~ MAREU ~
O fim de tarde em Paris parecia uma provocação pessoal.
A cidade inteira estava dourada, como se alguém tivesse decidido passar um filtro romântico só para testar a sanidade de quem subia a Torre Eiffel com um noivo de mentira e um jantar com os sogros reais marcado para dali a pouco.
E ainda assim, lá estava eu.
No topo.
No bar.
Com Logan Novak.
O Champagne Bar era menor do que eu imaginava e mais bonito do que eu gostaria. Luz suave, vidro, metal, o horizonte de Paris se abrindo em volta como se a cidade estivesse se oferecendo em silêncio. Pessoas elegante com taças na mão, turistas tentando sussurrar sem conseguir, casais se inclinando um para o outro como se o ar ali em cima tivesse sido feito de cumplicidade.
A cidade do amor, claramente, não conhecia o conceito de timing ruim.
Logan ficou ao meu lado, uma taça na mão, o corpo virado meio para mim, meio para a vista. O vento mexia no cabelo dele de um jeito que eu me recusei a achar bonito por princípios.
— Nós precisamos acertar as histórias — ele disse, direto, como se estivéssemos numa reunião e não num bar no topo da Torre Eiffel.
Eu soltei um riso curto, levando a taça à boca.
— Claro. Porque se tem um lugar ideal pra alinhar uma farsa é o topo da torre na cidade do amor.
O canto da boca dele subiu.
— Você prefere fazer isso no elevador, com crianças ouvindo?
— Não — eu respondi. — Só estou admirando a ironia do universo.
Eu apoiei o antebraço no balcão e olhei Paris lá embaixo. As luzes começavam a acender aos poucos, uma por uma, como se a cidade respirasse antes de brilhar de vez.
— Não tem como inventar muito — eu disse, voltando ao assunto. — Afinal, seus pais me reconhecem pelo nome.
Logan girou a taça devagar.
— Então optamos pela verdade?
Eu virei o rosto para ele, séria por um segundo e irônica no seguinte.
— A verdade floreada, claro.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Conceito promissor.
— Afinal — eu continuei, contando nos dedos como se estivesse organizando um relatório de caos — nós não estamos noivos. Nem apaixonados. Nem saindo. Nem… nada.
Eu o ouvi repetir antes de olhar para ele.
— Nem… nada.
Ele estava com um sorriso pequeno no rosto. Aquele sorriso discreto que sempre parecia saber mais do que devia.
Eu fiz o que qualquer mulher madura faria nessa situação: ignorei e bebi champanhe.
Logan deixou o humor passar e voltou ao modo prático.
— Outro ponto — ele disse. — Precisamos evitar… assuntos polêmicos.
Eu soltei uma risada pelo nariz.
— Certo. Evitar o fato de que eu fugi do nosso casamento por contrato. O primeiro. Não esse.
Eu fiz um gesto vago com a taça, irritada com a própria vida.
— Não que eu não vá… fugir desse também.
A resposta dele veio imediata.
— Não vai precisar fugir.
Eu olhei para a cidade para não olhar para ele.
— É… — murmurei. — Só voltar pra minha vida.
A frase saiu leve demais para o peso que tinha.
Logan virou um pouco mais o corpo na minha direção.
— Mareu. Foco.
Eu ri, porque até no topo da Torre Eiffel ele ainda conseguia soar como um CEO conduzindo reunião.
— Certo, foco — eu concordei. — Mas e se os seus pais tocarem no assunto?
— Eu respondo diplomaticamente.
Eu balancei a cabeça devagar, sem conter o meio sorriso.
— Você sabe fazer isso muito bem.
Logan deu de ombros, simples.
— É o que eu faço todos os dias.
A honestidade seca daquela frase me acertou de um jeito estranho. Porque era verdade. E porque, nas últimas horas, eu tinha visto o homem por trás dessa habilidade com uma chuva inteira no meio.
Ele apoiou a taça no balcão.
— Outra coisa — disse. — Precisamos de sinais.
Eu o encarei.
— Sinais?
— Se eu apertar sua mão duas vezes, você corta a conversa.
Eu assenti devagar, gravando.
Ele continuou:

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