~ MAREU ~
A família Remy entrou como quem já conhecia a casa, a mesa e o roteiro.
Senhor Remy à frente, alto, grisalho, sorrindo com educação empresarial; senhora Remy ao lado, impecável, joias discretas e aquela energia de mulher que faz caridade em gala sem borrar o batom; e, por fim, o filho, bonito de um jeito ensaiado, com o tipo de charme que entra no ambiente um pouco antes do corpo.
— Desculpem o atraso — disse o senhor Remy em português, com um sotaque francês que mordia as palavras. — Trânsito em Paris, mesmo para quem mora aqui, continua sendo uma punição.
Igor soltou uma risada curta. Cath não soltou nada.
O senhor Novak, que até então eu ainda pensava como “senhor Novak” porque ninguém tinha sido gentil o suficiente para me oferecer um primeiro nome em paz, abriu um sorriso contido e foi recebê-los.
— Alain — ele cumprimentou, apertando a mão do senhor Remy. — Claire.
Então se virou para o mais jovem.
— Henri.
— Heitor, sempre um prazer.
Pronto. Resolvido. Senhor Novak tinha nome: Heitor Novak.
E, honestamente, combinava com a precisão cortante dele.
Enquanto cumprimentos aconteciam, o senhor Remy explicou, em português, como quem já estava defendendo uma tese antes de alguém perguntar:
— Estamos insistindo no idioma porque Henri estará à frente das operações no Rio de Janeiro em breve. Então estamos reforçando o português em casa. Treino intensivo.
A senhora Remy sorriu, orgulhosa.
— E também porque é um idioma muito bonito — acrescentou. — Musical. Muito vivo.
Henri já estava olhando para Catharina com um sorriso tão praticado que eu quase ouvi o eco de “eu ensaiei isso no carro”.
— E eu fiz questão de aperfeiçoar por causa da Catharina — ele disse, num português bom demais para casual e ruim o suficiente para continuar charmoso. — Ela pode me corrigir quando eu errar.
Cath revirou os olhos. Quando se sentou de novo, se inclinou na minha direção e sussurrou:
— Ótimo. Agora, além de tudo, eu tenho que ser professora.
Eu ri baixo, sem conseguir evitar.
Era difícil não rir quando alguém tão glamourosa quanto a Cath parecia uma refém de novela das oito.
Todos se acomodaram outra vez. O mordomo, que eu suspeitava ser uma entidade onipresente e silenciosa, reapareceu para coordenar cadeiras, taças e a ilusão de normalidade.
Eu continuei ao lado do Logan. A mão dele perto da minha. O anel no meu dedo brilhando como uma mentira cara demais.
O senhor Remy olhou para mim com curiosidade cordial.
— Então esta é a noiva de Logan.
A senhora Remy abriu um sorriso verdadeiro, mais caloroso do que qualquer coisa que eu tinha recebido dos pais Novak até então.
— Encantada, Maria Eugênia — disse ela, em português. — Como vocês se conheceram?
A pergunta saiu doce.
Eu quase respondi por reflexo.
Só que Gabriella foi mais rápida.
Ela virou o rosto para a senhora Remy com uma elegância de lâmina e perguntou, com um meio sorriso:
— Você prefere a versão oficial ou a versão romantizada?
Nem um pouco sutil.
Eu senti o corpo do Logan tensionar ao meu lado um segundo antes de ele entrar na conversa.
— Mareu era babá dos meus filhos — ele disse, firme, sem dar espaço para floreio alheio. — Nós nos apaixonamos.
A resposta caiu na mesa com peso. Simples. Limpa. Utilizável.
Heitor Novak levantou uma sobrancelha e me encarou com interesse novo.
— Babá? — repetiu, como se estivesse testando a palavra na língua. — Como uma Valença terminou como… babá?
A pausa antes de “babá” foi quase imperceptível.
Quase.
Logan cortou antes que eu precisasse decidir se respondia como Maria Eugênia ou como Mareu.
— Não é história para esta noite — disse ele, em um tom educado. — O importante é que a vida deu um jeito de nos unir novamente.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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