Meu corpo inteiro congelou. Por um segundo, eu não consegui produzir som. Era como se eu tivesse ensaiado mil discursos e, no momento em que realmente precisava, eu tivesse esquecido até o meu nome.
Do outro lado, silêncio. Um silêncio que claramente era de julgamento.
Eu engoli seco.
— Oi, mãe — minha voz saiu pequena, ridícula. — Feliz Dia das Mães.
O silêncio do outro lado virou uma coisa viva.
Quando ela falou, foi com uma calma que doeu mais do que qualquer grito.
— Como você tem coragem?
A palavra coragem, na boca dela, soou como nojo.
— Eu… eu não devia ter ligado — eu disse, rápido, já tentando recuar, já tentando não existir.
— Não devia mesmo — ela respondeu. — A verdade é que você não devia ter feito muita coisa, Maria Eugênia. Mas aqui estamos.
Meu estômago virou.
— Mãe…
— Não venha com “mãe” — ela cortou. — Não venha desejar felicidades no dia de hoje. Você não tem esse direito depois do que fez. Você só me causou infelicidade. Você humilhou a nossa família.
Eu fechei os olhos, apertando o celular com força demais.
— Eu fugi porque eu precisava respirar.
— Respirar? — ela quase cuspiu a palavra, e ainda assim manteve a voz baixa, como alguém que sabe ser cruel sem perder a compostura. — Você fugiu porque é egoísta. Porque não aceita regras. Porque acha que o mundo existe pra te servir.
Uma risada curta, sem humor, atravessou a linha.
— E agora você me liga para desejar feliz Dia das Mães. Como se fosse… como se fosse a filha perfeita.
Meu peito queimou.
— Eu não sou a filha perfeita — eu disse, e a minha voz falhou no meio. — Eu só… eu senti sua falta.
— Falta? — ela repetiu, devagar. — Você sentiu minha falta no momento em que decidiu destruir tudo? No momento em que fugiu daquele noivado? No momento em que nos deixou com a vergonha?
Eu respirei fundo.
— Eu não ia aceitar que vocês decidissem a minha vida.
— Você ia sim — a certeza dela era uma parede. — Porque é assim que funciona. Porque você não é nada sem o nome que carrega.
Meu sangue gelou com a frase.
— E não adianta fingir que virou alguma coisa por aí — ela continuou. — Sua prima viu você ontem.
— O quê?
— Suzane — ela disse o nome como se fosse um instrumento, não uma pessoa. — Ela te viu no teatro. Com um homem.
Eu senti a grama embaixo dos meus pés virar areia movediça. A fofoqueira já tinha agido.
— Quem é ele, Maria Eugênia? — A voz dela ficou mais afiada. — Mais um desses que se aproxima da menininha ingênua com família rica?
Eu travei. Meu cérebro se recusou a processar a palavra teatro e homem na mesma frase sem explodir.
— Não… não é isso.
— Então o que é? — Ela insistiu. — Porque se você acha que pode brincar de vida nova e ainda assim manter portas abertas, você está enganada. Você não vai ter um centavo da nossa herança!
Eu senti uma raiva antiga subir, aquela raiva que eu escondi por anos em vestidos bonitos e sorrisos obedientes.
— Eu não quero o seu dinheiro — eu soltei, sem pensar.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...