~ LOGAN ~
Assim que saímos do camarim e entramos no corredor mais vazio, soltei a mão dela.
Imediatamente.
Talvez rápido demais, porque senti aquele constrangimento leve subindo pela nuca, o tipo de sensação que eu não experimentava há tempos e que definitivamente não tinha intenção de analisar agora.
Seguimos em direção aos camarotes em silêncio. Nossos passos ecoando no mármore polido do corredor vazio. Mareu ajeitou o vestido rosa queimado, olhando para as paredes decoradas, para os lustres, para o chão — para qualquer coisa que não fosse eu.
O silêncio se esticou desconfortável até que ela finalmente perguntou, a voz saindo baixa, quase hesitante:
— Por que você fez isso?
Mantive os olhos fixos à frente, as mãos nos bolsos.
— Não gostei da forma como aquela mulher falou com você. Quem é ela?
— Uma prima — Mareu respondeu. — Uma prima... distante.
A forma como ela disse "distante" arrancou um riso curto de mim.
— Aquele tipo de prima que se forma em odontologia ou medicina e passa o resto da vida achando que é melhor do que todo mundo?
Ela soltou uma risada surpreendida, genuína.
— Bem por aí. Só que ela nunca precisou se formar em nada. Já nasceu achando que era melhor que todo mundo. Veio de fábrica com superioridade moral embutida.
— Charmoso — comentei, seco.
O sorriso dela apareceu pequeno, mas morreu rápido.
— Obrigada — disse, mais séria agora, a leveza evaporando. — De qualquer forma. Por mais que eu ache que não vou escapar de virar fofoca de família.
— Você não deveria se importar com isso.
— Eu não me importo — ela respondeu, mas até uma criança perceberia a mentira.
Olhei para ela de relance. O jeito como segurava a bolsa pequena com força desnecessária, os nós dos dedos ficando brancos. A forma como evitava meu olhar como se o contato visual fosse revelar segredos.
Ela se importava. Muito mais do que admitia.
Chegamos à área dos camarotes privativos — portas de madeira nobre, numeração discreta em placas douradas, silêncio acolchoado que isolava o mundo comum lá fora.
— Pode ir em frente — disse, parando antes da nossa porta. — É aquele ali, número doze. Eu vou em um segundo. Só preciso resolver uma coisa rápida de trabalho.
Mareu assentiu, e percebi o alívio sutil atravessando a expressão dela. A promessa de alguns minutos sozinha parecia valiosa demais.
Ela seguiu pelo corredor, o vestido rosa se movendo elegante enquanto caminhava.
Esperei até vê-la entrar e fechar a porta antes de virar na direção oposta.
Verifiquei os números — dezoito, vinte, vinte e dois — até encontrar o que procurava.
Vinte e três.
Bati duas vezes.
— Não — cortei, firme e final. — Só ouvi o nome. Alguém chamou por ela. E eu quero que você investigue isso.
Henrique me estudou com aquela expressão analítica que ele tinha.
— Investigue... o quê? Se o nome dela ainda existe no universo?
— Se alguém está usando esse nome aqui, hoje, neste teatro — especifiquei, mantendo a paciência com esforço. — É ela de verdade ou alguém está brincando comigo? Porque das duas formas, eu preciso saber.
Ele ficou quieto por dois segundos completos, me analisando como analisava relatórios operacionais — procurando inconsistências, lacunas, mentiras disfarçadas.
— É só isso mesmo? — perguntou, o tom deixando cristalino que não acreditava em nada.
— Claro que é — respondi, mantendo a voz controlada. — Se Maria Eugênia Valença apareceu no mesmo lugar que eu, alguém pode ver. E se alguém vê, volta toda aquela pressão.
Fiz uma pausa, sentindo a irritação subir.
— Meu pai. O conselho. Os acionistas mais velhos que acham que casamento arranjado ainda é estratégia corporativa válida. Eles vão interpretar como "sinal". Como se o universo estivesse conspirando para nos colocar no mesmo lugar de novo.
Henrique abriu a boca, mas eu não deixei.
— Eu nunca quis aquele casamento. Era pressão interna. Quando ela fugiu, virou um problema entre quem decide as coisas. E agora, e se ela está aqui, no mesmo evento que eu? Podem querer transformar isso em reconciliação. Em segunda chance. Eu não vou dar munição para essa narrativa.
Henrique assentiu devagar, processando, mas o sorriso irritante permaneceu intacto.
— Tudo bem, chefe — disse, adotando o tom mais profissional possível, o que era sempre sinal de que ele estava fazendo piada. — Deixa comigo. Vou garantir que a mulher que teve a extraordinária petulância de dar um fora público em Logan Novak não seja vista a menos de cinco metros de você.
— Garanta que sejam cinquenta metros — corrigi, seco como deserto. — Não quero ver essa mulher nem em forma de ações valorizadas de marina premium chegando no meu portfólio.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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