~ MAREU ~
Quando a porta da penthouse se fechou atrás de nós, eu já estava funcionando no automático.
Hospital. Farmácia. Carro. Elevador. Corredor.
Eu tinha sobrevivido à consulta em francês misturado com inglês e português, à cara de preocupação da Olívia e ao médico me explicando, com toda a calma do mundo, que eu provavelmente não estava morrendo — só dramaticamente inflamada.
O médico tinha dito que parecia uma dermatite de contato irritativa.
Eu fiquei repetindo isso mentalmente até fazer sentido e, no processo, lembrei do creme novo que eu tinha comprado quando saí com a Cath. Um dos mil frascos caros e perfumados que me empurraram numa loja linda demais. Provavelmente eu tinha reagido a algum componente. Teria que fazer exame quando voltasse ao Brasil, descobrir o que foi, agir como uma adulta responsável.
Mas, por enquanto, o tratamento era simples: um antialérgico que compramos na farmácia e que já tinha ajudado bastante, mais um creme para passar nas áreas afetadas.
Simples.
A palavra era ofensiva, considerando tudo que aquela “simplicidade” tinha causado.
Logan levou Olívia para o quarto das crianças e foi colocar ela e Liam para dormir. Eu fui direto para a nossa penthouse — “nossa”, que palavra perigosa — e entrei no meu quarto sem pensar muito, precisando de silêncio, água e mais uns dez anos de descanso.
Tomei outro banho frio.
Frio o suficiente para acalmar a pele e tirar o resto de calor da crise, da vergonha e da lembrança da mão de Logan na minha perna debaixo da mesa tentando me acalmar enquanto eu virava uma fogueira humana.
Quando saí do chuveiro, me enrolei na toalha, sequei o cabelo de qualquer jeito e comecei a rotina da noite mais sexy da história: remédio, creme anti-alérgico e cara de quem perdeu para um cosmético francês.
Passei o creme nas pernas.
Depois nos braços.
No pescoço.
No colo.
Vesti um pijama leve — short e blusa macia, confortável, sem glamour nenhum — e fiquei alguns segundos parada no meio do quarto olhando para o pote do creme como se ele fosse me dar uma solução para o problema óbvio.
As costas.
A parte mais irritada ainda era justamente a mais difícil de alcançar.
Claro.
Eu sentei na cama, depois desisti e me deitei de barriga para baixo, levantando a blusa do pijama até a metade das costas e tentando passar o creme com um contorcionismo indigno. Meu braço alcançava um pedaço. O outro braço alcançava outro. Nenhum dos dois resolvia o centro.
— Isso está deprimente — eu murmurei para o colchão.
Tentei de novo.
Esfreguei meio torto.
Apertei o pote entre os dentes por um segundo.
Foi nesse momento que ouvi uma risada baixa na porta.
Eu virei o rosto tão rápido quanto dava naquela posição e encontrei Logan encostado no batente, de braços cruzados. Relaxado de um jeito que eu não teria associado a ele alguns meses atrás.
— Você veio até aqui só pra rir de mim? — perguntei, estreitando os olhos.
Ele entrou no quarto sem pressa.
— Não. Eu vim ver se você estava melhor com a medicação.
O canto da boca dele subiu.
— Mas rir de você pareceu uma boa opção também.
Eu revirei os olhos, mas sorri.
E odiei perceber, de novo, como ele estava mais… sorridente ultimamente.
Antes, Logan parecia conter o próprio sorriso. Como se mostrar ao mundo que ainda conseguia sorrir depois de perder a esposa fosse uma espécie de traição silenciosa. Como se alegria e luto fossem coisas que não podiam existir na mesma vida.
Eu sabia que ele não tinha esquecido a dor. Dor daquele tipo não se “supera” como quem troca de fase. Se carrega.
Mas eu gostava de ver que ele tinha saído — pelo menos um pouco — do caixão emocional em que parecia ter se enterrado junto.
Eu me apoiei nos cotovelos, ainda com a blusa levantada de forma ridícula.
— E você vai me ajudar ou vai ficar aí parado olhando eu me humilhar sozinha?
Ele soltou um suspiro forçado, teatral.
— Que sacrifício.
O colchão afundou quando Logan sentou atrás de mim.
Eu senti primeiro o toque frio do creme.
Depois os dedos dele.
A reação do meu corpo foi imediata e completamente inconveniente.
A pele arrepiou em reflexo, e não só onde ele encostava. O toque dele nas minhas costas, mesmo cuidadoso, mesmo claramente focado em espalhar o creme, acordou partes minhas que não tinham sido convidadas para aquela atividade dermatológica.
Logan passou o creme com atenção real, sem pressa, contornando as áreas mais vermelhas com delicadeza.
— Tá ardendo aqui? — perguntou, a voz baixa, perto demais.
— Menos agora — respondi, tentando soar normal.
Mentira parcial.
Ardia menos.
O resto piorava.
Ele continuou por mais alguns segundos, até perceber que a barra da blusa atrapalhava.
— Tira isso pra facilitar…
A frase saiu prática. Quase médica.
Quase.
Eu senti o calor subir pelo meu rosto mesmo com o antialérgico.
Sem responder, levantei os braços para ele puxar a blusa mais pra cima. Ele fez isso devagar, sem teatralidade, só o suficiente para liberar a área.
Então senti os dedos dele alcançando minhas costas de novo.
Eu fiquei de costas no colchão, um seio parcialmente exposto, e a mão dele foi direto ali como se já conhecesse o caminho de cor. Os lábios vieram nos meus antes que eu pudesse transformar aquilo em piada.
Eu o puxei pelo pescoço, enlaçando-o com força, trazendo-o mais pra perto.
O beijo encaixou de forma esfomeada.
Sem cerimônia.
Sem protocolo.
Sem noivado de mentirinha, pais Novak, urticária, hospital ou qualquer outra palavra sensata sobrevivendo no meu cérebro.
Era só o peso dele, o gosto dele, a mão dele na minha pele, meu corpo respondendo inteiro como se estivesse esperando por aquilo há dias.
Quando Logan desceu o beijo de novo para o meu pescoço, eu perdi o ar.
E gritei:
— Ai! Ai, queima!
Ele parou na mesma hora.
Piscou duas vezes.
A realidade entrou no quarto sem bater.
Nós ficamos nos olhando por meio segundo — eu ofegante, ele por cima de mim, a mão na minha cintura, o clima inteiro quebrado por uma crise alérgica com timing de comédia.
Então rimos.
Rimos de verdade.
Um segundo só.
Mas o suficiente para salvar o constrangimento.
Logan apoiou uma mão no colchão e se afastou, respirando fundo, a expressão voltando lentamente para algo que se parecia com controle.
— Me chama se precisar de ajuda de novo — disse, a voz mais baixa do que antes.
Eu ainda estava deitada, quente, arrepiada, dolorosamente desperta em lugares que o antialérgico claramente não alcançava.
Minha voz saiu rouca.
— Chamo.
Ele ficou me olhando por um segundo a mais.
Depois ajeitou meu sutiã com um cuidado que foi pior do que o beijo.
— Boa noite, Mareu.
— Boa noite.
Logan se levantou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com a mesma calma com que tinha entrado.
Eu fiquei ali, imóvel na cama, a pele finalmente menos ardida, mas o resto de mim absurdamente aceso.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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