Lá estava Olívia, no meio de um mar de tule cor-de-rosa e sorriso forçado, as mãozinhas segurando a saia, o coque apertado demais, a tiara brilhando sob a luz. Pequena demais. Corajosa demais. E completamente entregue à própria coragem.
Os olhinhos dela começaram a varrer a área dos camarotes, um por um, inquieta. Procurando.
Pelo pai.
E… talvez por mim.
Senti um aperto no peito que não tinha nada de profissional. Nem de sensato.
Eu não devia me sentir assim olhando uma criança que nem minha era.
O silêncio no teatro ficou mais denso. O pianista ajeitou as mãos sobre as teclas. O público prendeu o ar, como se todo mundo tivesse combinado de virar estátua ao mesmo tempo.
Eu aguentei exatamente três segundos.
Levei os dedos à boca, enchi o peito de ar e assobiei alto, o tipo de assobio que certamente não constava no protocolo de etiqueta do teatro.
— Uhuuul! Vai, Liv! — gritei, antes que meu bom senso pudesse me calar.
O som cortou o silêncio como uma sirene. A cabeça da Olívia girou quase imediatamente na minha direção. Ela me encontrou num segundo. Mesmo lá de cima, eu vi quando ela colocou a mão no rosto e balançou a cabeça devagar, num gesto dramático de falsa vergonha.
Mas o sorriso no rosto dela a traiu por completo.
Ela tinha gostado.
— Arrasa! — emendei, sem aprender a lição.
Infelizmente, Olívia não tinha sido a única a olhar. Uma fileira inteira de cabeças se virou na nossa direção, dos camarotes mais próximos aos assentos logo abaixo, todo mundo tentando identificar a fonte de barulho no meio de um teatro que deveria continuar comportadamente silencioso.
Ao meu lado, senti o corpo de Logan retesar.
— O que você está fazendo? — ele perguntou, baixo, incrédulo.
Virei um pouco o rosto, ainda com os dedos perto da boca.
— Torcendo pela Olívia.
— Isso é balé, não um jogo de futebol — ele retrucou, seco.
Dei de ombros, com um sorriso que eu não consegui segurar.
— E quando vocês homens jogarem futebol na ponta dos pés, vão descobrir que balé é bem mais difícil — murmurei. — E merece bem mais torcida.
Ele piscou, como se não acreditasse no que tinha ouvido.
— Senta aí — disse, finalmente, com a autoridade de sempre, puxando meu braço de leve para me afastar do guarda-corpo.
Voltei a me sentar, obediente na teoria, mas com o peito ainda vibrando de adrenalina. Do palco, a Olívia tinha voltado a olhar para frente. A música começou, preenchendo o teatro com as primeiras notas, e os corpos pequenos se colocaram em movimento.
Era impossível não notar.
Ela parecia mais confiante.
Os movimentos ainda tinham aquele cuidado exagerado de criança que leva tudo a sério demais, mas o passo estava firme, o queixo erguido, o giro mais seguro. Algumas das outras bailarinas se confundiam de posição, se atrasavam, viravam para o lado errado. Em um momento, uma menina quase entra na frente da Olívia na diagonal errada; em outro, alguém esquece de levantar os braços na hora certa.
Olívia, porém, improvisava com uma seriedade quase cômica.
Ela se ajustava, abria um pouco mais o passo, recuava, corrigia o próprio lugar e o das outras com o olhar. Não era só dança. Era gestão de crise em tule.
— Ela está literalmente coordenando um time — murmurei, mais para mim do que para ele.
— Hum — Logan respondeu, sem tirar os olhos do palco. — Bem-vinda ao meu mundo.
No final, elas se alinharam para a pose final, respirando ofegantes. O teatro explodiu em aplausos
E aí veio a parte que eu não estava preparada para assistir.
Cada bailarina recebeu um pequeno buquê de rosas das assistentes. Um a um, entregues em mãos pequenas, papel de seda amassado, fitinha amarrada com cuidado. A apresentadora voltou ao centro do palco, radiante.
— Agora — disse, com a voz doce amplificada pelo microfone — queremos convidar todas as mamães a subirem ao palco para receber o carinho das nossas bailarinas.
Algumas mulheres começaram a se levantar das cadeiras. Outras hesitaram antes de seguir. Em poucos segundos, o corredor principal se encheu de vestidos, perfumes caros, passos cuidadosos até a escadinha lateral.
As mães começaram a chegar ao palco, devagar. Cada bailarina corria até uma, entregava o buquê, abraçava forte.
Olívia estava parada no mesmo lugar, buquê nas mãos, os olhos perdidos em meio à cena. Virava o rosto para um lado, para o outro, como se estivesse tentando decifrar qual era o protocolo de quem não tinha ninguém para chamar.
Ela deu um passo para frente. Depois, recuou.
A única coisa de que ela parecia absolutamente certa era que a mãe dela não subiria ali.
— Vai lá — falei, sem pensar, virando rápido para Logan.
— O quê? — ele franziu a testa, como se eu tivesse sugerido que ele fizesse um solo de balé ali mesmo.
— Vai lá — repeti. — Ela está sozinha.
— Ela chamou as mães — ele argumentou, a voz mais baixa, mas rígida. — Eu…

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...