O camarote parecia menor do que antes.
Talvez porque agora não tivesse mais para onde olhar sem parecer que eu estava evitando alguma coisa. Ou alguém. Logan se sentou ao meu lado com a postura de quem ocupa espaços por hábito, não por necessidade. Reto demais. Quieto demais. Aquele tipo de silêncio que não é confortável, é estratégico.
As luzes do teatro começaram a diminuir aos poucos, e um burburinho educado tomou conta da plateia. Mulheres ajeitando vestidos, homens se inclinando para cochichar, celulares sendo desligados com pressa fingida. Tudo normal. Tudo exatamente como devia ser.
Menos eu.
Menos ele.
A anfitriã surgiu no palco com um sorriso largo e treinado, daqueles que sabem exatamente quando pausar para aplausos. A voz dela ecoou pelo teatro com clareza impecável.
— Boa noite a todos. É uma alegria enorme receber vocês para a apresentação anual da nossa escola de balé…
Logan apoiou os antebraços nas pernas, inclinando-se levemente para frente. Não parecia nervoso. Parecia atento. Como se estivesse prestes a fechar um negócio.
— …e, este ano, em especial, queremos dedicar essa apresentação a todas as mães aqui presentes — continuou a anfitriã. — Afinal, amanhã é Dia das Mães.
Foi quando Logan deixou escapar, baixo demais para ser ouvido por qualquer pessoa que não estivesse sentada exatamente onde eu estava:
— Ah, merda.
Não foi raiva. Nem ironia. Foi constatação pura. Aquele tipo de palavrão que escapa quando algo óbvio b**e atrasado.
Eu inspirei devagar.
— Era por isso — murmurei, mais para mim do que para ele.
Logan virou o rosto, só o suficiente para me olhar de lado.
— O quê?
— A Olívia — expliquei. — Ela insistiu tanto para que você viesse. Para que não fosse só… mais um dia.
Ele voltou os olhos para o palco, mas a mandíbula estava tensa.
— Eu esqueci — disse, sem rodeios. — Simplesmente esqueci que isso estava chegando.
Não soou como desculpa. Soou como acusação. Acusação contra ele mesmo.
A anfitriã falava agora sobre o apoio das famílias, sobre dedicação, sobre amor. Palavras grandes, jogadas no ar como confete. Ele soltou um suspiro curto.
— É o primeiro Dia das Mães sem ela — acrescentou. — Eu devia… ter lembrado. Não devia ter deixado ela lidar com isso sozinha.
Havia algo profundamente errado em ouvir um homem como ele dizer “eu devia”. Não combinava com a imagem de alguém que comanda empresas, pessoas, decisões. Mas ali, no escuro do camarote, ele parecia só um pai atrasado para uma dor que não respeita agenda.
— A Olívia não está lidando com isso sozinha — eu disse. — Ela só não faz do jeito que os adultos esperam.
Ele franziu levemente a testa.
— E como você acha que ela está lidando?
Olhei para o palco, onde as primeiras crianças se organizavam. Pequenas demais, cheias demais de tule e nervosismo.
— Trabalhando — respondi. — Do jeito dela.
Logan fez um som quase imperceptível, algo entre um riso sem humor e um suspiro.
— Trabalhando?
— Sim. — Apoiei as mãos no colo, organizando as palavras como quem organiza ideias perigosas. — A Olívia não virou uma versão de mini executiva porque é fria. Ela virou uma mini executiva porque é inteligente.
Ele virou o rosto para mim dessa vez.
— Quando a dor ameaça transbordar, ela organiza — continuei. — Controla. Negocia. Faz listas. Contratos. Regras. É o jeito dela de colocar as coisas em prateleiras para não cair tudo de uma vez.
Logan ficou em silêncio. Não interrompeu. Não corrigiu. O que, vindo dele, já dizia muita coisa.
— E isso ela aprendeu olhando para você — acrescentei, com cuidado.
O canto da boca dele se mexeu, quase um sorriso, mas não chegou a se formar.
— Eu não sei se isso é bom — disse, depois de alguns segundos. — Eu não queria que ela aprendesse a engolir tudo.
— Você também não queria que ela desmoronasse — respondi. — Então ela adaptou o método.

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