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Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva romance Capítulo 20

Domingo sempre teve cara de ressaca moral pra mim.

Não ressaca de festa, mas ressaca do tipo “o mundo lembra de uma coisa que você passou a semana inteira fingindo que não existe”.

E o mundo, naquele domingo, lembrava de mães.

A mansão estava silenciosa demais, com aquele silêncio caro de casa onde tudo funciona porque alguém invisível já fez funcionar antes. O sol entrava pelos vidros altos como se tivesse permissão, riscando o mármore impecável, e eu senti o mesmo desconforto de sempre: a sensação de estar num cenário que não foi feito pra alguém como eu.

Ou pior: a sensação de estar num cenário que foi feito exatamente pra alguém como eu — e que eu tinha abandonado.

Eu ouvi passos pequenos no corredor e nem precisei virar para saber quem era. Olívia tinha um jeito muito específico de existir: discreto, controlado, como se cada movimento fosse um contrato assinado com o próprio corpo.

Ela apareceu na porta da sala com o cabelo preso num coque torto de criança, uma camisola que parecia mais arrumada do que o necessário pra um domingo, e aquele olhar que sempre dava a impressão de estar calculando.

— Você tá aqui — ela disse, como quem constata um dado de planilha.

— Eu moro aqui agora, você esqueceu? — respondi, exagerando a naturalidade.

Ela franziu a testa, e eu vi o esforço que ela fazia pra não dizer o que realmente queria dizer.

— Mas… hoje é domingo.

O jeito como ela falou a palavra domingo me deu vontade de engolir vidro. Domingo de Dia das Mães. E se alguém naquela casa tinha aprendido a não pronunciar o que dói, era ela.

Eu me levantei antes que o ar ficasse pesado.

— Exatamente. Domingo. — Fiz cara de quem teve uma ideia genial. — Então eu tomei uma decisão adulta e responsável.

Olívia estreitou os olhos.

— Qual?

— Encomendei panquecas.

Ela me encarou por um segundo longo demais, como se estivesse tentando descobrir onde estava a cláusula oculta.

— Você tá... em trabalho?

— Eu? — coloquei a mão no peito, ofendida. — Olívia, por favor. Eu não trabalho aos domingos. Eu só… tive um desejo. E eu odeio comer sozinha.

O meu tom foi propositalmente casual, como se panquecas fossem um evento aleatório e não uma operação militar pra impedir uma criança de encarar o buraco do Dia das Mães.

— Quer comer comigo?

Ela hesitou. Deu um passo, depois outro, até a metade da sala como quem entra num território que não está no mapa.

— Aqui... na sala? Mas… e as regras?

— As regras tiraram folga no domingo.

Olívia sentou na ponta do sofá, retinha, sem encostar as costas. Postura de reunião. A panqueca no prato dela parecia um documento confidencial.

— Come.

Ela pegou um pedaço e começou a cortar em quadradinhos perfeitos, como se estivesse tentando dar ordem a algo que não se organiza: açúcar, massa, saudade.

— Tá bom — ela falou.

— Eu escolhi o melhor lugar, então — eu mordi a minha e fiz uma careta. — Mentira. Tá boa. Eu só gosto de reclamar. É meu hobby.

Olívia mastigou, olhando para o prato como se o prato fosse mais seguro do que olhar para mim.

— Seu hobby é gritar no teatro também.

Eu engasguei com uma risada.

— Aquilo não foi grito, foi incentivo profissional.

— Profissional do quê?

— De salvar apresentações — eu cortei outro pedaço. — E funcionou, não funcionou?

Capítulo 20 1

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