Domingo sempre teve cara de ressaca moral pra mim.
Não ressaca de festa, mas ressaca do tipo “o mundo lembra de uma coisa que você passou a semana inteira fingindo que não existe”.
E o mundo, naquele domingo, lembrava de mães.
A mansão estava silenciosa demais, com aquele silêncio caro de casa onde tudo funciona porque alguém invisível já fez funcionar antes. O sol entrava pelos vidros altos como se tivesse permissão, riscando o mármore impecável, e eu senti o mesmo desconforto de sempre: a sensação de estar num cenário que não foi feito pra alguém como eu.
Ou pior: a sensação de estar num cenário que foi feito exatamente pra alguém como eu — e que eu tinha abandonado.
Eu ouvi passos pequenos no corredor e nem precisei virar para saber quem era. Olívia tinha um jeito muito específico de existir: discreto, controlado, como se cada movimento fosse um contrato assinado com o próprio corpo.
Ela apareceu na porta da sala com o cabelo preso num coque torto de criança, uma camisola que parecia mais arrumada do que o necessário pra um domingo, e aquele olhar que sempre dava a impressão de estar calculando.
— Você tá aqui — ela disse, como quem constata um dado de planilha.
— Eu moro aqui agora, você esqueceu? — respondi, exagerando a naturalidade.
Ela franziu a testa, e eu vi o esforço que ela fazia pra não dizer o que realmente queria dizer.
— Mas… hoje é domingo.
O jeito como ela falou a palavra domingo me deu vontade de engolir vidro. Domingo de Dia das Mães. E se alguém naquela casa tinha aprendido a não pronunciar o que dói, era ela.
Eu me levantei antes que o ar ficasse pesado.
— Exatamente. Domingo. — Fiz cara de quem teve uma ideia genial. — Então eu tomei uma decisão adulta e responsável.
Olívia estreitou os olhos.
— Qual?
— Encomendei panquecas.
Ela me encarou por um segundo longo demais, como se estivesse tentando descobrir onde estava a cláusula oculta.
— Você tá... em trabalho?
— Eu? — coloquei a mão no peito, ofendida. — Olívia, por favor. Eu não trabalho aos domingos. Eu só… tive um desejo. E eu odeio comer sozinha.
O meu tom foi propositalmente casual, como se panquecas fossem um evento aleatório e não uma operação militar pra impedir uma criança de encarar o buraco do Dia das Mães.
— Quer comer comigo?
Ela hesitou. Deu um passo, depois outro, até a metade da sala como quem entra num território que não está no mapa.
— Aqui... na sala? Mas… e as regras?
— As regras tiraram folga no domingo.
Olívia sentou na ponta do sofá, retinha, sem encostar as costas. Postura de reunião. A panqueca no prato dela parecia um documento confidencial.
— Come.
Ela pegou um pedaço e começou a cortar em quadradinhos perfeitos, como se estivesse tentando dar ordem a algo que não se organiza: açúcar, massa, saudade.
— Tá bom — ela falou.
— Eu escolhi o melhor lugar, então — eu mordi a minha e fiz uma careta. — Mentira. Tá boa. Eu só gosto de reclamar. É meu hobby.
Olívia mastigou, olhando para o prato como se o prato fosse mais seguro do que olhar para mim.
— Seu hobby é gritar no teatro também.
Eu engasguei com uma risada.
— Aquilo não foi grito, foi incentivo profissional.
— Profissional do quê?
— De salvar apresentações — eu cortei outro pedaço. — E funcionou, não funcionou?
Ela assentiu e foi.
Logan ficou parado mais um segundo. Eu achei que ele ia dizer algo sobre eu estar “ocupando tempo” de Olívia com coisas desnecessárias, ou que eu devia “manter a rotina”, ou qualquer frase de CEO que não sabe falar “obrigado”.
Mas ele só fez um movimento mínimo com o queixo, como se marcasse minha presença, e saiu atrás da filha.
E aí eu fiquei sozinha no sofá, com um casal dramático na TV e um peso no peito que eu tinha conseguido empurrar para debaixo do tapete até aquele instante.
O domingo inteiro pareceu esticar.
Eu desliguei a TV. A casa ficou grande de novo.
Sem Olívia por perto, sem a missão de manter o mundo dela em pé, eu senti a verdade bater como água fria: eu não estava distraindo só ela. Eu estava distraindo a mim mesma.
Eu me levantei e fui andando sem rumo, até a porta de vidro que dava para os jardins. Lá fora, o ar tinha cheiro de grama molhada e riqueza antiga. Eu abracei os próprios braços e caminhei pelo caminho de pedra, tentando respirar.
E então, como se meus dedos fossem traidores, eu peguei o celular.
O contato estava lá. Um nome que eu evitava.
Eu devia ter guardado o aparelho no bolso. Devia ter entrado, feito mais café, ligado o dorama.
Mas eu apertei chamar.
Chamou.
Chamou.
Chamou mais.
Eu já estava com o polegar em cima do botão de desligar quando ouvi:
— Alô.

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