~ LOGAN ~
— Eu não mencionei que meus pais moram em Paris?
A pergunta saiu com a leveza de quem esqueceu de avisar que o prédio tem portaria.
— Não. Não mencionou, não.
Eu mantive a expressão neutra. O que eu fiz em seguida foi admitir o óbvio com o máximo de controle possível.
— Bom… aparentemente eu esqueci.
O rosto dela mudou. Primeiro incredulidade. Depois pânico. O pânico sempre vinha rápido com Mareu.
— Como você pode esquecer algo assim? — ela soltou, e a voz subiu uma oitava. — Ah, meu Deus. Eu vou conhecer meus sogros.
Ela abriu os olhos como se a sala VIP tivesse ficado menor.
— E se eles não me aceitarem? E se sua mãe me olhar dos pés à alma e decidir que eu sou um inconveniente? E se eles decidirem que eu sou um erro de percurso e mandarem um segurança me escoltar pra fora como se eu fosse uma mala suspeita? E se sua mãe olhar pra mim e disser “essa não” como... como...
— Mareu — eu interrompi, sem elevar a voz. — É um noivado de mentirinha, lembra?
Ela parou no meio da espiral.
Eu continuei, direto, porque era a única maneira de cortar a ansiedade dela.
— Por que você se importa?
Mareu ficou em silêncio por um segundo, como se o cérebro dela tivesse que recuar e reencontrar a lógica.
— Ah — ela disse, mais baixo. — É.
Ela passou a mão pelo próprio cabelo, tentando reorganizar o mundo dentro da cabeça.
— Não são meus sogros de verdade — ela completou.
O tom saiu com uma racionalidade forçada.
— Mas ainda assim… — ela insistiu, e eu vi a teimosia dela voltando ao lugar. — Sua irmã disse que eles vão me odiar.
— Catharina é… exagerada — eu respondi.
Mareu estreitou os olhos.
— Então eles não vão me odiar?
Eu medi o que eu poderia dizer sem mentir de forma inútil.
— Bem… — eu comecei, e vi o momento exato em que ela já se preparou para o pior. — Você ainda é a mulher que fugiu do nosso casamento.
Os olhos dela arregalaram.
Eu continuei antes que ela me matasse com o olhar.
— Não é como se eles fossem te amar. Mas eu diria que odiar é uma palavra muito forte.
Mareu piscou. O ar pareceu ficar preso na garganta dela.
— Isso… — ela sussurrou, indignada e nervosa ao mesmo tempo. — Isso não ajuda.
— Ajuda a calibrar expectativa — eu corrigi.
Ela soltou um som curto, um quase-riso de desespero.
— Eu vou ser comida viva.
— Escuta — eu disse. — Vai pegar um milkshake de chocolate pra se acalmar.
Ela me encarou.
— Você tá mandando eu…
— Estou sugerindo — eu ajustei, porque Mareu tinha alergia à palavra ordem. — E eu volto em um minuto.
Antes de me afastar, minha mão encostou no braço dela.
Um carinho curto.
Automático.
Eu percebi o gesto depois que ele já tinha acontecido.
Não foi pensado. Não foi encenação para ninguém ver.
Foi como se o meu corpo já tivesse assimilado, com uma naturalidade perigosa, que ela estava ao meu lado.
Mareu também percebeu. Eu vi o pequeno choque no rosto dela antes de ela disfarçar.
Eu me afastei, deixando o espaço entre nós existir de novo.
A sala VIP continuava vazia, mas o espaço tinha vida própria: funcionários circulando silenciosos, um bar impecável, poltronas confortáveis. A área das bebidas ficava um pouco adiante, perto de uma mesa onde Henrique estava sentado.
Henrique Alencar tinha um prato de frutas na frente dele, como se estivesse num spa e não num aeroporto.
Ele ergueu os olhos quando eu me aproximei e, antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa, o sorriso dele apareceu.
— Bom dia, chefe.
Eu me sentei de frente para ele.
Eu encostei as costas na cadeira, observando o movimento discreto da sala VIP. A essa altura, Mareu já estava perto do balcão, tentando decidir entre se irritar comigo ou obedecer.
— Eu realmente não tinha pensado nisso — eu admiti, com a sensação irritante de ter falhado num detalhe básico. — Pensado que eu preciso convencer o presidente da Novak que a noiva do CEO é adequada. E a Cath pensou em dois segundos.
Henrique riu, baixo.
— Nosso perfil de ver as coisas é muito analítico. Pessoas como a Cath e a Mareu são mais… práticas.
Ele inclinou o corpo um pouco.
— Elas enxergam onde a gente não vê. Isso é bom. É fresco.
Eu observei Henrique como se ele tivesse dito uma verdade inconveniente.
— E ainda assim é uma bomba que ela jogou no meu colo — eu murmurei.
— Não foi a Cath que jogou, foi a realidade — Henrique corrigiu, e eu odiei o quanto ele estava certo.
Foi quando uma sombra passou ao lado da nossa mesa.
— Um problema que você não teria se tivesse escolhido se casar com a minha filha, não é?
Antônio Rizzo não parou. Ele disse a frase como quem deixa um veneno no ar e segue andando, seguro de que o veneno vai trabalhar sozinho.
Eu acompanhei com o olhar, sentindo a irritação subir.
— E ainda isso — eu murmurei, sem tirar o olhar dele. — Ainda tenho que lidar com esse homem.
Henrique observou Antônio se afastar e depois voltou para mim, com uma sinceridade rara.
— Sinceramente? Eu não queria estar na sua pele.
Eu soltei o ar pelo nariz.
— Eu também não.
Henrique inclinou a cabeça.
— E não estou falando dos problemas.
Eu o encarei.
— Está falando do quê, então?
Henrique sorriu daquele jeito perigoso, de quem acabou de lembrar o detalhe mais constrangedor.
— Estou falando de você e Mareu dividindo um quarto de hotel por uma semana enquanto fingem que são um casal. Boa sorte.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...