~ MAREU ~
Eu abri a boca para ganhar tempo, o que era um truque péssimo, porque crianças inteligentes farejam enrolação como tubarões farejam sangue.
— Eu vou chamar o seu pai...
Olívia segurou meu pulso antes que eu saísse da cama.
— Não. — Ela me olhou com aqueles olhos grandes demais para o tamanho do rosto e sérios demais para a idade que tinha. — Você é minha melhor amiga. E eu tô perguntando pra você.
Meu coração fez uma coisa muito desagradável dentro do peito. Uma mistura de derreter e despencar ao mesmo tempo.
Eu suspirei, tentando costurar uma saída que não me transformasse na pior pessoa da Côte d’Azur antes das seis da manhã.
— Meu amor, tudo o que o seu pai faz por você é pro seu bem e…
— Não foi isso que eu perguntei! — ela interrompeu, já meio gritando, a voz embargando no final. — Eu perguntei se você ama o meu pai.
Pronto.
Estava ali. No meio do quarto de hotel, entre o termômetro, o copinho de remédio e o que restava da madrugada, a pergunta que eu vinha contornando desde o dia em que, sem querer, entrei na vida daquela família com a elegância de um meteoro atravessando a janela.
Eu podia mentir.
Podia dizer que não. Podia dizer “de outro jeito”. Podia usar aquelas respostas adultas que não respondem nada e ainda saem da boca com um ar de superioridade emocional que dá vontade de dar t***s em quem fala.
Podia.
Mas eu já tinha ouvido Logan mentir para protegê-la. E tinha entendido por quê. Tinha entendido tão bem que doía. Só que uma coisa é entender a lógica. Outra é olhar para Olívia Novak, de seis anos e três quartos e uma alma de cinquenta, e decidir que a pessoa que ela chama de melhor amiga também vai enganá-la.
Não dava.
Então eu fiz a única coisa que consegui.
Falei a verdade.
— Amo.
A palavra saiu simples. Limpa. Sem cenário, sem trilha sonora, sem dignidade.
Olívia não piscou.
Eu engoli em seco e continuei antes que o silêncio criasse dentes.
— Desculpa, Liv. Eu não queria. — Soltei um riso curto, sem humor nenhum. — Quer dizer… eu não queria confusão pra minha vida. Definitivamente não queria. Mas quando eu entrei na sua casa… na sua família… eu amei você primeiro. E o Liam. E então…
Minha voz vacilou. Porque dizer o nome dele ali, em voz alta, naquele contexto, parecia maior do que eu estava preparada para suportar.
Mesmo assim, fui.
— …veio o Logan. Devagar. No dia a dia. Vendo o que a gente tinha em comum, vendo como… combinava. Como ele me irritava. Como eu irritava ele. Como a gente se entendia mesmo quando fingia que não. — Passei a mão no rosto, cansada e constrangida e talvez uns três passos à frente do bom senso. — Eu amo o Logan. Não como amigo. Como homem.
Pronto.
A verdade ficou entre nós duas, sentada na cama, respirando.
E, imediatamente depois de dizê-la, pensei no tamanho monumental da besteira que eu estava fazendo.
Porque eu estava traindo o acordo que tinha feito com Logan. Estava atropelando a promessa silenciosa de esperar o momento certo, a hora certa, a forma certa. Estava traindo a estratégia. A prudência. O planejamento. Tudo aquilo de que Logan Novak gostava e eu, vez ou outra, debochava, mas reconhecia funcionar.
Talvez eu estivesse até traindo a Olívia, de algum jeito torto, por admitir que amava o pai dela quando sabia que isso ainda era um território delicado, dolorido, cheio de memória, cheio de Laura.
Mas eu não estava traindo a confiança dela de novo.
Isso eu não podia fazer.
A confiança daquela menina já tinha sido esticada até o limite por adultos bem-intencionados, atrapalhados, sofisticados, traumatizados e emocionalmente analfabetos — às vezes tudo na mesma pessoa. Se ela estava me perguntando diretamente, olhando para mim daquele jeito, eu não podia enfiar mais uma mentira entre nós.
Então fiquei esperando.
Olívia me encarou por alguns segundos que pareceram um semestre inteiro da minha vida. Não falou nada. Não fez cara feia. Não deu chilique. Não anunciou um contrato, uma multa, uma cláusula de rescisão e três observações em anexo, que era o que eu honestamente esperava da mini executiva sentimental à minha frente.
Ela só me olhou.
E então se jogou em mim.
Me abraçou pelo pescoço e enterrou o rosto no meu peito, começando a chorar.
Por um segundo eu nem reagi, porque meu cérebro ainda estava tentando entender se aquilo era bom, ruim ou um novo tipo de colapso infantil de luxo que eu desconhecia.
Depois abracei de volta.
— Desculpa. — Minha voz saiu apertada. — Desculpa, Liv. Eu posso lidar com isso… eu posso… dar um jeito nos meus sentimentos, eu posso engolir isso com água... ou com “chá da Cath” e…então...
Ela fungou contra o meu colo.
— Tudo bem.
Eu congelei.
— Tudo… bem?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Contratei uma Babá e ela era Minha Noiva Fugitiva
Quantos capítulos por dia são liberados?...