~ MAREU ~
Eu assisti à cena como quem assiste a uma propaganda de margarina com defeito de fábrica.
Antônio Rizzo levantou o celular, afastou um passo para enquadrar melhor e anunciou um “sorria” com a confiança de quem acredita que um comando resolve qualquer dinâmica humana. Paula se posicionou ao lado do Logan com aquela naturalidade de capa de revista: ombro colado, rosto levemente inclinado, sorriso calibrado.
Na frente, Olívia e Paloma seguravam seus troféus como se fossem microfones num debate eleitoral.
Só que Olívia não sorriu.
Ela nem fingiu. O rosto dela estava parado, bonito e duro, com um olhar de desprezo tão concentrado que eu pensei que, se desprezo tivesse massa, dava para usar como âncora.
Paloma, por outro lado, fazia pose. Girou o troféu de primeiro lugar, mostrando o brilho para o sol, e soltou, nada inocente:
— O meu é mais bonito. Tem até uma plaquinha dourada.
Eu vi, bem de perto, a mudança na Olívia. Não no rosto, no queixo. Ela levantou um milímetro. Um milímetro que dizia “ok”.
Olívia estendeu a mão.
— Parabéns.
O tom foi tão neutro que poderia estar lendo um aviso de elevador.
Eu me engasguei por dentro. Logan também notou. Eu vi pelo jeito como ele piscou, lento, e pelo tensionamento na mandíbula: aquele “isso não é normal” que ele faz quando algo foge do padrão.
Paloma apertou a mão da Olívia com uma confusão genuína, como se não soubesse se aquilo era um gesto de paz ou o começo de um plano.
Antônio finalmente tirou a foto. Fez mais duas, por garantia, e falou “perfeito” como se tivesse documentado uma vitória.
Quando ele guardou o celular, Olívia se movimentou com decisão. Em vez de ficar perto da Paloma e da Paula, ela contornou a mesa e se sentou do outro lado do pai, ficando perto de mim e do Rômulo.
Olívia pousou o troféu ao lado do prato com um cuidado exagerado e virou para Paloma com um sorriso que não tinha nada de infantil.
— Me explica como você fez.
Paloma piscou.
— Como eu fiz o quê?
— O vulcão — Olívia disse, como se a resposta fosse óbvia. — O que você usou para a erupção? Qual foi a reação química? Qual foi a proporção? E como você controlou a pressão para não respingar demais?
Eu senti meu cérebro pedir licença e sair correndo. Na minha cabeça, “vulcão” era uma coisa com papel machê e um “puff” de espuma. Olívia estava falando como se fosse um laboratório.
Paloma deu um sorrisinho e olhou para o cardápio.
— Ah, eu… usei umas coisas.
— Quais coisas? — Olívia insistiu, sem elevar a voz.
— Coisas de… de vulcão — Paloma respondeu, já virando para a piscina. — Pai, posso entrar na piscina depois?
— Segunda pergunta — Olívia insistiu, paciente. — Você sabe por que a espuma sobe? Ela sobe por causa do gás liberado. Qual gás? E o que faz ele ser liberado?
Paloma mexeu no guardanapo.
— Eu não lembro.
— Você não lembra — Olívia repetiu, como se estivesse anotando num relatório.
Paloma bateu o troféu na mesa com força o suficiente para tilintar.
— Você tá com inveja! Você ficou em segundo!
Olívia encarou Paloma como se estivesse olhando um problema matemático muito simples.
— Eu estou com inveja. Eu tenho princípios. E eu sei que fui melhor.
Eu quase ri, porque aquilo era tão Olívia que doía.
Logan respirou fundo, visivelmente tentando escolher qual versão dele usar ali: o pai que acalma ou o CEO que encerra reunião.
— Chega — ele disse, curto.
Paula tocou o braço dele, como se estivesse pronta para “ajudar” e isso, por algum motivo, me irritou de um jeito pessoal demais.
— Ótimo… vamos guardar a humilhação educada pra depois da sobremesa, por favor — eu disse para Olívia, tentando acalmá-la.
Do meu lado, Rômulo se inclinou e encostou a mão na minha, num gesto discreto, quente. Um “respira” silencioso.
— Não se preocupa com isso — ele disse. — Não é mais sua função. Você não é mais babá da menina.
Eu ouvi um som pequeno. Quase nada. Um suspiro que parecia ter sido arrancado.
Olívia piscou.
Os olhos dela encheram tão rápido que eu senti o peito apertar. Ela virou o rosto para mim, depois para o pai, depois voltou para mim, e a voz saiu fina, quebrada, como se não tivesse entendido a própria língua.
— O quê? — ela perguntou. — Você não é mais minha babá?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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