~ LOGAN ~
Paris à noite passava em faixas de luz pelo para-brisa, elegante e indiferente, como se a cidade não tivesse absolutamente nada a ver com o caos que a gente vinha produzindo desde o fim da tarde.
Eu dirigia com uma mão no volante e usava a outra para trocar a marcha, enquanto lutava contra a vontade de olhar de novo para o banco do carona.
Mareu estava ali, com o corpo virado um pouco para a janela, ainda se coçando de vez em quando, o pescoço avermelhado, o cabelo preso de qualquer jeito, a camiseta larga de time francês engolindo metade da postura social que ela tinha vestido para o jantar.
Atrás, Olívia cochilava.
Cabeça caída para o lado, boca entreaberta de leve, exausta das agitações do dia. Piscina, avós, Remy, escândalo, alergia, chá, negociações paralelas — para uma criança de seis anos e meio, tinha sido um expediente completo.
Eu baixei um pouco a intensidade do ar.
Mareu continuava se coçando, mas o que me chamava atenção não era só isso.
Ela parecia distante.
Preocupada de um jeito quieto, sem piada, sem ataque, sem a ironia que normalmente usava para se defender de qualquer coisa que doesse.
Eu esperei alguns segundos. Depois falei, mantendo o tom baixo por causa da Olívia.
— Escuta… não se preocupa com meus pais.
Ela não olhou para mim de imediato.
Eu continuei.
— Eles podem ter sido meio relutantes à primeira vista, mas vão acabar mudando de ideia.
A boca dela mexeu num quase sorriso cansado.
— Ah, vão?
— Vão — eu disse, com mais convicção do que eu realmente tinha naquele momento. — Você sempre conquista todo mundo. É um dom.
Lancei um olhar rápido para ela.
— Devia colocar no currículo.
Isso funcionou. Pouco, mas funcionou.
Mareu soltou uma risadinha.
— “Boa com crianças, gestão de crise e manipulação afetiva de famílias bilionárias.” Fica bonito.
— Eu contrataria.
Ela sorriu de lado, mas o sorriso não ficou.
— Não é só isso… — disse, e o tom mudou.
Eu fiquei em silêncio.
Mareu coçou o braço de novo, olhando para a rua, e fez uma pausa comprida antes de continuar.
— É sobre… — outra pausa, menor, mais difícil — meus pais.
Eu apertei o volante um pouco mais.
— Sobre o que sua mãe disse. Da minha família estar falida… envolvida com jogos de azar.
Ela virou o rosto para mim então, finalmente.
— Logan, isso é verdade?
Eu soltei o ar devagar antes de responder.
— São boatos.
Ela sustentou meu olhar por um segundo.
Eu completei:
— Eu não posso desmentir. Mas, até que se prove o contrário… são só boatos.
Mareu assentiu de leve.
— Hum.
Só isso.
Mas foi um “hum” pesado. Daqueles que carregam dez perguntas atrás e nenhuma pronta para sair ainda.
O silêncio ficou alguns segundos no carro. O som da cidade do lado de fora, o ronco baixo do motor, a respiração de Olívia atrás.
Eu sabia que estava pisando num lugar sensível.
Mesmo assim, perguntei.
— Você não fala com eles desde… desde…?
Mareu me poupou da culpa de terminar a frase.
— Desde aquela ligação frustrada no Dia das Mães que você me pegou fazendo no jardim.
Eu ri, sem conseguir evitar.
Uma risadinha curta, quase nostálgica.
Porque eu lembrava daquela cena com uma nitidez absurda — ela recém-chegada, ainda afiada comigo como se eu fosse um gerente de RH mal-humorado, nós dois sem intimidade nenhuma.
Parecia outra vida.
Agora, no escuro de Paris, ela no meu carro, de camiseta de time e pele em revolta, eu tinha a sensação estranha de que Mareu sempre tinha feito parte da minha vida.
Tão estranha quanto verdadeira.
Tão verdadeira que eu não conseguia imaginar a rotina sem ela.
Eu mantive os olhos na rua e falei baixo:
— Certas pessoas precisam de mais tempo para assimilar que a vida nem sempre pode ser como elas querem.
Mareu soltou um som pequeno pelo nariz. Não exatamente uma risada.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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