eu encostei a testa no vidro frio e respirei.
“Por Olívia.”
Olívia não merecia perder mais uma pessoa por causa do caos dos adultos. E eu… eu tinha prometido. Prometido sem perceber o peso. Prometido com o corpo inteiro. Prometido ficar.
Eu estava tentando organizar minha mente quando o interfone tocou.
O som me fez pular como se fosse alarme.
Eu atravessei a sala e peguei o aparelho ainda com o coração acelerado.
— Alô?
— Dona Maria Eugênia? — a voz do porteiro veio educada, formal. — Tem uma entrega aqui para a senhora.
— Entrega? — eu repeti.
— Sim, senhora. Disseram que são… as suas coisas que ficaram no emprego antigo.
Emprego antigo.
Eu senti um nó subir na garganta tão rápido que eu quase engasguei.
Emprego antigo.
Era isso, então. Logan tinha aceitado minha demissão. Tinha aceitado mesmo.
Ele tinha… seguido em frente.
E não só isso: tinha mandado as minhas coisas para eu não precisar pisar lá de novo.
Um gesto de controle até o fim. De encerramento. De “aqui termina”.
Eu apertei o interfone com força demais.
— Pode subir — eu falei, e minha voz saiu firme por fora, mas por dentro tudo estava desmoronando.
Eu desliguei e fiquei parada no meio da sala por um segundo, como se o corpo estivesse tentando decidir se sentava, se chorava, se quebrava alguma coisa.
“Emprego antigo.”
Eu forcei as pernas a se mexerem e fui para a porta. Fiquei ali, esperando, ouvindo o som distante do elevador subindo, como se cada andar fosse um aviso.
Quando o ding finalmente soou, eu endireitei os ombros por reflexo. Eu não ia abrir a porta parecendo fraca. Eu não ia abrir a porta parecendo derrotada.
A porta do elevador se abriu.
E, em vez de um entregador, eu vi Paula Rizzo.
Paula estava puxando duas malas.
O meu corpo reagiu com uma onda de frio que começou na nuca e desceu pela coluna. A cena era tão absurda que, por um segundo, eu pensei que fosse uma alucinação produzida por açúcar e estresse.
Mas não era.
Ela olhou pra mim e sorriu um sorriso pequeno, controlado, daqueles que não querem ser simpáticos, querem ser superiores.
— Você tem muita coisa pra uma babá — Paula comentou, e o tom dela fazia a palavra “babá” soar como “inseto”.
Eu senti o sangue subir no rosto.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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