O teatro não tinha saída de emergência para vergonha.
Suzane estava perto demais. Confiante demais. O perfume dela invadiu meu espaço pessoal como se tivesse direito de estar ali.
— Eu sabia que era você! — ela repetiu, os olhos brilhando com aquela satisfação predatória. — Por que você saiu correndo?
Porque você é uma fofoqueira profissional e eu prefiro me jogar de um prédio a virar assunto na mesa de jantar da família novamente.
— Suzane — disse, forçando um sorriso que doía nos músculos do rosto. — Que surpresa.
Ela se aproximou mais, bloqueando minha saída com o corpo. Não precisou me tocar. O bloqueio era social, invisível, mas eficiente.
— Depois de... tudo... — ela disse, pausando de propósito, saboreando cada palavra. — Você desaparece. Assim. Sem avisar ninguém.
Tudo. Ela não ia dizer "fuga do seu casamento arranjado" em voz alta. Não aqui. Mas a palavra pairava entre nós como fumaça tóxica.
— É — respondi, tentando soar casual. — Precisei de um tempo.
— Um tempo — ela repetiu, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Interessante. E você está... como?
— Bem. Viva.
Ela esperou que eu elaborasse. Não elaborei.
— Morando onde?
— Por aí.
Os olhos dela estreitaram levemente.
— Com quem?
— Com... pessoas.
Cada resposta minha era um desvio. Ela percebia. E estava adorando o jogo.
— E o que você está fazendo aqui? — ela perguntou, finalmente, os olhos percorrendo meu vestido rosa queimado com avaliação crítica.
Abri a boca para responder — para inventar qualquer coisa — quando ouvi:
— Mareu!
Olívia.
Ela veio correndo na minha direção, os olhos brilhando, o sorriso enorme no rosto.
— Você veio! E trouxe meu pai!
Meu coração disparou.
Suzane virou a cabeça devagar, os olhos encontrando Logan parado alguns metros atrás, ainda conversando com um dos instrutores.
Um homem. Uma criança. Eu.
Vi os neurônios dela tentando conectar os pontos.
— Ah — Suzane disse, o tom mudando levemente. — Você está... acompanhada.
— Sim — respondi rápido demais. — Tenho que ir, na verdade. Depois a gente conversa.
Dei um passo para trás, mas senti o olhar dela grudado em mim.
— Claro — ela disse, aquele sorrisinho venenoso voltando. — Depois. Eu adoro... atualizações.
Ela falava "atualizações" como quem escolhia sobremesa num buffet de fofoca.
Me afastei de Suzane, colocando a mão no ombro de Olívia como se aquilo fosse natural. A menina estava ao meu lado, ainda animada, mexendo nas pontas do tutu cor-de-rosa.
— Seu figurino está lindo — disse para ela, mais alto do que o necessário, enchendo o espaço com normalidade forçada.
Olívia sorriu, distraída, e começou a me contar algo sobre a coreografia.
Mas sentia Suzane me observando. O olhar dela vinha junto, pregado na minha nuca como um alvo.
A professora de balé de Olívia — uma mulher elegante de cabelos presos num coque impecável — começou a organizar as crianças.
— Pessoal, vamos tirar uma foto rápida antes da apresentação! — ela anunciou, ajeitando os pequenos bailarinos em posição.
Olívia puxou o pai pela mão.
— Papai, vem!
Logan se abaixou, ajeitando o tutu dela com cuidado.
Ela apontou com o queixo, de leve, na direção de Logan e Olívia, que ainda estavam perto da professora e dos instrutores. A professora ajeitava as crianças em fila, e Olívia já puxava o pai como se ele fosse propriedade dela.
— Você tá viajando.
— Eu tô vendo. — Ela se aproximou um pouco mais, e agora era íntimo demais, agressivo demais. — Você não quer que eu diga alto, não é? Porque aí vira verdade social. Aí alguém ouve, e pronto. “Você soube da Maria Eugênia Valença? Virou babá. Trabalhando.”
Trabalhando.
Ela disse como se fosse uma sentença criminal.
Meu estômago virou.
— Isso tudo é inveja de mim? Você sempre teve. Agora quer escrever sua história de ficção sobre minha vida?
Suzane sorriu com os dentes.
— Inveja do quê? Babá. Trabalhadora. Empregadinha.
Meu corpo todo ficou rígido.
Eu ia responder, mas a minha garganta falhou.
E foi nesse segundo, exatamente nesse segundo, que eu senti alguém ao meu lado.
Uma presença firme.
Não curiosa. Firme.
A sombra dele cortou a luz do camarim e, antes que eu conseguisse entender, uma mão encontrou a minha.
Os dedos se entrelaçaram nos meus como se aquilo fosse natural. Como se fosse óbvio.
Eu virei o rosto, surpresa, e vi Logan parado ali, calmo demais para quem tinha acabado de entrar numa cena tensa.
Ele olhou para Suzane por um instante.
Um olhar curto. Gelado. O tipo de olhar que não pergunta nada e encerra tudo.
Então ele apertou minha mão uma vez, como se estivesse me lembrando de respirar, e disse, alto o bastante para ninguém ousar continuar a conversa:
— Vamos para nosso camarote, meu amor. A apresentação já vai começar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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