~ LOGAN ~
— Por favor, sente-se.
Ele procurou a cadeira. Ajustou o paletó e se sentou.
Eu não me sentei.
Fiquei em pé, ao lado da mesa, porque eu queria que ele sentisse a diferença. Eu queria que ele entendesse que aquela conversa não era uma negociação entre iguais. Era um aviso entre um homem que ainda tinha escolha e outro que só sabia chantagear quando perdia o controle.
Eu abri minha pasta e tirei uma folha.
Uma só.
Coloquei na frente dele.
Antônio pegou o papel com a ponta dos dedos, como se fosse algo sujo. Leu devagar. A linha da boca dele foi fechando aos poucos. A testa se franzindo. A expressão se contraindo até chegar no ponto exato em que a raiva precisava ser engolida para não virar escândalo.
Quando ele terminou, levantou os olhos para mim.
— O que é isso?
Eu inclinei levemente a cabeça.
— Exatamente o que parece. A Mareu abriu um boletim de ocorrência contra a Paula.
Antônio soltou um riso curto, sem humor. Aquele riso de quem está acostumado a ver pessoas menores recuarem ao primeiro tom de voz.
— Isso é ridículo.
— Não — eu disse. — Não, não é.
Ele apoiou o papel na mesa com um cuidado exagerado, como se o simples ato de tocar pudesse contaminá-lo.
— Apropriação indébita? — ele cuspiu a expressão, com desprezo. — Você está me dizendo que minha filha…
— Estou dizendo que existem imagens de câmeras — eu interrompi, sem elevar o tom. — Existe depoimento do porteiro. E existe também o depoimento de uma funcionária minha envolvida. O suficiente para que isso vire um problema real, se alguém decidir que deve virar um problema real.
Antônio manteve os olhos fixos em mim por um segundo longo. A mente dele já estava rodando, avaliando impacto, risco, dano de imagem. Não era preocupação com a filha. Era contabilidade social.
— O que você quer com isso? — ele perguntou, e a voz saiu mais baixa, controlada, como se ele estivesse retomando um pedaço do palco.
Eu abri as mãos, quase cordial.
— Eu? Nada. Nada mesmo.
Dei um passo lento em direção à janela, só para não parecer apressado. Só para reforçar que o tempo ali era meu.
— Mas imagina só… seria horrível se essa informação vazasse, não é? Paula Rizzo envolvida com furto. Notícias em todas as mídias de fofoca. Quem diria. Isso é o bastante para queimar a reputação de alguém permanentemente, não é? Eu acho que é...
Eu parei. Olhei para ele por cima do ombro.
— Mas não precisa se preocupar. Porque a Mareu sabe exatamente como evitar que isso aconteça.
O maxilar de Antônio travou. Era quase visível, como um clique dentro do rosto dele.
Não porque eu não tivesse resposta. Porque eu precisava escolher qual versão da verdade eu entregaria — a que ele merecia, ou a que causaria mais dano.
Eu escolhi a que causaria mais dano.
Um sorriso escapou, discreto, inevitável.
— Desculpa? — eu perguntei, quase leve. — Eu dei a impressão de que vou pedir a Paula em noivado? De que ela era a noiva de quem eu estava falando?
O rosto de Antônio perdeu a cor naquele instante. Branco não de susto teatral. Branco de cálculo falhando. De plano desmoronando.
— O que você…?
Eu inclinei a cabeça, como se estivesse esclarecendo um mal-entendido técnico numa reunião.
— Não. Não vou.
Ele abriu a boca, mas não saiu nada. E, pela primeira vez desde que eu o conhecia, Antônio Rizzo pareceu um homem que precisava de tempo para reorganizar o mundo.
Eu não dei.
— A Mareu vai comigo à França — eu continuei, baixo, preciso. — Eu vou pedir Maria Eugênia Valença em noivado.
O silêncio que veio depois não foi o de um conselho preocupado.
Foi o silêncio de um homem entendendo, tarde demais, que eu tinha acabado de retirar a única peça do tabuleiro que ele acreditava controlar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...