~ MAREU ~
Eu estava sentada na cama, com um copo de chá quente nas mãos.
As roupas secas que a Olívia tinha levado para mim — “a tia Cath mandou”, ela avisou com a eficiência de uma pequena mensageira de guerra — estavam vestidas no meu corpo de um jeito que eu jamais teria imaginado naquela noite. Um jeans simples, confortável, e uma camiseta de futebol francesa azul-marinho do Paris Saint-Germain, grande demais e claramente tirada de algum armário masculino ou de emergência.
Eu, Maria Eugênia Valença, ex-noiva fugitiva, noiva de mentirinha, quase afogada, quase esfolada de tanto me coçar, estava vestida de PSG na mansão dos Novak.
A vida tinha senso de humor.
A coceira ainda estava ali. Menos agressiva, graças ao creme que a Olívia tinha trazido, mas presente o suficiente para me lembrar que minha pele seguia revoltada.
Eu cocei o antebraço com a ponta dos dedos e soprei o chá antes de tomar um gole.
Olívia estava sentada na poltrona perto da cama, me observando com aquela mistura de preocupação genuína e interesse científico que só ela conseguia sustentar.
— O creme ajudou — eu admiti, olhando para ela. — Então você pode acrescentar “dermatologista de crise” na sua lista de profissões.
Ela assentiu com seriedade.
— Eu já estava considerando medicina de emergência.
Eu sorri, cansada, e encostei a cabeça na parede atrás da cama.
— Eu causei um desastre essa noite, não é?
Ela inclinou a cabeça.
— Depende.
— Depende de quê?
— Do ponto de vista — respondeu, como se isso fosse óbvio. — Pra vovó, sim. Pra tia Cath, provavelmente foi a melhor parte do jantar.
Eu ri, mas foi um riso curto, quebrado pelo cansaço e pela vergonha que ainda pesava.
— Eu só quero sair daquela casa — murmurei, olhando para o chá. — Tipo… fugir correndo. De preferência sem empurrar mais ninguém na piscina.
Olívia ficou em silêncio por um instante. Depois disse, num tom quase casual:
— Vovó também não gostava da minha mãe.
Eu levantei os olhos para ela.
— Sério?
Olívia assentiu.
— Ela dizia que a mamãe não tinha… — fez uma pausa, procurando a palavra com precisão — casta.
Eu pisquei.
Depois ri.
Ri de verdade dessa vez, apesar da ardência na pele, apesar da noite, apesar de tudo. A palavra era tão absurda na boca de uma criança de seis anos e meio que eu não consegui segurar.
Olívia riu também.
— Casta? — eu repeti, ainda rindo. — Meu Deus.
— Foi isso mesmo — ela insistiu. — A tia Cath falou que parecia conversa de novela de época.
Eu levei a mão à boca, tentando controlar o riso e não derramar chá.
Olívia deu de ombros, cruzando as pernas na poltrona como uma mini executiva de férias.
— Mas a mamãe a conquistou. Eventualmente.
A minha risada diminuiu. Eu olhei para a menina com atenção nova.
— Como? — perguntei. — Preciso desse segredo.
— Papai disse que foi quando eu nasci. Ela amoleceu o coração.
Eu soltei um suspiro e recostei a cabeça de novo.
— Bom… isso eu não tenho como fazer.
Olívia me olhou com aquela sinceridade letal que só crianças e advogados têm.
— Não mesmo.
Eu arqueei uma sobrancelha.
Ela completou, tranquila:
— Você e papai são só de mentirinha. Não tem como ter filhos em relacionamento de mentirinha.
A frase bateu no quarto como uma bolinha de pingue-pongue emocional: leve no formato, destrutiva no impacto.
Eu abri a boca para responder alguma coisa — qualquer coisa — mas o movimento na porta chamou minha atenção.
Logan estava entrando.
Parado na soleira por meio segundo.
E eu tive certeza de que ele tinha ouvido.
Mais do que ouvido.
Entendido.
Não só a frase literal da Olívia, mas a intenção por trás dela. O recado escondido: de mentirinha pode. De verdade, não.
Ele entrou sem comentar. O rosto controlado demais.
— Como você está? — perguntou, olhando para mim.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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