~ MAREU ~
Côte d’Azur tinha um tipo de azul que parecia indecente.
Eu não sabia se era a cor do mar, o jeito como o sol batia ou o fato de que, pela primeira vez em dias, ninguém tinha colocado um boletim de ocorrência emocional em cima da minha mesa.
A varanda do Hotel Milani dava para o mar. Um azul vivo, limpo, como se alguém tivesse passado um pano na paisagem. A brisa vinha salgada, leve, e trazia o som das ondas de um jeito que parecia música de fundo para gente rica fingindo que problemas não existem.
Eu, Logan e Samira ocupávamos a mesa do café como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
O que era quase engraçado.
Porque nada na minha vida era normal.
Samira estava com Liam no colo, paciente, fazendo o trabalho de sempre: existir como um pilar enquanto o resto do mundo ao redor desmorona. Liam usava um babador com uma estampa discreta demais para um bebê com vontade de viver perigosamente e batia as mãozinhas na mesa como se o suco fosse uma conquista científica.
Olívia estava sentada do outro lado, organizada, com o prato alinhado e o olhar de quem já mapeou a área inteira.
Logan, ao meu lado, parecia… confortável.
Eu ainda tinha dificuldade de acreditar quando via.
Ele tomava café sem olhar o celular a cada quinze segundos. Ele puxava uma fruta para Olívia como se fosse um gesto doméstico normal. Ele balançava o carrinho do Liam com um pé, distraído.
E eu me pegava olhando para ele como quem olha para um segredo que ainda não sabe guardar.
Eu estava cortando uma fatia de melão quando Logan olhou para a área do buffet como se estivesse calculando um trajeto.
— Vou pegar mais suco pra Olívia — ele disse, casual.
Olívia nem levantou o olhar.
— De laranja. Sem gelo.
— Sim, senhora — Logan respondeu, e se levantou.
Antes de sair, ele passou atrás da minha cadeira e, sem ninguém notar, tocou de leve meu ombro. Um toque rápido, quase inexistente.
Era um sinal.
Meu coração deu um pulo idiota.
Eu esperei dois segundos — o suficiente para não parecer suspeito — e me levantei também.
— Vou… pegar um guardanapo — eu improvisei.
Olívia me olhou por um segundo.
— Você não precisa de guardanapo. Você já tem.
— Eu preciso de… outro — eu disse.
E fui.
Logan estava perto de um pilar de pedra que sustentava a cobertura da varanda, fingindo escolher entre dois sucos como um homem comum. Quando eu passei por ele, ele não falou nada. Só segurou meu pulso por um segundo e me puxou para trás do pilar, para o lado onde o ângulo nos escondia da mesa.
Eu soltei o ar em uma risadinha nervosa.
— Isso é tão adolescente.
Logan encostou a mão na minha cintura.
— Eu sei.
— E você gosta — eu provoquei.
O canto da boca dele subiu.
— Dá uma adrenalina que eu não sinto há muito tempo.
Eu nem tive tempo de responder.
Ele me beijou.
Um beijo curto, faminto, rápido o suficiente para parecer apenas uma imprudência e longo o suficiente para me deixar com vontade de cometer um crime contra a lógica.
Quando nos afastamos, eu estava sorrindo.
E ele também.
— Você tá sorrindo de novo — eu murmurei.
— Culpa sua.
Mas eu era a Mareu. E a Mareu, quando está nervosa, tenta organizar o mundo com palavras.
— Você sabe que adultos também têm… fases, né? — eu comecei, mexendo no meu café como se aquilo fosse assunto casual. — Tipo… às vezes a gente fica mais… bobo.
Olívia franziu a testa.
— Por quê?
Eu pensei na melhor resposta. E na pior. E escolhi a mais neutra, que ainda assim saiu suspeita.
— Porque a gente esquece como é… sentir coisa nova.
Ela me encarou, séria demais.
— Você tá falando de amor?
Eu quase me engasguei. Quase derrubei minha xícara. Quase fui expulsa do Hotel Milani por falta de compostura.
— Eu tô falando de… vida — eu disse rápido demais. — Vida em geral.
Olívia ficou me analisando como se eu fosse um gráfico com erro.
— Você tá com cara de quem tá escondendo alguma coisa.
Meu coração deu um pulinho.
— Eu sempre tenho cara assim — eu tentei.
— Não — ela corrigiu. — Você tem cara de “planejando”. Hoje você tá com cara de “culpada”.
Eu abri a boca e fechei. Porque ela tinha razão demais para uma pessoa que ainda precisava de um banquinho para alcançar uma pia alta.
Nesse instante, Logan voltou com o suco e colocou na frente dela com a seriedade de quem acabou de cumprir uma missão diplomática.
Olívia nem agradeceu. Só olhou para ele e depois para mim, como se estivesse comparando versões da mesma mentira.
Eu sorri com a inocência de quem não tem nada a esconder.
Não funcionou.
Mas, ainda assim, eu respirei fundo, peguei mais um pedaço de fruta e fingi que o meu coração não estava batendo como se eu tivesse quinze anos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
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