~ LOGAN ~
Eu desci para o bar antes do jantar porque precisava de um drink e de alguns minutos com pessoas que, pelo menos em teoria, sabiam rir antes de transformar tudo em problema.
Cinco minutos e um drink.
No máximo dois.
O bar do Hotel Milani Paris ficava num salão lateral, com luz baixa, música discreta e gente bonita fingindo naturalidade em móveis caríssimos. Um lugar perfeito para encontros, negócios e traições elegantes.
Henrique e Igor já estavam lá.
Sentados em bancos altos, meio virados para uma mesa próxima onde duas mulheres riam de alguma coisa que Henrique certamente tinha dito e Igor provavelmente tinha piorado.
Eu parei a dois passos deles e fiquei observando por um segundo.
Os dois tinham um talento especial para transformar qualquer ambiente num pré-evento social.
— Vocês dois não têm jeito, não é mesmo? — eu disse, já rindo antes de terminar a frase.
Henrique virou o rosto na minha direção e arregalou os olhos com teatralidade.
— Você sorrindo? — ele colocou a mão no peito como se tivesse presenciado um milagre. — Tá explicada a tempestade lá fora.
Igor soltou uma risada curta e me ofereceu um banco com um gesto.
Eu me sentei.
— O quê? — eu disse, pegando o cardápio de drinks só para ter algo nas mãos. — Talvez Paris me faça bem.
Igor me olhou de lado com aquela cara de irmão mais novo que enxerga demais e respeita de menos.
— Talvez a Mareu lhe faça bem.
Henrique não conseguiu nem fingir compostura.
A risada dele saiu alta o suficiente para uma das mulheres da mesa ao lado olhar para nós.
— Já? — ele perguntou, mal contendo o divertimento.
Eu franzi a testa.
— Já o quê?
Henrique levantou as sobrancelhas.
— Vocês dois.
— Cala a boca — eu respondi, automático. — Claro que não.
Igor apoiou o cotovelo no balcão e virou o corpo inteiro para mim, agora realmente interessado.
— Tá, peraí. O que eu perdi nessa história?
O bartender se aproximou e eu pedi um uísque sem gelo. Quando o copo chegou, eu girei o líquido âmbar e respondi sem rodeio.
— Mareu e eu não estamos… realmente juntos.
Igor piscou.
— É um contrato — eu continuei.
Igor ficou em silêncio por um segundo, processando. Depois assentiu lentamente.
— Hum… pressão do conselho?
Eu bebi um gole e apontei para ele com o copo.
— Exatamente. Então… resolvi dar o que eles querem.
Henrique soltou um riso curto, apoiando o copo no balcão.
— Mais ou menos — ele completou por mim.
Eu assenti.
— Mais ou menos. A Mareu está me ajudando com a farsa.
Igor inclinou a cabeça, olhando para o meu rosto como se estivesse conferindo se eu realmente acreditava na própria frase.
— Faz sentido — ele disse por fim.
Henrique virou para ele com a expressão de quem acabara de ouvir uma barbaridade.
— Não, não faz.
Eu fechei a cara antes mesmo de ele terminar.
Henrique ignorou completamente.
— O Logan está apaixonado por ela de verdade.
— Henrique! — eu cortei, baixo e duro.
A palavra saiu quase entre dentes.
Henrique ergueu as mãos em rendição falsa, aquele tipo de gesto que significa exatamente o contrário de rendição.
— O quê? Eu tô mentindo?
— Tá exagerando — eu respondi, seco.
Igor olhou de Henrique para mim e depois riu, mas a risada dele durou pouco. O rosto mudou. Ficou mais sério.
Mais irmão.
— Se permita, Logan — ele disse.
Eu fiquei em silêncio.
Ele continuou, sem ironia dessa vez.
— Você já passou por muito. Tá na hora de sair da caixa do luto e tocar sua vida.
Eu senti a frase bater num lugar que eu mantinha fechado por disciplina.
A mão que segurava o copo apertou um pouco mais do que precisava.

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