~ MAREU ~
Paula se virou de volta para mim com a lentidão de quem está muito segura de si, e de quem acha que o mundo inteiro deveria esperar enquanto ela escolhe a melhor frase.
— Ah, veja que coincidência… — ela disse, inclinando a cabeça, o sorriso pequeno e venenoso. — Nós usamos o mesmo número.
Eu senti o sangue ferver mais.
— Tira meus sapatos agora! — eu repeti, com a voz já no limite do educado.
Paula ergueu a mão, como se estivesse avaliando a manicure enquanto falava.
— E como foi meu futuro marido quem comprou… nada mais justo que eu fique com eles pra mim. — Ela deu um passo, fazendo questão de produzir o toc toc no carpete. — Logan tem bom gosto, não é?
O som do salto parecia um deboche em ondas.
— Tira. Meus. Sapatos. Agora — eu falei de novo, e dessa vez cada palavra saiu como se eu estivesse colocando um tijolo na cara dela.
Paula sorriu de um jeito ainda mais calmo, como se eu fosse um bichinho agitado batendo numa porta de vidro.
— Queridinha… você não entendeu? — ela disse, e o “queridinha” foi uma bofetada. — O sapato é meu agora. Logan é meu agora. Aquela casa é minha agora.
Eu pensei por um segundo.
Só um.
Porque, se eu fosse uma pessoa adulta e equilibrada, eu teria pensado por mais tempo. Teria lembrado que eu estava no corredor do prédio da minha melhor amiga, que briga física não resolve nada, que Paula Rizzo provavelmente tinha um advogado de plantão e uma habilidade especial de se fazer de vítima.
Talvez eu devesse ter respirado.
Talvez eu devesse ter ido para dentro e batido a porta.
Talvez eu devesse ter escolhido dignidade.
Mas eu escolhi… raiva.
E a raiva, em mim, é uma criança que aprende a correr antes de aprender a pensar.
Eu avancei contra Paula.
Na verdade, eu avancei contra a perna de Paula.
Foi uma decisão tão absurda que eu só percebi o nível do ridículo depois, quando já era tarde demais para voltar atrás.
Eu me abaixei com a precisão de alguém tentando salvar um bebê caindo da escada e agarrei o tornozelo dela.
— O que você tá fazendo?! — Paula gritou, a voz aguda de pânico e indignação. — Me solta, sua louca!
Ela tentou puxar a perna para trás e eu segurei com mais força.
— Louca nada, eu só quero o que é meu! — eu rosnei, como se eu estivesse em um documentário sobre animais defendendo território.
Paula tentou me chutar em legítima defesa, e eu tive que desviar como se aquilo fosse uma luta profissional — o que deixava tudo ainda mais patético, porque nenhuma de nós era profissional em absolutamente nada que envolvesse confronto físico.
Foi aí que eu entendi uma coisa muito clara: briga de rica não é briga. É um teatro de desespero com salto alto.
Eu puxei o sapato com as duas mãos e Paula tentou me golpear com a perna que eu não estava segurando. Aquilo virou uma dança grotesca no carpete do corredor.
Eu puxava.
Ela sacudia.
Eu escorregava um pouco.
Ela quase caía, mas se segurava na parede.
E, em algum momento, eu me dei conta de que aquilo não era só sobre o sapato.
Era sobre ela fazendo questão de me humilhar.
Era sobre o jeito como ela dizia “empregadinha”.
Era sobre ela falando “Lívia” como se a Olívia fosse um item dispensável.
Era sobre a frase “ele vai chamar a polícia”.
Era sobre a minha vida.
Então eu fiquei cega.
E a cegueira da raiva tem um lado bom: ela te dá força de mãe levantando carro.
— Me dá isso! — eu gritei, puxando com uma energia que eu não sabia que tinha.
Paula soltou um som desesperado.
— Você vai rasgar! Você vai rasgar o couro! — ela reclamou, como se aquela fosse a verdadeira tragédia do dia.
— Eu rasgo a sua alma, Paula! — eu retruquei, sem nenhuma elegância, o que provava que eu estava completamente fora de mim.
Eu consegui arrancar um pé.
O sapato saiu com um ploc humilhante, e eu quase tive uma alegria infantil. Eu segurei a peça como se fosse um troféu de caça.
Paula ficou em pé com um pé descalço e o outro ainda com salto, parecendo um flamingo irritado.
— Você é uma psicopata! — ela berrou.
— Eu sou uma mulher traída pelo sistema! — eu devolvi, sem nenhuma certeza do que isso significava, mas soava grandioso o suficiente para justificar eu estar de joelhos no corredor agarrando um Louboutin.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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