~ MAREU ~
No segundo em que ouvi a voz da Olívia do outro lado da porta, meu cérebro entrou em pane.
Eu arregalei os olhos, dei um passo para a frente e coloquei as duas mãos na boca do Logan, calando qualquer reação dele antes que ele resolvesse responder alguma coisa no impulso.
Ele me olhou com uma expressão ofendida.
Eu, por outro lado, estava completamente molhada — pelada, debaixo do chuveiro, com água escorrendo pelo rosto e pelas costas — enquanto ele ainda estava só com a barra da calça e os sapatos molhados, resultado do resgate improvisado na piscina.
E a filha dele batia na porta chamando nós dois.
Cenário ótimo. Sem falhas.
Eu respirei fundo e respondi, ainda com a mão na boca do Logan:
— Oi, Liv! Eu tô sozinha.
Logan me lançou um olhar de “sério?” e eu mantive o olhar de “sério e sem alternativas”.
Tirei uma mão da boca dele só o suficiente para continuar:
— Seu pai foi… — eu pisquei, buscando uma função plausível para um homem com os sapatos molhados em uma mansão de gente rica — …não sei o que ele foi fazer.
Ótimo, Mareu. Precisão cirúrgica.
A voz da Olívia veio de novo, agora mais perto da porta, já no tom de quem tinha chegado com missão.
— Posso entrar? A tia Cath me deu um creme. E eu quero ver se você tá pior.
Meu coração deu um salto de gratidão pela preocupação e... espera aí... ver se eu estava PIOR?
Eu olhei para o Logan. Ele olhou para mim. A água continuava caindo. Eu continuava pelada. Ele continuava vestido. E a criança mais observadora do hemisfério estava a dois segundos de abrir a porta.
— Não entra! — respondi rápido demais. — Eu tô tomando banho!
Silêncio de dois segundos.
Perigoso.
— Eu posso deixar na pia — Olívia insistiu. — Mas você precisa passar, porque tava muito vermelho.
A ardência nas minhas costas continuava me deixando maluca e, por um segundo, eu quase falei “entra, socorro, traz uma equipe médica”. Mas ainda havia um bilionário imprudentemente bonito dentro do banheiro comigo.
— Não, eu prefiro…
— Eu tô entrando — ela anunciou.
Pânico.
Pânico puro e eficiente.
Eu agarrei o Logan pelo colarinho e puxei.
— Vem!
Ele mal teve tempo de reagir.
Puxei o homem inteiro para dentro do box e fechei a porta de vidro com um tranco, no mesmo segundo em que a porta do banheiro se abriu. No meio do pânico, ainda deu tempo de agradecer mentalmente a quem projetou aquele banheiro: o box tinha vidro fosco, daqueles que salvam reputações e evitam traumas infantis.
A expressão que Logan fez quando a água caiu de vez sobre a camisa foi de indignação profunda, quase filosófica. Um “isso é desnecessário” silencioso, molhado e muito CEO.
Só que a indignação durou pouco.
Porque o box era pequeno.
Pequeno demais para um banheiro de gente rica.
Pequeno de um jeito cruel.
O corpo dele endureceu por reflexo quando eu o empurrei para trás, as mãos no peito dele, o meu joelho quase encostando no dele, a água escorrendo por nós dois como se o universo tivesse desistido de sutileza.
Ele respirou fundo.
A rigidez foi cedendo.
Não relaxado-relaxado.
Mas relaxado o suficiente para parar de me olhar como vítima de sequestro aquático.
Olívia já estava dentro do banheiro, e eu ouvi o som dela colocando alguma coisa na bancada.
— Parece alergia — ela disse, em tom clínico. — Você é alérgica a quê?
Eu fechei os olhos por meio segundo, sentindo a mão do Logan apoiar na lateral do box para não perder equilíbrio.
— Na verdade… eu não sei.
Olívia fez um barulhinho de desaprovação infantil-científica.
— Mas deveria. Alergia pode matar.
Eu mordi o lábio para não rir.
Ali estava eu: nua, ardendo, escondendo o pai da menina no meu box, ouvindo um alerta médico de uma criança de seis anos e meio.
— Obrigada, doutora — eu respondi, tentando soar normal. — Vou atualizar meu prontuário.
— Eu não sou doutora ainda — ela corrigiu. — Mas eu seria uma boa médica de emergência. Ou cientista. Ou CEO. Ainda estou avaliando. Sou inteligente o suficiente pra ter muitas opções.
Ao meu lado, o peito do Logan tremeu com uma risada silenciosa que ele teve a decência de não soltar.
Eu dei uma cotovelada leve nele sem olhar.
Olívia continuou, abrindo alguma coisa, provavelmente o creme.
— A tia Cath disse que talvez seja do perfume das flores. Ou de nervoso. Ou da vovó.
Eu sorri.
— A tia Cath está cada dia mais sábia.
— Ela falou isso depois de dizer uma palavra que eu não posso repetir — Olívia acrescentou.
— Excelente. Progresso familiar.
A água continuava caindo, e a proximidade de Logan começou a virar uma informação grande no meu corpo. Muito grande. O box apertado, o tecido molhado da camisa dele grudando, a barba roçando de leve na minha testa quando ele baixava a cabeça para ouvir a conversa, a mão dele firme no vidro ao meu lado.
Concentra, Mareu.
Depois um “hum” pensativo que parecia uma banca de mestrado.
— Justo — ela decretou. — Vou pedir na cozinha.
Eu ouvi os passinhos se afastando, depois a porta abrindo, depois fechando.
Silêncio.
Silêncio de verdade.
Eu fiquei alguns segundos parada, com a testa quase encostada no peito do Logan, respirando como se tivesse acabado de fugir de um assalto.
— Ela foi? — ele sussurrou.
— Foi — eu respondi, no mesmo volume, como se a menina ainda estivesse escutando com estetoscópio pela parede.
Eu abri a porta do box e dei um passo para trás, criando espaço entre nós.
O ar pareceu enorme de repente.
Logan passou a mão pelo cabelo encharcado e soltou uma risada baixa, cansada.
— Sua capacidade de improviso é perturbadora.
— Obrigada. Foi adquirida em anos de sobrevivência social e decisões ruins.
Ele saiu do box com a água pingando da barra da camisa, do paletó, dos cabelos, da dignidade parcial que ainda restava. Eu peguei a toalha e comecei a secar o rosto, o pescoço, tentando me reorganizar em ser humano.
Então olhei para ele e perguntei, sem pensar muito:
— Às vezes você queria que sua filha fosse só uma criança normal?
Logan riu.
Riu mesmo.
Daquele jeito baixo e sincero que ele soltava raramente, como se a resposta viesse antes do filtro.
— Nesse momento, eu queria.
Eu sorri, cansada, ainda ardendo, ainda coçando, mas sorrindo.
— Anda — eu falei, apontando para a porta. — Sai daqui antes que ela volte.
Ele assentiu, mas não saiu imediatamente.
Se aproximou um passo.
Levantou a mão.
Fez um carinho rápido no meu rosto, com o polegar ainda frio de água e a expressão estranhamente suave.
Um gesto pequeno, mas perigoso.
Depois virou e saiu, pingando água pelo banheiro inteiro e deixando comigo o vapor, a ardência, o creme na pia, o vestido morto no chão e um coração que, sinceramente, não estava colaborando em nada.
Eu respirei fundo, tentando me recompor.
Não consegui.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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