~ LOGAN ~
Eu tinha conseguido o endereço da Clara. Não tinha sido difícil. O difícil era aceitar que eu estava mesmo fazendo isso.
Eu deveria estar olhando relatórios, assinando documentos, preparando a conferência na França, discutindo metas do próximo trimestre. Eu deveria estar sendo o homem que eu sempre fui: prático, previsível, inteiro.
Mas eu estava preso em uma única ideia.
Assim que eu saísse do serviço hoje, eu iria até ela.
Mareu precisava me ouvir.
Nós precisávamos acertar as coisas.
E eu nem sabia exatamente que “coisas” eram essas, porque a verdade é que eu tinha passado semanas construindo uma realidade em que Mareu cabia na minha vida sem que eu precisasse nomear o que ela era. Babá dos meus filhos. Funcionária eficiente. Presença que organizava a casa. E, em algum momento, sem que eu tivesse autorizado… ela virou a pessoa que fazia a minha casa parecer viva.
Eu estava olhando para a agenda do dia como se fosse um inimigo quando Bruna apareceu na porta do meu escritório.
— Senhor Novak… o senhor Rizzo está aqui. Disse que precisa vê-lo agora.
Eu senti o corpo endurecer.
— Manda entrar — eu falei.
Bruna assentiu e desapareceu. Um segundo depois, Antônio entrou como se o escritório fosse dele.
Ele não sorriu. Não perdeu tempo com cortesia. Veio com aquela energia de homem que acha que pode erguer paredes com a própria voz.
— Você soube o que a sua empregadinha fez com a minha filha? — ele começou, direto, ameaçador.
Eu pisquei, confuso.
— O quê? — eu respondi. — Do que você está falando?
Antônio fechou a porta com cuidado. Ele se aproximou da minha mesa e se apoiou na borda, como se aquilo fosse uma sala de interrogatório.
— A tal da Maria Eugênia agrediu a Paula — ele disse.
Eu levantei uma sobrancelha… aquilo não combinava com Mareu. Com o que eu conhecia dela. Com o modo como ela reagia quando era atacada: com ironia, com fuga, com palavras.
Não com agressão física.
— Isso não parece coisa da Mareu — eu falei, e a minha voz saiu firme, antes mesmo de eu pensar.
Antônio pegou uma pasta que ele trazia na mão e colocou sobre a minha mesa como se estivesse entregando uma sentença. Ele abriu e espalhou papéis na madeira. Páginas impressas, carimbos, assinaturas.
— Pois eu tenho um boletim de ocorrência que prova o contrário.
Eu olhei para os papéis.
A palavra “BOLETIM” saltou primeiro. Depois “LESÃO”. Depois “VÍTIMA: PAULA RIZZO”.
— Paula teve que fazer um registro — Antônio continuou, como se estivesse narrando um relatório de desempenho. — Corpo de delito, provas de câmeras, tudo. Ela terminou com um ferimento grave na cabeça.
Eu ergui o olhar.
— Como? — eu perguntei, e dessa vez eu ouvi a minha própria voz falhar um milímetro. — Onde? O que…?
Antônio deu de ombros, impaciente.
— Não interessa.
Claro que interessava.
Era exatamente isso que interessava: entender.
Mas Antônio não estava ali para esclarecer, estava ali para empurrar.
— O que interessa — ele disse, inclinando-se um pouco mais, aproximando o rosto do meu — é que você colocou uma babá mentalmente instável dentro da sua casa, para cuidar dos seus filhos.
Instável.
A palavra me irritou de um jeito físico.
— E como se não bastasse — Antônio continuou, sem pausa — ela é sua noiva fugitiva que agrediu sua futura noiva. Sabe como isso soa, Logan?
Eu senti a raiva subir, mas eu segurei. Eu tenho prática em segurar. Eu segurei por anos. Eu segurei em reuniões piores, com homens piores, em ambientes mais hostis.
Eu fiquei em silêncio.
Porque a verdade era ridícula.
Eu não tinha tentado.
Eu tinha convidado Paula para o meu aniversário, sim. Mas eu tinha passado todo o tempo ocupado demais com… Mareu.
Antônio soltou um som de desprezo, como se lesse meus pensamentos.
— Exatamente.
Eu segurei a vontade de me levantar da cadeira e encerrar aquilo. Eu precisava pensar em Olívia. Eu precisava pensar no conselho. Eu precisava pensar na França. Eu precisava pensar em como impedir Paula de usar um BO como arma contra a pessoa que minha filha amava.
Eu odiei o quanto isso me encurralava.
Eu passei a mão pelo rosto uma vez, devagar, e decidi fazer o que eu sempre faço quando não posso vencer: ganhar tempo com condições.
— Tudo bem — eu falei. — Paula vai à viagem comigo.
Antônio levantou as sobrancelhas, interessado.
— E com meus filhos — eu acrescentei. — Depois disso… depois disso a gente decide.
Eu odiei ouvir a frase com o sabor de concessão. Mas eu não ia entregar a assinatura agora. Não daquele jeito.
Antônio me encarou por alguns segundos, avaliando. Ele queria mais. Sempre quer mais.
— É bom o suficiente para você? — eu perguntei, e minha voz ficou firme de novo.
Antônio respirou fundo e deu de ombros.
— Não — ele respondeu, honesto, sem o teatro dessa vez. — Mas é um começo.
Ele recolheu a pasta com a calma de quem já plantou o que queria plantar. Antes de sair, ele me olhou como se estivesse dando uma última lição.
— Resolva isso logo, Logan — ele disse. — Porque se você não resolver… alguém resolve por você.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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